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Tragédia em Santa Maria05/02/2013 | 05h02

Eros Roberto Grau: "Carta a Santa Maria"

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Tiradentes (MG), 1º de fevereiro de 2013

Amiga,

Estou lendo um livro, escrito por um físico norte-americano, sobre a possibilidade de um multiverso em lugar do universo. Um livro sério. Difícil de ler, sobretudo para quem - como eu - nada sabe de mecânica quântica e física. Mas o texto, ainda assim, me fascina. Para que tenhas uma leve ideia do quanto encanta, admitas a possibilidade de que existam incontáveis cópias minhas vivendo em incontáveis universos paralelos a este que pensamos conhecer, possivelmente começando a te escrever.

Se for assim, a realidade em cada um desses inumeráveis universos, onde se encontram inumeráveis Terras, pode ou não ser repetitiva.

Pois decido, agora, que não. Não se repete e, certamente, querida, certamente terei entrado, na madrugada do domingo, 28, em um tunelamento quântico, errando de universo. Não é verdade que te machucaram.

Não quero ver as imagens que chegam pela televisão. Mudo de canal, penso nesse livro que ando a ler, tento convencer-me de que essa tragédia aconteceu em outro universo. Fecho os olhos, penso em ti.

Penso no pai, meu primeiro amigo. Em uma canção que toda a nossa gente conhece, o César Passarinho pede o que mais desejo: que digam, quando eu passe, que saí igualzito ao pai. Caminhávamos pela primeira quadra, que desemboca na praça Saldanha Marinho, onde, em noites não tão frias, as moças passeavam em um sentido, os rapazes pelo lado oposto, como que compondo um carrossel.

Ali, na primeira quadra, em 1943 - penso que era 1943 - recebi uma lição exemplar. O pai encontrara três amigos, o Edmundo Cardoso, o Círio Simões Pires e o Cherubim Abelim. Em um instante, o guri que eu era - ainda não completara três anos - tomou nas mãos um livro que estava com o Círio e jogou no chão. O pai ralhou comigo de modo inesquecível: "Tu não tens senso de responsabilidade!". O episódio ficou marcado na história da família que fomos nós três, a mãe, o pai e eu. No teu chão aprendi a não ter manhas de filho único.

Deixei-te bem gurizinho. Mas voltávamos sempre, tu sabes, embora nunca mais de uma vez por ano. Sempre que ia ao teu encontro eu me sentia voltando, retornando ao começo.

Certo dia, no início dos anos 50, caminhávamos pela "primeira quadra". Meu pai encontrava velhos amigos e, apontando-me, dizia: "este é o Eros Roberto, meu filho". Sorríamos, e o guri que eu era sentia-se firme no mundo.

Deixei-te tão cedo, querida. Por isso mesmo, com vontade de voltar. Vontade de recuperar imagens, vozes, gestos. Coisas da década dos 40. Meu avô de bombachas me descascando laranjas, fazendo-lhes, nos ventres aloirados, pocinhos bem marcados. Anos depois, aventuras e venturas de adolescente e de já moço, tantas! Tenho muito a contar, de ti e de mim, em conversas de galpão comigo mesmo.

O tempo passa e, nesse ir-se indo, leva pessoas, sopra memórias. Guardo-as cuidadosamente, de modo que, se hoje passeasse pela primeira quadra, lá as encontraria. Seria tão bom, como se em meu tempo de menino, caminhar agora por ali, encontrar amigos do pai, olhar as moças na praça.

De quando em quando falo por telefone com os primos, prometo de repente aparecer, botaremos a prosa em dia lá na Sociedade Concórdia Caça e Pesca, na Venâncio Aires. Vamos logo nos ver - garantimo-nos uns aos outros.

Assim fluía o tempo, a areia escorrendo docemente na ampulheta, até que meu sonho de menino foi bruscamente interrompido. De repente, foi como se aquela fumaça me envolvesse, acordasse sufocado e descobrisse que - mais do que frágil, passageira, inconsistente - a vida que surpreende para o belo repentinamente apunhala. Um punhal cravado em nosso peito.

Por isso, querida, agora te escrevo. Tenho falado em ti nesses últimos dias, tenho dito coisas que repito nesta carta. Não podendo estar neste momento ao teu lado, escrevo-te. Mas é como se eu te tomasse em meus braços. Tu, que embalaste tanto o guri que continua em mim. Tomo tuas mãos, carinhosamente. As lágrimas em meus olhos já não são como as que os alcançam quando enlaço ternuras que despertas em mim. Agora é como se eu te abraçasse, trazendo-te bem para perto de mim, e nos uníssemos ainda mais sob essa enorme tristeza.

EROS ROBERTO GRAU

Santa-mariense, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, professor titular aposentado da Universidade de São Paulo, membro da Academia Paulista de Letras.

Clique na imagem e confira o perfil das 237 vítimas

Como aconteceu

O incêndio na boate Kiss, no centro de Santa Maria, começou entre 2h e 3h da madrugada de domingo, quando a banda Gurizada Fandangueira, uma das atrações da noite, teria usado efeitos pirotécnicos durante a apresentação. O fogo teria iniciado na espuma do isolamento acústico, no teto da casa noturna.

Sem conseguir sair do estabelecimento, pelo menos 237 jovens morreram e outros 100 ficaram feridos. Sobreviventes dizem que seguranças pediram comanda para liberar a saída, e portas teriam sido bloqueadas por alguns minutos por funcionários.

A tragédia, que teve repercussão internacional, é considerada a maior da história do Rio Grande do Sul e o maior número de mortos nos últimos 50 anos no Brasil.

Em gráfico, entenda os eventos que originaram o fogo:

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A boate

Localizada na Rua Andradas, no centro da cidade de Santa Maria, a boate Kiss costumava sediar festas e shows para o público universitário da região. A casa noturna é distribuída em três ambientes - além da área principal, onde ficava o palco, tinha uma pista de dança e uma área vip. De acordo com a Polícia Civil, a danceteria estava com o plano de prevenção de incêndios vencido desde agosto de 2012.

Clique na imagem abaixo para ver o antes e o depois da danceteria:


A festa

Chamada de "Agromerados", a festa voltada para estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) começou às 23h de sábado. O evento era de acadêmicos dos cursos de Agronomia, Medicina Veterinária, Tecnologia de Alimentos, Zootecnia, Tecnologia em Agronegócio e Pedagogia.

Segundo informações do site da casa noturna, os ingressos custavam R$ 15 e as atrações eram as bandas "Gurizadas Fandangueira", "Pimenta e seus Comparsas", além dos DJs Bolinha, Sandro Cidade e Juliano Paim.

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