Dois dias depois da tragédia em Santa Maria que chocou o mundo, já não se veem aglomerações de familiares em prantos, ruas bloqueadas, veículos oficiais zunindo com as sirenes ligadas ou cortejos fúnebres.
Por trás da falsa aparência de normalidade, porém, a cidade ainda está longe de retomar a rotina. Os sinais do luto estão nas fitas pretas que pendem das antenas de automóveis e das fachadas de lojas, no cancelamento de eventos festivos e no sofrimento silencioso que, segundo especialistas, vai demorar muito tempo para ser amenizado.
— O que aconteceu é uma marca que vai ficar na história de toda esta geração. Mesmo quem não perdeu alguém próximo fará parte para sempre da geração na qual ocorreu a maior tragédia já vista no Estado — avalia a psicanalista de Santa Maria e membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (Appoa) Sílvia Ferreira.
O tempo que a população diretamente envolvida pelo drama na boate vai levar para superar a fase mais intensa do luto pode variar, mas pode chegar a cerca de dois anos, diz Sílvia. No período agudo da dor, é importante que as pessoas mais próximas se coloquem à disposição para ouvir o que sobreviventes ou familiares e amigos de vítimas quiserem desabafar.
— A melhor saída são os outros — resume o psicanalista Luís Fernando Lofrano de Oliveira.
Para Lofrano, enquanto para o indivíduo a melhor alternativa é buscar companhia, para a comunidade ações simbólicas como a marcha realizada na segunda-feira ajudam a lidar aos poucos com o sentimento de perda. Por isso, apesar de a cidade já não revelar de maneira tão ostensiva os sinais da tragédia, a vida ainda custará a retomar seu curso.
As atividades acadêmicas foram suspensas na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), que perdeu mais de uma centena de estudantes. Eventos ligados ao Carnaval foram cancelados, além de festas e shows. Enquanto isso, profissionais ligados à psicologia e à psiquiatria se concentram em pontos de atendimento gratuito para oferecer conforto à população abalada.
Ontem, por exemplo, foi aberto um local de acolhimento na Clínica de Estudos de Intervenções em Psicologia (Ceip). Essas medidas, porém, são apenas os primeiros passos de um longo processo para milhares de pessoas afetadas pelo drama conseguirem retomar seu cotidiano — ainda desfeito sob a aparência de normalidade nas ruas de onde ocorreu o maior desastre já visto no Rio Grande do Sul.
Conheça as vítimas da tragédia
Como aconteceu
O incêndio na boate Kiss, no centro de Santa Maria, começou entre 2h e 3h da madrugada de domingo, quando a banda Gurizada Fandangueira, uma das atrações da noite, teria usado efeitos pirotécnicos durante a apresentação. O fogo teria iniciado na espuma do isolamento acústico, no teto da casa noturna.
Sem conseguir sair do estabelecimento, pelo menos 235 jovens morreram e outros 100 ficaram feridos. Sobreviventes dizem que seguranças pediram comanda para liberar a saída, e portas teriam sido bloqueadas por alguns minutos por funcionários.
A tragédia, que teve repercussão internacional, é considera a maior da história do Rio Grande do Sul e o maior número de mortos nos últimos 50 anos no Brasil.
Em gráfico, entenda a sequência de eventos que originou o fogo
Confira imagens do local onde aconteceu a tragédia
Veja como foi o velório das vítimas
Nove pontos que devem permear as investigações sobre incêndio
A boate
Localizada na Rua Andradas, no centro da cidade de Santa Maria, a boate Kiss costumava sediar festas e shows para o público universitário da região. A casa noturna é distribuída em três ambientes - além da área principal, onde ficava o palco, tinha uma pista de dança e uma área vip. De acordo com a Polícia Civil, a danceteria estava com o plano de prevenção de incêndios vencido desde agosto de 2012.
Clique na imagem abaixo para ver a danceteria antes e depois do incêndio
Chamada de "Agromerados", a festa voltada para estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) começou às 23h de sábado. O evento era de acadêmicos dos cursos de Agronomia, Medicina Veterinária, Tecnologia de Alimentos, Zootecnia, Tecnologia em Agronegócio e Pedagogia. Segundo informações do site da casa noturna, os ingressos custavam R$ 15 e as atrações eram as bandas "Gurizadas Fandangueira", "Pimenta e seus Comparsas", além dos DJs Bolinha, Sandro Cidade e Juliano Paim.










