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Decifrando esqueletos13/12/2012 | 21h02

Antropóloga portuguesa ajuda gaúchos a desvendarem o passado de Porto Alegre

Eugénia Cunha passou pela Capital nesta semana e deixou lições valiosas para os profissionais gaúchos

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Antropóloga portuguesa ajuda gaúchos a desvendarem o passado de Porto Alegre Diego Vara/Agencia RBS
Eugénia Cunha foi até a Cúria para conhecer e dar orientações sobre as ossadas encontradas na Capital Foto: Diego Vara / Agencia RBS

Onde qualquer pessoa enxergaria apenas uma mesa repleta de ossos indistintos, a antropóloga forense portuguesa Eugénia Cunha consegue vislumbrar um homem jovem, um bebê de um ano, uma criança de seis.

— Esta aqui parece uma mulher, não? Provavelmente tinha 1m58cm — cogita.

A especialista, uma das principais autoridades mundiais na ciência que procura desvendar mistérios por meio da análise de ossadas, tem em mãos um único fêmur. Mesmo assim, consegue fazer conjecturas sobre as características da pessoa que, há mais de um século e meio, morreu e foi sepultada na área onde hoje se encontra a Cúria Metropolitana na Capital.

Em fotos, confira como os peritos desvendam os segredos de ossadas

Para ajudar especialistas gaúchos a remontar a história dos ocupantes do antigo cemitério — redescoberto durante as obras de restauração da Cúria — e ministrar um curso na PUCRS, Eugénia esteve de segunda-feira até esta quinta-feira em Porto Alegre. Na universidade, revelou a um grupo de alunos segredos da arte de decifrar esqueletos.

Para saber quem eram, como viveram e morreram, estes peritos tomam medidas de ossos, analisam arcadas dentárias, avaliam pequenas variações no formato de crânios para diferenciar homens e mulheres, jovens e velhos, vítimas de morte violenta ou por causas naturais.

Na manhã de quinta, a especialista portuguesa, também professora da Universidade de Coimbra e presidente da Sociedade de Antropologia Forense da Europa, foi até a Cúria para conhecer e dar orientações sobre as ossadas encontradas ao longo dos últimos meses em pleno centro da Capital.

— É raro chegarmos à causa da morte, mas podemos dizer, por exemplo, que temos aqui adultos com mais de 45 anos, jovens, crianças de um e de seis anos, homens e mulheres. O material foi muito bem coletado — afirmou Eugénia.

Restos de corpos continuam sendo encontrados nos locais de escavação, consequência dos milhares de sepultamentos que se estima terem ocorrido no local no período de 1772 a 1850.

Nas últimas semanas, outros dois esqueletos foram encontrados. Um deles ainda está no chão úmido aguardando para ser retirado. O outro deu um exemplo de como o sincretismo religioso é antigo na Capital.

— Encontramos, sobre o lado esquerdo do peito, um crucifixo de metal e um colar de contas de vidro característico de religiões africanas — observou a arqueóloga responsável técnica pela obra de restauro, Ângela Maria Cappelletti.

Conforme Ângela, a visita da especialista portuguesa deixou lições valiosas sobre medições de ossadas, identificação de eventuais doenças e determinação de características como idade e sexo. O trabalho de análise dos cadáveres, porém, deverá levar ainda cerca de dois anos e será realizado em parceria com a PUCRS.

Objetivo desse serviço é revelar como viviam alguns dos primeiros porto-alegrenses, que doenças lhes afetavam, que hábitos tinham, entre outras informações sobre o modo de vida na cidade incipiente. Para isso, devem ser úteis inúmeros objetos também encontrados no subsolo da Cúria.

Ente eles, uma escova de dentes feita de osso, cachimbos de cerâmica, garrafas de cerveja fabricadas na Inglaterra e na Escócia entre o final do século 19 e o início do século 20, louças variadas, entre outras heranças deixadas pelos primitivos moradores de Porto Alegre.

Em vídeo, a ciência que desvenda mistérios investigando ossos

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