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Na estrada06/02/2013 | 21h54

Casal transforma ônibus em salão e viaja pelo Estado à caça de cabelos

Cabeleireiros de Passo Fundo compram mechas e confeccionam perucas para quem sofre de câncer

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Casal transforma ônibus em salão e viaja pelo Estado à caça de cabelos Diogo Zanatta/Especial
Casal gaúcho já percorreu mais de mil quilômetros pela Região Sul Foto: Diogo Zanatta / Especial
A morte de uma criança vítima de câncer fez o casal de cabeleireiros Joel Flores, 35 anos, e Deise Flores, 33, criar uma técnica para confeccionar perucas a pacientes da doença.

Com o tempo, o serviço oferecido de porta em porta nas ruas de Passo Fundo, no norte do Estado, virou uma rotina de busca por madeixas pelo Interior a bordo de um ônibus, transformado em salão.

Colado na lateral do veículo roxo, entre a porta e uma das janelas, um mapa da Região Sul mostra os lugares percorridos nos últimos dois anos. Cada cidade visitada recebe marcação com caneta azul. O casal calcula ter viajado mais de mil quilômetros atrás de cabelos.

O negócio se iniciou quando os dois trabalhavam em um salão de beleza em Passo Fundo, onde moram. Na época, eles sofreram com a morte da sobrinha da dona do estabelecimento, que tinha 12 anos quando sucumbiu ao câncer.

Motivados pela ex-chefe, passaram a comprar cabelos para confecção de perucas. No entanto, poucas mulheres arriscavam mudar o visual em troca de dinheiro.

— Era difícil convencer alguém a se desfazer do cabelo por um corte à altura dos ombros — lembra Flores.

Depois de testes com a família, ele criou a técnica que impulsionou o negócio: a retirada de pequenas mechas do cabelo, mantendo o comprimento. Acompanhado da mulher, passava de porta em porta oferecendo o corte. Quatro anos depois, os dois compraram o ônibus e montaram um salão itinerante.



Desde lá, não pararam mais de viajar. Com 12 funcionários atualmente, a meta para este ano é ampliar o serviço com a adaptação de uma van.

Peruca devolve autoestima a pacientes em tratamento

A iniciativa do casal transformou a vida de pessoas como Célia Regina Milde, que aos 46 anos teve diagnóstico de câncer de mama. Moradora de Passo Fundo, ela necessitou de quimioterapia para o tratamento. Por isso, ficou sem cabelos um mês depois, em abril de 2011.

Então, começou a usar lenços, toucas e bonés para proteger a cabeça. Depois de passar por uma cirurgia, Célia decidiu procurar uma peruca no ano passado.


Célia guarda peruca com carinho em casa
Foto: Fabiana Beltrami, Especial

Comprou do casal um modelo castanho claro, com luzes em algumas mechas. No primeiro passeio com as madeixas, já notou a diferença:

— Ninguém mais me olhava com pena. Eu era uma pessoa normal.

Para Célia, foi como se a peruca tivesse devolvido o sorriso e a autoestima habituais antes de descobrir a doença. Curada, hoje ela vê os cabelos crescerem novamente, mas não pensa em se desfazer da peruca. Guarda em casa, como símbolo da vitória contra o câncer.

Madeixas gaúchas valorizadas

— Quem corta o cabelo recebe até R$ 1 mil, dependendo do comprimento e do tipo do fio. Os loiros e os cacheados são os mais valorizados.

— Uma combinação de ascendência europeia, clima e alimentação fazem o cabelo gaúcho ser bastante valorizado no país. Cem gramas custam de R$ 300 a R$ 800.

— As mechas retiradas de quatro clientes, em média, são suficientes para confeccionar uma peruca.

— Prontas, as perucas custam no mínimo R$ 300.

— Os cabelos gaúchos são vendidos para grandes salões de Santa Catarina, São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro – onde são usados por famosos.

— Em quatro anos, o casal já vendeu cerca de 500 perucas.

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