Murilo Bastos Toillier estica o braço e, com dificuldade, controla os movimentos para tocar o tablet. Com a mão fechada, encosta na figura onde diz “Eu quero”. Após mais dois toques, chega a uma grade com diversas brincadeiras e escolhe “videogame”. Ao ouvir a narração do que escolheu, o menino de sete anos abre um sorriso enorme. É assim que ele ganha voz, algo que Murilo nunca teve.
Com paralisia cerebral desde que tinha 37 dias de vida, o filho dos comerciantes César Leandro Toillier, 40 anos, e Claudete Bastos Toillier, 29 anos, tem dificuldade motora, o que inclui os músculos da face e, por isso, nunca conseguiu falar. Ao menos até duas semanas atrás, quando ganhou em comodato da prefeitura de Vale Verde, no Vale do Rio Pardo, um tablet ao qual foi instalado um software gratuito, o Livox.
— Foi amor à primeira vista. O Murilo adora o tablet e o aparelho tem facilitado muito a nossa comunicação com ele. Ficou mais rápido entender o que ele quer — conta o pai.
O Livox, que significa liberdade em voz alta, foi desenvolvido há cerca de um ano e meio pelo analista de sistemas pernambucano Carlos Pereira, que também tem uma filha com paralisia cerebral.
Considerado um sistema de comunicação alternativa, o software proporciona que uma pessoa com deficiência indique o que quer ou o que está sentindo com apenas alguns toques na tela.
— Minha filha que nasceu sem poder falar, agora pode. Isso porque consegui, com a ajuda de muitas pessoas, a desenvolver este que é o único software no mundo de comunicação alternativa em português — explica Pereira.
Além de Murilo, o analista de sistemas calcula que outros 11 gaúchos e, no total, cerca de 800 pessoas do Brasil interior já estão utilizando o Livox.
O sistema vem com 12 mil imagens prontas. No entanto, ele pode ser personalizado com as preferências de cada usuário, incluindo a possibilidade de tirar fotos e baixar imagens da internet para complementar as opções do tablet. Essa facilidade de adaptação e renovação é uma das vantagens com relação a outros sistemas de comunicação alternativa, tradicionalmente feitos com papel.
Murilo, por exemplo, adicionou a figura de um cavalo para dizer que quer cavalgar, como faz semanalmente nas aulas de equoterapia. Mesmo com apenas sete anos, ele já tem uma paixão de infância, uma das colegas da 1ª série da Escola Estadual de Ensino Médio Curupaiti, que corresponde ao sentimento. A foto da menina e da mãe dela foram parar no tablet. Quando ele clica na imagem, o aparelho descreve em voz alta: “Maria e minha sogra Rô”. Murilo também faz fisioterapia e fonoaudiologia para ajudar a ultrapassar suas limitações.
Para ter acesso ao Livox gratuitamente, a família Toillier passou por um treinamento proporcionado pela equipe de Carlos Pereira. Para custear o deslocamento desta equipe, os pais de Murilo arrecadaram doações de amigos e familiares, no total de R$ 1,2 mil.
Além da ajuda da tecnologia digital, Murilo também conta, há menos de um mês, com um simulador de caminhada, que o ajuda a ficar de pé e dar alguns passos. O equipamento importado foi conseguido também com doações, que totalizaram aos R$ 10 mil necessários para compra.
— Apesar de todas as limitações dele, ele é uma criança extremamente feliz. Vive sorrindo e se supera a cada dia — resume a avó na Toillier.
COMO FUNCIONA
O Livox é um software disponibilizado gratuitamente pelos desenvolvedores e o seu funcionamento é simples. Ao iniciá-lo, clicando no respectivo ícone de qualquer tablet com sistema Android, aparece uma tela com diversas figuras, que podem ser personalizadas de acordo com a necessidade de cada usuário.
A tela básica contempla quatro opções: eu quero, eu estou, diversão, favoritos e cuidados pessoais. Após, se o usuário clicar em “eu quero”, a próxima tela oferece novas opções, como, por exemplo, brincar, comer, beber, etc. Ao seguir escolhendo novas figuras, as opções vão ficando mais específicas e a pessoa com deficiência.
O sistema permite, ainda, que o usuário expresse como se sente – “feliz” ou “estou com dor” e suas vontades – “quero a mamãe”. Além disso, ele promove autonomia a pessoas com deficiência, porque ela pode escolher a música que quer ouvir ou o vídeo que quer assistir e ela mesmo pode dar o play e pausar quando tiver vontade.
COMO AJUDAR
Faça uma doação: o Livox é um programa gratuito, não é preciso pagar aluguel nem direitos autorais para usá-lo. No entanto, os treinamentos e o aperfeiçoamento do software são caros. Você pode ajudar que o sistema chegue a mais pessoas doando qualquer valor em dinheiro. Acesso o site www.agoraeuconsigo.org e descubra como ajudar.
Doe um tablet: embora os tablets estejam bem mais baratos, muitos pacientes não têm recursos financeiros para comprá-los. Você pode doar um tablet (mesmo que seja usado) que será repassado a uma família carente.
Adote um paciente: a grande maioria dos pacientes que fazem uso do Livox tem sérias limitações físicas, motoras e às vezes, cognitivas. Essas limitações precisam ser minimizadas antes de se fazer uso do software é aí que você pode ajudar "adotando" um paciente. Mandei um e-mail para contato@reamo.com.br e saiba como proceder.
Mais informações pelo telefone (81) 3034-5868.
Outros exemplos
Um estudo gaúcho, que envolve o uso de tablets para auxiliar pacientes com dificuldade de comunicação após procedimentos cirúrgicos, está sendo desenvolvido no Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), em Passo Fundo, no norte do Estado.
Por meio do tablet, o paciente pode manifestar quais seus sentimentos com um toque na tela. Assim, o paciente poderá comunicar se está com dor, qual o local da dor e até mesmo a intensidade dela; se gostaria da presença de um familiar ou se está com fome, entre outras vontades.
Este e o software pernambucano não são iniciativas isoladas que visam ajudar pessoas com deficiências. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), por exemplo, desenvolve há cerca de dez anos estudos na área de Tecnologia Assistiva, buscando melhorar a qualidade de vida dessas pessoas.
No entanto, segundo o professor e engenheiro mecânico Fábio Pinto da Silva, os novos produtos desenvolvidos em laboratório esbarram na falta de interesse e incentivo das empresas:
— A maioria quer investir em produtos para a grande massa, que dão mais lucro. Assim, muitas coisas que desenvolvemos não chegam às pessoas que deveriam recebê-las.













