A preocupação do jovem reflete o sentimento de muitos baladeiros que saíram na noite deste sábado, primeiro final de semana após o incêndio na boate Kiss, em Santa Maria. Quem buscava diversão encontrou, embora essa não tenha sido uma noite complemente comum.
— Pensei duas vezes antes de sair de casa hoje — admite Pedrollo, perguntando onde ficava a saída de emergência.
A mesma reação teve a veterinária Elisângela Teixeira, formada em Santa Maria. Antes de cair na noite, ela e a amiga Alejandra Bornia pesquisaram na internet quais as casas que estava seguras. Ao entrar no bar Rosário Resto Lounge, ela admite que procurou um lugar próximo à porta de saída.
Essa foi a primeira vez que muitos jovens, antes desatentos a questões de segurança, tiveram curiosidade sobre a localização dos extintores, o tamanho das portas e a regularidade do estabelecimento. Mas isso não foi motivo para fazer os porto-alegrenses ficarem em casa.
Pela observação dos porteiros e donos de bares, mesmo preocupado, o público queria diversão. Em um tour pelas principais casas noturnas na madrugada deste sábado, encontrou-se movimento maior nos bairros Bom Fim, Cidade Baixa e Moinhos de Vento.
Na Venâncio Aires, a capacidade da boate Laika era de 400 pessoas, mas o gerente Adão Madeira estava distribuindo fichas até o número 350 para evitar a superlotação da casa. A atitude encontrou compreensão dos que estavam na fila.
— Não me importo de esperar um pouco mais para entrar. Achei certa a medida. Não gosto de festa lotada demais e me preocupo com segurança — disse o publicitário Francis Igor Jandrey, 26 anos, sem ansiedade.
Após uma jornada de voos pelo país, a comissária de bordo Tâmisa Bandeira, 27 anos, foi para o Thomas Pub, na Padre Chagas, tão logo aterrissou em solo gaúcho. Mesmo estando acostumada a lidar com questões de segurança nas aeronaves, a aeromoça não pensou muito sobre os critérios para escolher o destino da madrugada — simplesmente seguiu a indicação de amigos:
— A gente não tem essa cultura de lidar com segurança. Os ambientes não são favoráveis, e os equipamentos não ficam à mostra — observa.
— Por mais que tenha luto, a vida segue — afirmou Rebecca Wenk,a atriz e hostes da festa Blow Up (no Ocidente) ao definir o sentimento da noite na Capital.
Como aconteceu
O incêndio na boate Kiss, no centro de Santa Maria, começou entre 2h e 3h da madrugada de domingo, quando a banda Gurizada Fandangueira, uma das atrações da noite, teria usado efeitos pirotécnicos durante a apresentação. O fogo teria iniciado na espuma do isolamento acústico, no teto da casa noturna.
Sem conseguir sair do estabelecimento, pelo menos 237 jovens morreram e outros 100 ficaram feridos. Sobreviventes dizem que seguranças pediram comanda para liberar a saída, e portas teriam sido bloqueadas por alguns minutos por funcionários.
A tragédia, que teve repercussão internacional, é considerada a maior da história do Rio Grande do Sul e o maior número de mortos nos últimos 50 anos no Brasil.
Em gráfico, entenda os eventos que originaram o fogo:

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A boate
Localizada na Rua Andradas, no centro da cidade de Santa Maria, a boate Kiss costumava sediar festas e shows para o público universitário da região. A casa noturna é distribuída em três ambientes - além da área principal, onde ficava o palco, tinha uma pista de dança e uma área vip. De acordo com a Polícia Civil, a danceteria estava com o plano de prevenção de incêndios vencido desde agosto de 2012.
Clique na imagem abaixo para ver o antes e o depois da danceteria:
A festa
Chamada de "Agromerados", a festa voltada para estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) começou às 23h de sábado. O evento era de acadêmicos dos cursos de Agronomia, Medicina Veterinária, Tecnologia de Alimentos, Zootecnia, Tecnologia em Agronegócio e Pedagogia.
Segundo informações do site da casa noturna, os ingressos custavam R$ 15 e as atrações eram as bandas "Gurizadas Fandangueira", "Pimenta e seus Comparsas", além dos DJs Bolinha, Sandro Cidade e Juliano Paim.













