Especialistas divergem sobre a ação flagrada em vídeo do policial militar que baleou um homem armado com faca em uma estação do trensurb, na tarde de terça-feira.
Parte das opiniões sustenta que o soldado da Brigada Militar Vinicius Alves de Souza, 28 anos, agiu em legítima defesa mediante a aproximação de José Betamin Nunes, 33 anos. Outro ponto de vista sugere que disparar a arma em meio ao público colocou a vida de outras pessoas em risco — um outro passageiro foi atingido na canela.
No final da tarde de terça, o PM aguardava o trem na Estação Anchieta, em Porto Alegre, quando foi chamado por passageiros a intervir em uma situação de emergência: um homem ameaçava pessoas em um vagão com uma faca. O militar tentou convencer Nunes, que se encontrava sentado, a largar a arma. O vídeo gravado em celular por outro passageiro (abaixo) mostra que o homem se levanta e parte em direção à porta, enquanto o policial recua. Em seguida, fora do alcance da lente, ouve-se o tiro que atravessou o abdômen do suspeito e atingiu a canela esquerda do passageiro Jorge Luis da Rosa Vidal, 50 anos.
— O policial primeiro tentou persuadir, gerenciar a crise, não conseguiu e depois agiu em legítima defesa. Fez tudo corretamente. Um juiz leva uns cinco anos para julgar um homicídio, mas uma decisão de tiro leva menos de três segundos — avalia o especialista em segurança Carlos Alberto Portolan.
Em galeria, entenda o passo a passo da ação do policial no trensurb
Outro consultor em segurança, Dempsey Magaldi, também entende que o tiro foi justificado:
— O policial tem o dever de agir diante da ameaça à sociedade. Pelo manual de instrução da polícia, seria proibido se omitir. Ele não tinha outra alternativa.
Para o especialista em segurança pública Marcos Rolim, porém, o recurso empregado colocou em risco a vida de espectadores inocentes. Rolim faz a ressalva de que o vídeo não permite uma conclusão definitiva sobre a ação porque não mostra o momento em que Nunes teria tentado atingir o soldado com a faca, segundo o depoimento do próprio policial. Ele lembra que a legítima de defesa se aplica em casos de risco iminente de vida e quando a reação é proporcional à ameaça.
— Tem de fazer uma investigação séria e independente. Mas a postura do policial ao enquadrar o rapaz sentado sob a mira da arma é antiprofissional. Sentado, ele não representava risco — avalia.
Rolim acredita, ainda, que a melhor técnica a ser usada seria imobilizar o homem enquanto ainda se encontrava sentado para evitar o disparo em local público.
— A norma universal diz que policiais devem evitar a todo custo disparos em área pública, onde há gente passando.
Portolan, embora considere que o soldado não descumpriu nenhuma norma, acrescenta que a saída ideal teria sido usar o cassetete para desarmar e imobilizar Nunes.
— Mas, para isso, seria necessário um melhor treinamento do que há hoje — acredita.
Nunes foi internado em situação estável, e o outro passageiro atingido foi atendido e liberado. A Brigada Militar deverá investigar a ação.
— O treinamento da BM orienta a sempre tentar preservar a vida, salvo em excludentes como a legítima defesa — afirma o comandante do Batalhão de Operação Especiais, tenente-coronel Kleber Goulart.
Para o delegado Filipe Bringhenti, titular da 2ª Delegacia de Homicídios, embora as imagens das câmeras de segurança da Trensurb não permitam apontar o momento exato do disparo, por não serem suficientemente próximas e por haver uma grande aglomeração em torno do policial e do suspeito, a legítima defesa de Souza é corroborada pelas testemunhas.
— Fora isso, sabemos que foi feito apenas um disparo, de cima para baixo, uma posição de segurança. Ele não se excedeu e usou do único meio de defesa que tinha à disposição naquele momento para enfrentar o indivíduo, que estava armado com uma faca — sustenta o delegado.
Bringhenti destaca ainda que, quando Nunes tombou, imediatamente o soldado entrou em contato com o Samu, solicitando atendimento, o que demonstra que a intenção não seria tirar a vida do rapaz, simplesmente pará-lo.
Veja no vídeo abaixo o momento do tiro flagrado pelo passageiro:







