Psicóloga e psicoterapeuta com trabalho voltado para a área da violência, Marli Sattler afirma que imagens cada vez mais comuns de ataques e agressões registradas por celulares e disseminadas pela internet — como o tumulto no trensurb, na terça-feira, graças ao avanço da tecnologia digital, podem provocar efeitos negativos em quem assiste — embora costumem atrair bastante atenção. Confira trechos da entrevista concedida por telefone:
Zero Hora — A reprodução da violência pelos meios digitais aumenta a sensação de insegurança?
Marli Sattler — No momento em que pessoas participam de tudo o que acontece, ficam sabendo de mais coisas, sim. Além disso, ver as cenas é mais impactante do que ouvir falar. Então, as pessoas tendem a se sentir mais inseguras ao ver esse tipo de imagem por dois aspectos: sabem de uma quantidade bem maior de situações, e vê-las é mais chocante do que ficar sabendo por ouvir dizer. Isso contribui para essa sensação de maior insegurança, de que a qualquer momento algo pode acontecer. Tudo fica muito próximo e passa a pertencer à vida de todos.
ZH — O excesso de exposição a imagens violentas ou a intensidade de alguma delas podem provocar algum tipo de transtorno?
Marli — Essas cenas podem ficar gravadas na memória e se reproduzirem automaticamente depois. O grande medo das pessoas é que algo aconteça com elas ou com quem elas amam. Quanto maior a exposição a cenas de violência ou a intensidade da violência, maior o impacto e a chance de reverberar na memória. A pessoa pode perder um pouco o controle sobre ela mesma.
Em galeria, entenda o passo a passo da ação do policial no trensurb
ZH — Por que esse tipo de imagem atrai tanto a atenção das pessoas?
Marli — Pode ter relação com a reafirmação de que não é alguém das minhas relações, para reassegurar que, embora seja uma situação que se torna mais próxima, ocorreu com alguém distante. Entre as pessoas mais jovens, também me parece que algumas vezes existe uma certa confusão entre realidade e fantasia, como se estivessem vendo um jogo de videogame e não a realidade. Como se não fossem pessoas reais.
ZH — É adequado deixar crianças assistirem a esse tipo de imagem?
Marli — Particularmente, acho que crianças devem ser preservadas. Aos cinco anos, mais ou menos, a criança enfrenta sua primeira crise filosófica em que tenta entender a morte e entra em processo de ansiedade, querendo saber se os pais vão morrer ou não. Até nós temos dificuldade com isso. Então, uma criança ainda não tem condições de entender e absorver isso. Entre todas as faixas etárias, são as mais impactadas por essas cenas do noticiário e da internet. Os adultos são mais impactados quando envolve pessoas com a idade dos filhos, aí gera uma sensação grande de angústia ao imaginarem que poderiam ser os seus.
Veja no vídeo abaixo o momento do tiro flagrado pelo passageiro:












