A força-tarefa de psicólogos e psiquiatras que desde domingo atua no apoio às famílias das vítimas do incêndio aplica métodos semelhantes aos usados nos EUA após os atentados de 11 de Setembro e irá estender o trabalho ao familiares de feridos internados em hospitais da Região Metropolitana. Voluntários foram capacitados pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Trauma da PUCRS para prestar atenção à saúde mental das pessoas envolvidas na tragédia. Coordenador do núcleo, o professor e psicólogo Christian Kristensen fala sobre os métodos aplicados:
Zero Hora — Qual a base desse apoio psicológico dado aos familiares e sobreviventes?
Christian Kristensen — Chamamos de primeiros socorros psicológicos. São protocolos estabelecidos pelo governo americano, aplicados no atentado de 11 de Setembro, que norteiam o apoio a pessoas que sofreram traumas, com adaptações à realidade local. Essas pessoas, familiares e sobreviventes, terão reações transitórias nas próximas semanas e meses. O apoio nesse momento primário é muito importante.
ZH — Como a equipe apoia as pessoas traumatizadas por essa tragédia?
Kristensen — Conversamos com eles, nos colocamos à disposição para ouvir, conversar ou resolver as necessidades mais urgentes. Há uma série de passos, até os familiares ou sobreviventes terem a real clareza do que aconteceu.
ZH — Como ajudar uma pessoa que perdeu um familiar ou amigo?
Kristensen — As pessoas vão desenvolver uma série de reações emocionais de tristeza, e isso deve ser respeitado. É uma resposta normal. Por outro lado, procure não deixar essa pessoa isolada. Aos poucos, ela deve ser incentivada a retomar as atividades do dia a dia. A retomada do cotidiano ajuda a normalizar a vida.
ZH — O que familiares e sobreviventes devem fazer para tentar minimizar essa dor?
Kristensen — Por mais doloroso que esse momento seja, as pessoas devem ter cuidado com questões básicas de saúde, como sono, alimentação e ingestão de remédios sem prescrição médica. Evitar exposição na mídia e acompanhamento de notícias diárias sobre o assunto pode ajudar. Por mais difícil que seja esquecer um trauma desses, ficar lembrando o tempo todo acaba agravando o sofrimento.
Conheça as vítimas da tragédia
Como aconteceu
O incêndio na boate Kiss, no centro de Santa Maria, começou entre 2h e 3h da madrugada de domingo, quando a banda Gurizada Fandangueira, uma das atrações da noite, teria usado efeitos pirotécnicos durante a apresentação. O fogo teria iniciado na espuma do isolamento acústico, no teto da casa noturna.
Sem conseguir sair do estabelecimento, pelo menos 235 jovens morreram e outros 100 ficaram feridos. Sobreviventes dizem que seguranças pediram comanda para liberar a saída, e portas teriam sido bloqueadas por alguns minutos por funcionários.
A tragédia, que teve repercussão internacional, é considera a maior da história do Rio Grande do Sul e o maior número de mortos nos últimos 50 anos no Brasil.
Em gráfico, entenda a sequência de eventos que originou o fogo
Confira imagens do local onde aconteceu a tragédia
Veja como foi o velório das vítimas
Nove pontos que devem permear as investigações sobre incêndio
A boate
Localizada na Rua Andradas, no centro da cidade de Santa Maria, a boate Kiss costumava sediar festas e shows para o público universitário da região. A casa noturna é distribuída em três ambientes - além da área principal, onde ficava o palco, tinha uma pista de dança e uma área vip. De acordo com a Polícia Civil, a danceteria estava com o plano de prevenção de incêndios vencido desde agosto de 2012.
Clique na imagem abaixo para ver a danceteria antes e depois do incêndio
Chamada de "Agromerados", a festa voltada para estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) começou às 23h de sábado. O evento era de acadêmicos dos cursos de Agronomia, Medicina Veterinária, Tecnologia de Alimentos, Zootecnia, Tecnologia em Agronegócio e Pedagogia. Segundo informações do site da casa noturna, os ingressos custavam R$ 15 e as atrações eram as bandas "Gurizadas Fandangueira", "Pimenta e seus Comparsas", além dos DJs Bolinha, Sandro Cidade e Juliano Paim.








