Com o tempo, o serviço oferecido de porta em porta nas ruas de Passo Fundo, no norte do Estado, virou uma rotina de busca por madeixas pelo Interior a bordo de um ônibus, transformado em salão.
Colado na lateral do veículo roxo, entre a porta e uma das janelas, um mapa da Região Sul mostra os lugares percorridos nos últimos dois anos. Cada cidade visitada recebe marcação com caneta azul. O casal calcula ter viajado mais de mil quilômetros atrás de cabelos.
O negócio se iniciou quando os dois trabalhavam em um salão de beleza em Passo Fundo, onde moram. Na época, eles sofreram com a morte da sobrinha da dona do estabelecimento, que tinha 12 anos quando sucumbiu ao câncer.
Motivados pela ex-chefe, passaram a comprar cabelos para confecção de perucas. No entanto, poucas mulheres arriscavam mudar o visual em troca de dinheiro.
— Era difícil convencer alguém a se desfazer do cabelo por um corte à altura dos ombros — lembra Flores.
Depois de testes com a família, ele criou a técnica que impulsionou o negócio: a retirada de pequenas mechas do cabelo, mantendo o comprimento. Acompanhado da mulher, passava de porta em porta oferecendo o corte. Quatro anos depois, os dois compraram o ônibus e montaram um salão itinerante.
Desde lá, não pararam mais de viajar. Com 12 funcionários atualmente, a meta para este ano é ampliar o serviço com a adaptação de uma van.
Peruca devolve autoestima a pacientes em tratamento
A iniciativa do casal transformou a vida de pessoas como Célia Regina Milde, que aos 46 anos teve diagnóstico de câncer de mama. Moradora de Passo Fundo, ela necessitou de quimioterapia para o tratamento. Por isso, ficou sem cabelos um mês depois, em abril de 2011.
Então, começou a usar lenços, toucas e bonés para proteger a cabeça. Depois de passar por uma cirurgia, Célia decidiu procurar uma peruca no ano passado.

Célia guarda peruca com carinho em casa
Foto: Fabiana Beltrami, Especial
— Ninguém mais me olhava com pena. Eu era uma pessoa normal.
Para Célia, foi como se a peruca tivesse devolvido o sorriso e a autoestima habituais antes de descobrir a doença. Curada, hoje ela vê os cabelos crescerem novamente, mas não pensa em se desfazer da peruca. Guarda em casa, como símbolo da vitória contra o câncer.
Madeixas gaúchas valorizadas
— Quem corta o cabelo recebe até R$ 1 mil, dependendo do comprimento e do tipo do fio. Os loiros e os cacheados são os mais valorizados.
— Uma combinação de ascendência europeia, clima e alimentação fazem o cabelo gaúcho ser bastante valorizado no país. Cem gramas custam de R$ 300 a R$ 800.
— As mechas retiradas de quatro clientes, em média, são suficientes para confeccionar uma peruca.
— Prontas, as perucas custam no mínimo R$ 300.
— Os cabelos gaúchos são vendidos para grandes salões de Santa Catarina, São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro – onde são usados por famosos.
— Em quatro anos, o casal já vendeu cerca de 500 perucas.








