Os policiais, mais de 30 designados para a investigação, se dividiram em três frentes, cada uma conduzida por um delegado. Uma delas consiste em colher depoimentos de vítimas e também dos suspeitos de ter causado o incêndio. Outra, na pressão pela realização de perícias e sua análise, inclusive com testemunho dos peritos. E a terceira, na coleta e estudo de documentos que possam elucidar o que aconteceu - e, principalmente, o que deveria ter sido feito para evitar a tragédia.
Até agora, depoimentos e provas indicam completa contradição entre o que dizem os donos da boate, a banda e os frequentadores da boate. Nenhuma surpresa nisso para os policiais, por ser comum que os investigados tentem afastar as suspeitas contra si.
Exemplos disso:
— Mais de 15 testemunhas apontaram dois integrantes da banda, o vocalista e um arranjador de som, como as pessoas que usaram as mãos para soltar sinalizadores no palco. Esses artefatos teriam provocado o incêndio. Nenhum dos dois, que estão presos, assumiu ter soltado o sinalizador manual.
— Integrantes da banda alegaram ter utilizado apenas o sputnik, uma espécie de "fogo frio" acionado por controle remoto desde o piso do palco, supostamente incapaz de causar incêndios. Já a Polícia Civil coletou três testemunhos confirmando que os músicos usaram o sputnik e outros dois depoimentos assegurando que foram usados sinalizadores manuais, nos quais o fogo sobe da mão do músico em direção ao teto (que era de material altamente inflamável).
— Um dos donos da Kiss, Mauro Hoffmann, declarou que proíbe o uso de sinalizadores por parte das bandas que tocam na sua outra boate, a Absinto. Mas algumas testemunhas disseram à Polícia que os sinalizadores são rotineiramente usados naquela danceteria.
— As imagens de vídeomonitoramento que deveriam existir na boate não foram encontradas. Os donos garantem que mandaram o equipamento para conserto, mas não há provas disso, por enquanto.
— Os donos dizem que não exorbitavam da lotação da boate. Os bombeiros disseram, no dia da tragédia, que o local tinha aprovação para no máximo 691 pessoas. Testemunhas asseguram que 1,5 mil pessoas, no mínimo, estavam na danceteria no momento do incêndio.
— Os donos asseguram que os extintores de incêndio estavam em dia e as saídas da danceteria, iluminadas. Os frequentadores e até alguns seguranças testemunham que extintores não funcionaram e as saídas não estavam indicadas claramente.
— Os donos da boate garantem que pediram renovação do Plano de Prevenção Contra Incêndios aos bombeiros. Num primeiro momento, o Corpo de Bombeiros disse que não recebeu esse pedido.
Pela maré de contradições, os policiais não conseguem prever quando será concluído o inquérito. Mas uma certeza há: a de que os donos da boate e, talvez, os integrantes da banda dificilmente vão escapar do indiciamento por homicídio. A grande dúvida é se culposo (sem intenção) ou por dolo eventual (por assumir riscos que causaram morte).
Perícia deve comprovar o uso de sinalizador
O resultado do trabalho de seis peritos do Instituto Geral de Perícias (IGP) de Porto Alegre deve reforçar dois pontos da investigação da Polícia Civil até o momento: que o fogo teria iniciado devido ao uso de um artefato pirotécnico por um integrante da banda no palco da boate e que a porta de saída não teria dado vazão ao público presente. A causa do incêndio foi apontada em depoimentos de testemunhas e funcionários à Polícia Civil.
Os peritos chegaram à cidade no final da tarde de domingo e iniciaram a avaliação do local. Eles tiveram a colaboração do departamento de criminalística da Polícia Civil de Santa Maria. O trabalho foi interrompido na madrugada de segunda-feira por causa da dificuldade de iluminar a boate. O levantamento continuou na manhã de ontem e encerrou à tarde. Os peritos verificaram o interior do prédio, os destroços e objetos deixados pelas vítimas durante a tentativa de fuga. Parte da fachada, arrancada por populares e bombeiros durante a retirada das vítimas também foi periciada. Os destroços estavam no estacionamento de um hipermercado em frente à casa noturna.
— Vamos apurar tudo o que ocorreu e usar os 30 dias de prazo do inquériro para concluir a investigação— disse o delegado regional de Polícia Civil, Marcelo Arigony.
O delegado responsável pela investigação, Gabriel Zanella, acrescentou que a polícia também vai apurar se havia algum obstáculo na porta de saída.
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A tragédia
O incêndio na boate Kiss, no centro de Santa Maria, começou entre 2h e 3h da madrugada de domingo, quando a banda Gurizada Fandangueira, uma das atrações da noite, teria usado efeitos pirotécnicos durante a apresentação. O fogo teria iniciado na espuma do isolamento acústico, no teto da casa noturna.
Sem conseguir sair do estabelecimento, mais de 200 jovens morreram e outros 100 ficaram feridos. Sobreviventes dizem que seguranças pediram comanda para liberar a saída, e portas teriam sido bloqueadas por alguns minutos por funcionários.
A tragédia, que teve repercussão internacional, é considera a maior da história do Rio Grande do Sul e o maior número de mortos nos últimos 50 anos no Brasil.
Veja onde aconteceu
Imagem: Arte ZH
A boate
Localizada na Rua Andradas, no centro da cidade da Região Central, a boate Kiss costumava sediar festas e shows para o público universitário da região. A casa noturna é distribuída em três ambientes - além da área principal, onde ficava o palco, tinha uma pista de dança e uma área vip. De acordo com o comando da Brigada Militar, a danceteria estava com o plano de prevenção de incêndios vencido desde agosto de 2012.
Clique na imagem abaixo para ver a boate antes e depois do incêndio A festa
Chamada de "Agromerados", a festa voltada para estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) começou às 23h de sábado. O evento era de acadêmicos dos cursos de Agronomia, Medicina Veterinária, Tecnologia de Alimentos, Zootecnia, Tecnologia em Agronegócio e Pedagogia. Segundo informações do site da casa noturna, os ingressos custavam R$ 15 e as atrações eram as bandas "Gurizadas Fandangueira", "Pimenta e seus Comparsas", além dos DJs Bolinha, Sandro Cidade e Juliano Paim.

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