O chileno Alejandro Zuniga, 37 anos, olhava perplexo para uma cratera que se abriu na tarde desta quarta-feira na Rua Coronel Bordini e engoliu parte do seu carro. O arquiteto estava na cidade chilena Concepción quando ocorreu o último terremoto há quase quatro anos e notou na cena que se desenrolava semelhanças familiares.
— A cara deste lugar, deste espaço de 30 metros de destruição, me faz lembrar e muito o que vi no Chile passado o terremoto — concluiu Zuniga, estupefato, sem tirar os olhos do Clio preto, que só não foi totalmente tragado porque as rodas traseiras ficaram presas em um bueiro de ferro, colado à calçada, quase esquina com a Marquês do Pombal.
Logo atrás do veículo de Zuniga, estava o Palio prata de Viviane Jacques, 36 anos. Protegida por um guarda-chuva, a mulher também não conseguia desviar a atenção do carro, cujas rodas da frente sucumbiram ao buraco. E foi por pouco que Viviane não vivenciou situação mais grave.
Ela lembra que estacionou o carro um pouco antes do estrago. Como chovia muito, decidiu ficar ali dentro, uns 15 minutos, aguardando que estiasse. O aguaceiro não dava trégua. Ela tinha horário marcado no salão de beleza. Optou por encarar a rua. Pouco depois o veículo afundou.
— Uma mulher comentou conosco: "bah, tem uns carros que estão afundando ali na rua". Pensei: "não pode ser o meu". Quando saí na rua vi que era. Me desesperei. E agora? Quem vai pagar o prejuízo? O seguro não cobre estragos por eventos naturais. Foi o cabeleireiro mais caro da história — disse Viviane.
Quem presenciou a cena disse que a rua alagou, que a água subiu a cerca de 90 centímetros de altura, invadindo casas e prédios. Quando começou a escoar, os dois automóveis desciam juntamente com a água. Do outro lado da rua, um buraco de tamanho similar também se abriu, sem carro por perto.
A Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) bloqueou o acesso da Bordini, desviando o trânsito pela Marquês do Herval, Doutor Timóteo, retornando à Marquês do Pombal. Os proprietários devem registraram boletim de ocorrência. Até as 19h30min, os veículos não haviam sido retirados. A recomendação do órgão é de que evitem transitar nas principais vias da zona leste e área central da Capital.
A rua que levou pânico para comerciantes, clientes e moradores das proximidades com a Rua Marquês do Pombal, viveu o paradoxo de ser ao mesmo tempo o alvo da maior obra de drenagem urbana de Porto Alegre, finalizada em 2008, e dos maiores estragos da chuva da tarde de ontem na cidade.
Por ali passa a maior galeria do Conduto Álvaro Chaves, com 7,5 metros de largura por 2,5 metros de um meio-fio ao outro da rua. Para a execução desta galeria o Departamento de Esgotos Pluviais (DEP) fez uma escavação de 8,8 metros d e profundidade, equivalente a um prédio de 2,5 andares. A execução do conduto foi iniciada em 2005 para controlar alagamentos em nove bairros da cidade.








