Versão mobile

Burocracia na Capital02/02/2013 | 13h01

As fragilidades que prejudicam a fiscalização dos alvarás em Porto Alegre

ZH esteve em oito casas noturnas e fez um checklist da segurança na Capital e em Pelotas

Enviar para um amigo
Carlos Guilherme Ferreira

carlos.ferreira@zerohora.com.br

Os alvarás concedidos pela prefeitura de Porto Alegre para o funcionamento de qualquer estabelecimento que atenda o público, como casas noturnas, são eternos.

Além disso, a partir da liberação do documento, é possível passar anos a fio sem receber inspeções.

Confira aqui o checklist das casas noturnas e o que dizem os responsáveis

A situação cria um vácuo na fiscalização de medidas de combate a incêndios: para receber o aval de funcionamento da prefeitura, um empreendimento precisa apresentar, entre outros papéis, o alvará dos bombeiros, que, no caso das casas noturnas, deve ser renovado anualmente.

Como a prefeitura expede uma licença sem qualquer prazo de validade, o dono do estabelecimento só é obrigado a exibir ao município a permissão do Corpo de Bombeiros no pedido de abertura da casa.

Depois disso, pode esquecer o assunto, uma vez que a prefeitura não exige a revalidação da sua licença, medida que demandaria cuidados mais constantes em relação à segurança.

O problema começa na formatação do alvará: não existe lei para definir seu conteúdo. Isso permite que o espaço reservado para o prazo de vencimento seja preenchido por asteriscos — um indicativo de validade indefinida. Também há falta de critérios para definir as atividades do estabelecimento. Conforme o secretário Humberto Goulart, da Secretaria Municipal da Produção, Indústria e Comércio (Smic), há casos de quem desempenha serviços diferentes daqueles descritos no alvará.

Ninguém sabe ao certo, por exemplo, quantas casas noturnas há em Porto Alegre. Na quarta à tarde, a prefeitura divulgou uma lista com a situação de 77 estabelecimentos — apesar de, no site da Smic, haver apenas 48 registros. Na sexta-feira, o próprio Goulart corrigiu a listagem para 86 (segundo ele, 48 regulares, 32 em regularização e seis funcionando com liminar).

— Casas noturnas são todas que funcionam depois da meia-noite. Este é o critério — afirmou, citando o Decreto 14.607, de 2004.

Ou seja: a regra não exige saber a capacidade de uma boate. ZH constatou isso na quarta-feira, ao pedir à Smic a relação das 10 maiores casas da Capital, com o objetivo de realizar o teste que o leitor encontra abaixo. A secretaria afirmou não ter as informações, o que explica a ausência deste número no alvará da prefeitura. Nos bombeiros, os dados também não estão disponíveis.

Sorteio define onde haverá fiscalização

Segundo Goulart, a Smic adota a medida de uma pessoa por metro quadrado para calcular capacidades. Ele reclama de disparidade em relação à legislação estadual:

— Se tem 88 metros quadrados, só pode ter 88 pessoas. Aí, vemos que a casa está com 180. Não adianta notificar, porque a lei estadual diz que são duas pessoas por metro quadrado.

Fiscalizar, aliás, é outro nó. Apesar de o alvará exibir asteriscos no prazo de vencimento, a Smic diz visitar um estabelecimento a partir do terceiro ano de concessão da permissão. Isto é feito por amostragem, o que dá margem para duas conclusões:

1) Se o estabelecimento não for sorteado, o dono não será fiscalizado.

2) Como o alvará dos bombeiros da Capital vence em um ano, é possível ficar outros dois anos longe da mira da Smic.

Pior: em caso de irregularidade, o prazo para acertar os ponteiros e legalizar a papelada leva, em média, um ano e três meses.

De acordo com o advogado João Lacê Kuhn, professor de Direito Empresarial na PUCRS e na Unisinos, do ponto de vista estritamente legal o alvará é adequado. Parafraseando Garrincha, porém, é possível dizer que falta só combinar com os russos.

— No caso, o que dá efetividade é a fiscalização, além da idoneidade moral dos empresários — atesta Kuhn.

*Colaboraram André Mags, Eduardo Rosa e Júlia Otero

ENTREVISTA

Humberto Goulart

Secretário da Produção, Indústria e Comércio de Porto Alegre

"Tem muita coisa para ser arrumada"

Titular da Secretaria Municipal da Produção, Indústria e Comércio (Smic), Humberto Goulart conversou com Zero Hora na sexta-feira sobre a concessão dos alvarás.

Zero Hora — Por que há casas noturnas em processo de regularização?

Humberto Goulart — Em regularização, estão aquelas que estão devendo (licenças). Isso acontece quando, na cadeia formada pelas secretarias de Planejamento, Obras e Viação, Meio Ambiente e bombeiros, está faltando uma autorização, que não é a dos bombeiros.

ZH — Quanto tempo leva para finalizar este processo?

Goulart — Leva de meses a anos. A média é um ano e três meses.

ZH — Não é muito tempo?

Goulart — É.

ZH — Por que os alvarás não têm prazo de vencimento?

Goulart — É em três anos que a Smic recebe o pedido de regularização, de novo, para o negócio. Tem os bombeiros uma vez por ano e a Smic, de três em três anos. É uma coisa exagerada, né? Três anos, acho muito.

ZH — Mas, vendo os asteriscos no alvará, parece que ele não vence nunca.

Goulart — É. Parece que não vence nunca.

ZH — Isto será mudado?

Goulart — Tem de mudar.

ZH — Então, é a pessoa que pede a fiscalização?

Goulart — Isso. Ou se ela cai numa fiscalização por amostragem. Por que todo mundo tem de pedir para estar em dia com os alvarás? Porque se cair na amostragem e não tiver, é fechado ou multado.

ZH — Se a pessoa tiver "sorte", pode ficar anos a fio irregular?

Goulart — Te digo que talvez exista.

ZH — A Smic não cobra os outros órgãos para fiscalizarem?

Goulart — É por amostragem (a fiscalização das boates na Capital). O cara tem de ter também a sorte de não ser sorteado. A chance aumenta assim: como são três anos de validade do alvará, quando uma casa é sorteada ela ficará por três anos sem nova visita. Aí, entra outra casa no lugar. Aproxima-se muito de uma amostragem fidedigna.

ZH — Se eu receber um alvará hoje, então não vou receber visita por três anos? Pode vencer o alvará dos bombeiros e eu vou ficar por dois anos com ele vencido.

Goulart — Tem muita coisa para ser arrumada.

ZH — Se os outros órgãos não fiscalizarem, a Smic acaba não sabendo?

Goulart — Verdade.

Siga perfis de ZH no Twitter

Imprimir
clicRBS
Nova busca - outros