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Opinião29/01/2013 | 06h00

Paulo Sant'Ana: "A gaita do gaiteiro"

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Paulo Sant'Ana: "A gaita do gaiteiro" Lauro Alves/Agencia RBS
Flores homenageiam vítimas em frente à boate Kiss Foto: Lauro Alves / Agencia RBS
Na robusta edição de ontem de Zero Hora, chamou-me a atenção uma notícia despretensiosa.

É que foi noticiado que um dos músicos que se apresentavam na boate Kiss morreu na tragédia. Ele era integrante do conjunto Gurizada Fandangueira.

Mas a forma como ele morreu foi de espantosa incredulidade. Iniciado o incêndio, o músico, como os milhares de participantes da festa, tratou de fugir. Com sacrifício, conseguiu safar-se daquela confusão estabelecida e restou são e salvo na calçada em frente à boate.

Uma vez são e salvo, no entanto, o músico se deu conta de que era o gaiteiro. E tinha simplesmente esquecido sua gaita no palco. Pois ele resolveu voltar à cena do incêndio, o que lhe custou muita dificuldade. Para buscar sua gaita, seu instrumento de trabalho e diversão.

E não retornou mais, sucumbindo no inferno de fumaça e fogo da boate.

***

Entre as mais de 200 vítimas fatais da tragédia, certamente o gaiteiro foi o único que se salvou, estava íntegro na calçada, e depois resolveu voltar para buscar sua gaita.

Imagino a importância da gaita na vida daquele gaiteiro, que ele foi arriscar sua vida para buscá-la. Como se um jornalista fosse buscar seu computador ou um médico seu estetoscópio.

Será que na confusão reinante o gaiteiro não percebeu que sua vida era mais importante do que a gaita? Ou será que sua vida era somente sua gaita?

***

Escolhi outra história entre as centenas envolvidas na tragédia. Um rapaz, morador de Porto Alegre, foi convidado por amigos de Santa Maria para participar no sábado da festa na boate Kiss.

Saiu de ônibus no sábado mesmo rumo a Santa Maria. Chegou lá pela tardinha e foi tomar um chope com os amigos que o aguardavam para levá-lo ao evento sinistro.

Não era universitário, não era estudante, era somente amigo dos universitários que o carregaram para a festa, sendo que dois deles morreram também.

E o nosso personagem morreu sufocado pela fumaça e massacrado pela multidão que tentava sair e pisoteou-o até a morte. É, como tenho dito frequentemente, a força do destino.

O destino escolheu os universitários participantes da festa para morrerem. Mas e o nosso personagem, o que tinha a ver com isso e foi levado à morte de cambulhada com os estudantes?

***

Ao contrário do que pedi ontem pela coluna, surgiu logo após a tragédia uma onda punitiva incontrolável, a ponto de o jornal Correio Braziliense afirmar ontem em uma das suas manchetes que alguém vai ter de pagar por esta tragédia.

Se alguém tiver de pagar, vai pagar, mas pagará na Justiça, depois de inquérito e processo.

Não é necessário que uma pequena multidão raivosa fique bradando por vindita nos meios de comunicação, a ponto de que até um ex-criminoso estivesse a exigir ontem rigor contra os culpados.

A Justiça, para decidir, não necessita desses faniquitos vingativos.



Em gráfico, entenda a sequência de eventos que originou o fogo



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A tragédia

O incêndio na boate Kiss, no centro de Santa Maria, começou entre 2h e 3h da madrugada de domingo, quando a banda Gurizada Fandangueira, uma das atrações da noite, teria usado efeitos pirotécnicos durante a apresentação. O fogo teria iniciado na espuma do isolamento acústico, no teto da casa noturna.

Sem conseguir sair do estabelecimento, mais de 200 jovens morreram e outros 100 ficaram feridos. Sobreviventes dizem que seguranças pediram comanda para liberar a saída, e portas teriam sido bloqueadas por alguns minutos por funcionários.

 A tragédia, que teve repercussão internacional, é considera a maior da história do Rio Grande do Sul e o maior número de mortos nos últimos 50 anos no Brasil.

Veja onde aconteceu

 
Imagem: Arte ZH

A boate

Localizada na Rua Andradas, no centro da cidade da Região Central, a boate Kiss costumava sediar festas e shows para o público universitário da região. A casa noturna é distribuída em três ambientes - além da área principal, onde ficava o palco, tinha uma pista de dança e uma área vip. De acordo com o comando da Brigada Militar, a danceteria estava com o plano de prevenção de incêndios vencido desde agosto de 2012. 

Clique na imagem abaixo para ver a boate antes e depois do incêndio

A festa

Chamada de "Agromerados", a festa voltada para estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) começou às 23h de sábado. O evento era de acadêmicos dos cursos de Agronomia, Medicina Veterinária, Tecnologia de Alimentos, Zootecnia, Tecnologia em Agronegócio e Pedagogia. Segundo informações do site da casa noturna, os ingressos custavam R$ 15 e as atrações eram as bandas "Gurizadas Fandangueira", "Pimenta e seus Comparsas", além dos DJs Bolinha, Sandro Cidade e Juliano Paim.




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