"Acho que encontrei o anjo que me tirou da boate Kiss! E graças a Deus ele está vivo e bem!". Com esta mensagem divulgada no perfil do Facebook, a estudante Débora Parode Assumpção, 24 anos, anunciou o fim de uma busca pela pessoa que a havia retirado de uma pilha de corpos na tragédia de 27 de janeiro.
Quem insistiu em resgatá-la foi o segurança da boate Rodrigo Moura Ruoso, 20 anos, que inicialmente tentou conter o fogo com extintor e, depois, correu incessantemente para salvar pessoas que não conseguiriam sair sem ajuda. Na segunda-feira à tarde, os dois se reencontraram em frente à boate Kiss. Entre sorrisos tímidos, eles trocaram abraços e relembraram o ato de bravura do segurança.
Quando foi resgatada, Débora estava quase sem forças. Só lembra de ter abraçado um homem loiro, que a deixou no estacionamento no supermercado sob os cuidados de uma amiga. Depois de ficar internada seis dias em Santa Maria, ela reconheceu o segurança em uma entrevista na televisão. Pela rede social, fez o primeiro contato e, em uma conversa, descobriram que haviam dividido o momento mais difícil da vida de ambos.
_ Vi as fotos dela e veio um flash com a imagem dela na Kiss. Lembro que insisti em tirá-la _ comenta Rodrigo, que ficou internado no Hospital de Caridade por 10 dias.
Extintor estaria descarregado
Rodrigo Moura Ruoso estava internado no Hospital de Caridade desde a segunda-feira, após o incêndio na boate Kiss e recebeu alta na semana passada. O segurança trabalhava na boate na noite da tragédia e foi o primeiro a acionar o extintor na tentativa de apagar o fogo que começou perto do palco, por volta das 2h30min. Ruoso afirma que, em seguida, o vocalista da banda Gurizada Fandangueira também tentou fazer o extintor funcionar, mas não conseguiu.
_ Eu tentei mais três vezes e desisti. Nisso, o fogo já estava aumentando. Foi questão de três minutos, e o fogo já tinha tomado conta da casa. Então, pedi para as pessoas saírem _ relata.
De acordo com o segurança, a boate sempre teve movimento grande e, geralmente, as festas estavam lotadas. Na noite do incêndio, Ruoso acredita que cerca de 1,2 mil pessoas estavam na boate.
_ Naquela noite, não parecia ter mais gente do que o normal. Dava para se mexer, devia ter umas 1,2 mil, 1,5 mil pessoas. Mas um número X vai ser difícil conseguir porque a maioria das comandas foi embora com os corpos ou queimou.
Ruoso é funcionário da uma empresa terceirizada que fazia a segurança em algumas noites, na boate Kiss. Em uma festa, há cerca de um mês, o jovem conta que presenciou dois universitários brincando com um extintor.
_ Dois guris estavam fazendo festa e acabaram soltando o extintor. Eles foram retirados do local por dois colegas, depois, eu não sei o que houve.
O segurança diz que o extintor descarregado seria o mesmo que ele tentou usar na noite da tragédia.
_ A gente não sabia se tinha sido carregado, e ele (o extintor) estava com lacre. Quem tinha de fazer isso (a recarga) era o pessoal da casa.
Clique na imagem e confira o perfil das vítimas:
Como aconteceu
O incêndio na boate Kiss, no centro de Santa Maria, começou entre 2h e 3h da madrugada de domingo, dia 27 de janeiro, quando a banda Gurizada Fandangueira, uma das atrações da noite, teria usado efeitos pirotécnicos durante a apresentação. O fogo teria iniciado na espuma do isolamento acústico, no teto da casa noturna.
Sem conseguir sair do estabelecimento, pelo menos 239 pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridos.
A tragédia, que teve repercussão internacional, é considerada a maior da história do Rio Grande do Sul e o maior número de mortos nos últimos 50 anos no Brasil.
Em gráfico, entenda os eventos que originaram o fogo:
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