Celeiro de criminosos que alimentam quadrilhas como a que atacou a fábrica de joias e manteve reféns em Cotiporã, o semiaberto é uma ferida aberta no sistema prisional gaúcho. E o Instituto Penal de Viamão (IPV), interditado pela Justiça na sexta-feira, é o retrato do descalabro na custódia de apenados nos albergues.
Confira o que acontece por trás das cercas esburacadas, cenário de, em média, duas fugas por dia:
Assaltos após as fugas
Pedestres e até PMs têm sido alvo de apenados que entram e saem do IPV. Em maio, um soldado à paisana que passava em frente ao albergue foi atacado pelas costas por dois presos. Ao reagir, levou coronhadas e dois tiros no braço e no cotovelo. Os bandidos fugiram a pé, desaparecendo no mato ao lado do IPV com a pistola do PM. Em junho, cinco mulheres foram assaltadas por dois apenados, e um deles acabou preso. Em novembro, um detento foi até Porto Alegre e roubou o Fiesta de um sargento aposentado da BM. O rapaz foi barrado por PMs quando esconderia o carro no estacionamento de um supermercado em Viamão, para voltar ao IPV.
Invasão de prostitutas
Em maio, uma jovem de 18 anos foi pega com drogas entrando no IPV. Alegou que visitaria o namorado preso. Outra mulher, encontrada dentro de alojamento, admitiu que transaria com detentos. Ela passou por uma abertura na cerca e disse que, para entrar, pagou R$ 18 "ao dono do buraco na tela". Os rombos na tela são fechados pelos agentes, mas, em questão de minutos, surgem outros buracos. Há três anos, duas irmãs, de 14 e 17 anos, já tinham sido flagradas dentro de uma ala, em companhia de dois apenados.
Moradia clandestina
Assim como presos entram e saem do IPV, o mesmo acontece com gente que nada tem a ver com o albergue. PMs barraram, em 20 de novembro, um homem de 29 anos entrando clandestinamente na cadeia carregando sacolas com quatro bandejas de carne, dois sacos de pão e duas pedras de crack. Ex-detento, o homem disse que não tinha família nem casa e decidiu morar na cadeia.
Preso que não foi preso
Em 22 de dezembro, a Delegacia de Repressão a Roubos prendeu três foragidos da Justiça, suspeitos de integrar a quadrilha de Elisandro Rodrigo Falcão, morto em Cotiporã ao atacar uma fábrica de joias com explosivos e fazer moradores reféns. Entre os presos, Denis Martins Fernandes, 32 anos. A operação reuniu 25 agentes. Faltava capturar mais um, Tiago Soares da Silva, detento do IPV, e o delegado Juliano Ferreira mandou dois policiais para Viamão. A ordem foi dada por telefone. Algemado, ao lado do delegado, Denis disse que era perigoso, pois tinha presos armados no IPV. Chegando lá, Tiago não foi encontrado.
— Era só buscá-lo, mas ele sumiu. Justamente, o mais fácil de pegar, o que já estava preso, não foi preso — lamenta o delegado.
Tráfico nos pavilhões
O consumo de drogas em cadeias por apenados ocorre em qualquer prisão. Mas no IPV, além disso, detentos montaram uma boca de fumo para vender drogas para moradores da região que aproveitam a fragilidade da vigilância para entrar no albergue. Ao ser flagrado por agentes penitenciários, um homem admitiu que era viciado e que pretendia trocar um celular por droga com detentos.
A travessa do crime
Com apenas 260 metros de extensão, a Travessa Fischer, via de chão batido com moradias simples que termina em um matagal nos fundos do IPV, é o caminho predileto de quem entra e sai do albergue clandestinamente. Ali, há registros de prisão de foragidos, assassinato de preso, abuso sexual, apreensão de armas, de drogas e de carros e motos roubados.








