Uma polêmica tem ofuscado até o brilho de sapatos bem lustrados na Praça da Alfândega. Instaladas mais próximas à praça e enfileiradas — disposição diferente da habitual, sete cadeiras destinadas a receber os engraxates que trabalham no local foram rechaçadas pelos profissionais.
O motivo da insatisfação com os novos aparelhos é o serviço executado no local, que não corresponderia ao acordo feito com os responsáveis pelo projeto — as cadeiras foram doadas e instaladas pela prefeitura em razão do Monumenta, que trabalha na revitalização da praça.
Os profissionais, alguns com décadas de praça, disseram-se surpresos com o posicionamento dos equipamentos. Três deles foram colocados junto aos gradis, intercalados por bancos, em um ponto que, segundo os trabalhadores, o sol incide durante toda a tarde. Eles também ponderam que, com a dispersão, trabalho acabará prejudicado.
— Pelo acordo, sabíamos que íamos mudar de lugar, indo um pouco mais para a frente. Mas, onde foi colocado, as pessoas não vão entrar para engraxar sapato. Acho uma falta de consideração conosco, que estamos na praça há mais de 50 anos — defende o presidente da Associação dos Engraxates da Praça da Alfândega, Júlio Lopes dos Santos.
O lugar hoje ocupado pelos engraxates na Rua Cassiano do Nascimento receberá os artesãos atualmente alojados na Rua dos Andradas. Os que trabalham na Rua Capitão Montanha, do outro lado da praça, também serão remanejados.
As reclamações dos trabalhadores se estendem à infraestrutura do aparelho doado. As cadeiras novas não têm assento nem proteção, que terão de ser providenciadas pelos engraxates.
— Só há lugar para guarda-sol, o que é um retrocesso. É como trabalhávamos há mais de uma década — diz Dilton Campos, 57 anos.
Responsáveis pelo projeto Monumenta sugerem que os assentos sejam transferidos das cadeiras antigas, patrocinadas pelo Banrisul, para as recém-instaladas. A proteção antiga, um toldo de lona, é mais difícil de ser utilizada, razão pela qual o novo aparelho vem com um buraco para a colocação de guarda-sol.
Segundo o presidente da Associação dos Engraxates, já está sendo negociada com o Banrisul uma nova parceria para as cadeiras, porém sem previsão de resolução. Uma reunião entre representantes da Secretaria Municipal de Indústria e Comércio (Smic) e dos engraxates deverá discutir as medidas a serem tomadas para que a praça esteja apta à inauguração, no mês de março, sem transtornos.
— A prefeitura nunca deu cadeiras, apenas a licença para que os engraxates atuem na praça, e o local onde as novas foram colocadas é praticamente o mesmo, talvez melhor. Sabemos que há uma negociação com o patrocinador e não queremos pressioná-los, mas precisamos negociar — explica Luiz Merino Xavier, arquiteto do projeto Monumenta.









