A dor desenhou durante todo o dia de ontem um mosaico de sons e de silêncios no Centro Desportivo Municipal de Santa Maria.
Uma mãe, chorando:
— Ela estava com camiseta da Kiss. Aí foi fácil reconhecer.
A tia, ao ouvir a frase acima:
— Não é possível, não é possível, não é possível, não é possível...
Uma amiga, perguntando a uma mãe:
— Ela tinha tatuagem?
A mãe, chorando:
— Eu já reconheci. Ela está lá.
Debruçado sobre um caixão, o pai de um dos mortos tenta abrir a tampa que cobre o visor. É interrompido por um abraço.
Sentada numa cadeira de plástico, uma mulher de camisa laranja enxuga um olho de cada vez. Direito, esquerdo, direito, esquerdo. Mecanicamente, repete o gesto dezenas de vezes.
Um homem tenta entrar no ginásio de onde os corpos eram carregados para os carros funerários. Uma policial não permite e ouve:
— Vocês são insensíveis! Queria ver se fosse um parente de vocês.
A policial fica em silêncio.
Pelo sistema de som do ginásio:
— Atenção! Atenção! Estamos chamado um nome que começa por R, mas isso não quer dizer que todas as outras letras já tenham sido chamadas.
Um garoto magrinho de camiseta, que carrega uma caixa de papelão entre o mar de pessoas atônitas:
— Quer uma água?
O funcionário de uma funerária:
— Não temos como levar um corpo para Panambi, mas, se a senhora me apresentar a família, eu encaminho eles.
De um homem com calça jeans e camiseta:
— A mãe veio e passou mal. Pediu para eu fazer o reconhecimento.
De uma policial a um familiar:
— Se tiver uma foto junto, sempre ajuda.
Da mulher gritando na porta do ginásio onde os corpos eram reconhecidos:
— Francisco Vieira, tem alguém aqui?
Silêncio.
Na mesma porta, uma senhora de óculos:
— Aqui é pra reconhecimento?
Do radialista de uma cidade do Interior:
— Tulio, temos aqui nosso vice-prefeito. Posso fazer uma foto de vocês dois juntos?
Uma menina aos prantos, falando com dois amigos:
— Eu estava lá dentro da Kiss e consegui sair. Liguei pra ela e só ouvi ela dizer "me ajuda, me ajuda". Aí acabou a ligação.
Uma mulher de camisa florida:
— Isso parece uma guerra. Parece uma guerra.
A madrinha de um dos mortos:
— Ele foi à festa de aniversário da namorada e não voltou.
Sobre o caixão, a namorada chora.
A freira segura um rosário ao lado do caixão:
— Ave Maria, cheia de graça...
Uma menina de blusa de alcinha, na ponta dos pés, ao telefone, procurando alguém no meio do multidão:
— Nós já estamos aqui dentro.
A mãe de uma menina morta, falando com a outra filha ao celular:
— A psicóloga já está aqui com a mãe, não te preocupa comigo.
Um rapaz de camisa branca diz a uma menina que chora:
— Minha mulher trabalhava com ela e já reconheceu.
Um homem abre caminho com um caixão embrulhado em papel pardo nos ombros:
— Com licença, com licença.
Um soldado do BOE empurra o biombo que impede a visão dos corpos e sai do ginásio. Ele caminha para longe e diz, em voz baixa:
— Eu não aguento mais.
104 chamadas não atendidas
Carlos Walau, 36 anos, foi um dos socorristas voluntários que ajudaram a tirar mais de 200 vítimas de dentro dos caminhões para o ginásio do Centro Desportivo Municipal.
— Tirei o corpo de uma menina que estava com um celular que não parava de tocar. Em seguida, deu barulho de mensagem, li e era a mãe dela perguntando onde ela estava — relata, com a voz embargada.
Na tentativa de auxiliar na identificação dos mortos, integrantes do Grupo de Gerenciamento da Crise colocavam documentos de identificação — como identidade e carteira de habilitação — e celulares no peito das vítimas. Um bombeiro apanhou um daqueles telefones que tremiam no chão. O aparelho registrava 104 chamadas. Na tela: MÃE.
Em gráfico, entenda a sequência de eventos que originou o fogo
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A tragédia
O incêndio na boate Kiss, no centro de Santa Maria, começou entre 2h e 3h da madrugada de domingo, quando a banda Gurizada Fandangueira, uma das atrações da noite, teria usado efeitos pirotécnicos durante a apresentação. O fogo teria iniciado na espuma do isolamento acústico, no teto da casa noturna.
Sem conseguir sair do estabelecimento, mais de 200 jovens morreram e outros 100 ficaram feridos. Sobreviventes dizem que seguranças pediram comanda para liberar a saída, e portas teriam sido bloqueadas por alguns minutos por funcionários.
A tragédia, que teve repercussão internacional, é considera a maior da história do Rio Grande do Sul e o maior número de mortos nos últimos 50 anos no Brasil.
Veja onde aconteceu
Imagem: Arte ZH
A boate
Localizada na Rua Andradas, no centro da cidade da Região Central, a boate Kiss costumava sediar festas e shows para o público universitário da região. A casa noturna é distribuída em três ambientes - além da área principal, onde ficava o palco, tinha uma pista de dança e uma área vip. De acordo com o comando da Brigada Militar, a danceteria estava com o plano de prevenção de incêndios vencido desde agosto de 2012.
Clique na imagem abaixo para ver a boate antes e depois do incêndio A festa
Chamada de "Agromerados", a festa voltada para estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) começou às 23h de sábado. O evento era de acadêmicos dos cursos de Agronomia, Medicina Veterinária, Tecnologia de Alimentos, Zootecnia, Tecnologia em Agronegócio e Pedagogia. Segundo informações do site da casa noturna, os ingressos custavam R$ 15 e as atrações eram as bandas "Gurizadas Fandangueira", "Pimenta e seus Comparsas", além dos DJs Bolinha, Sandro Cidade e Juliano Paim.

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