Conforme especialistas consultados por ZH, a receita empregada pelo advogado Jader Marques tem como base técnicas de criminologia que procuram destacar o lado humano do suspeito e distribuir a culpa entre mais pessoas a fim de buscar um indiciamento menos severo.
No Facebook, um dos instrumentos utilizados pelo advogado, Marques publicou domingo a íntegra de três vídeos de uma entrevista com seu cliente. Ele se queixou de que a versão exibida pelo programa Fantástico, da TV Globo, não mostrou o lado "humano" de Kiko.
O profissional, um dos mais conhecidos criminalistas gaúchos e íntimo do célebre advogado Lia Pires, já falecido, também tem procurado ressaltar a responsabilidade de outros envolvidos no caso, como o Corpo de Bombeiros. O jurista de São Paulo Luiz Flávio Gomes sustenta que a estratégia utiliza duas técnicas principais:
— São técnicas estudadas em criminologia e conhecidas como neutralização e justificação. A intenção é neutralizar o que está sendo dito a respeito do cliente, e justificar alguma coisa que tenha sido feita. Quem tem acesso à mídia, por exemplo, tenta mostrar o lado humano do réu.
Estratégia traz risco de reação negativa
Na avaliação de Gomes, nesse tipo de caso de grande comoção pública, o objetivo do advogado é evitar o enquadramento do cliente por crimes mais graves. Para isso, começam a surgir iniciativas que, mesmo sem estarem publicamente relacionadas à defesa, também cumprem essa missão.
No Facebook, a página Força Kiko, lançada ontem, compartilha as gravações do advogado e mensagens de apoio ao empresário. Outra mobilização virtual busca fazer um vídeo com mensagens favoráveis a ser repassado ao advogado e a Kiko — que poderá receber alta hoje. Ele será encaminhado a uma delegacia e, depois, a um presídio.
Um criminalista gaúcho, que prefere não revelar o nome por razões éticas, sustenta que a estratégia de Marques tem a intenção de atrair simpatia, mas envolve riscos:
— Em um momento de consternação, qualquer frase mal colocada pode resultar em reação negativa.
Procurado à tarde, Marques disse que não falaria à imprensa. Pela manhã, à Rádio Gaúcha, afirmou que não eram utilizados fogos no interior da boate durante as festas.

Como aconteceu
O incêndio na boate Kiss, no centro de Santa Maria, começou entre 2h e 3h da madrugada de domingo, quando a banda Gurizada Fandangueira, uma das atrações da noite, teria usado efeitos pirotécnicos durante a apresentação. O fogo teria iniciado na espuma do isolamento acústico, no teto da casa noturna.
Sem conseguir sair do estabelecimento, pelo menos 237 jovens morreram e outros 100 ficaram feridos. Sobreviventes dizem que seguranças pediram comanda para liberar a saída, e portas teriam sido bloqueadas por alguns minutos por funcionários.
A tragédia, que teve repercussão internacional, é considerada a maior da história do Rio Grande do Sul e o maior número de mortos nos últimos 50 anos no Brasil.
Em gráfico, entenda os eventos que originaram o fogo:
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A boate
Localizada na Rua Andradas, no centro da cidade de Santa Maria, a boate Kiss costumava sediar festas e shows para o público universitário da região. A casa noturna é distribuída em três ambientes - além da área principal, onde ficava o palco, tinha uma pista de dança e uma área vip. De acordo com a Polícia Civil, a danceteria estava com o plano de prevenção de incêndios vencido desde agosto de 2012.
Clique na imagem abaixo para ver o antes e o depois da danceteria:
A festa
Chamada de "Agromerados", a festa voltada para estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) começou às 23h de sábado. O evento era de acadêmicos dos cursos de Agronomia, Medicina Veterinária, Tecnologia de Alimentos, Zootecnia, Tecnologia em Agronegócio e Pedagogia.
Segundo informações do site da casa noturna, os ingressos custavam R$ 15 e as atrações eram as bandas "Gurizadas Fandangueira", "Pimenta e seus Comparsas", além dos DJs Bolinha, Sandro Cidade e Juliano Paim.







