Ela já não visita mais os parentes que moram na margem do Rio dos Sinos, em São Leopoldo. Aquelas águas escuras lhe trazem o cheiro da morte. Cleonice Fátima Xavier, 51 anos, perdeu três filhos em pouco mais de uma década. Todos eles levados pelo rio. É como se Cleonice convivesse com uma cicatriz que o tempo insiste em não deixar apagar. Onze anos após a morte de dois de seus meninos — em um intervalo de três meses —, a tragédia se repete. No mesmo rio.
Na tarde de 20 outubro, o 2º Comando Regional de Bombeiros foi acionado por uma das amigas de Ana Carolina Xavier da Costa, 13 anos. A adolescente conta que entravam na água de braços dados, quando Ana teria caído em uma parte mais profunda e desaparecido. O poço tinha oito metros de profundidade. Depois de quatro dias de buscas, o corpo subiu à superfície.
— Ainda estou arrasada. Não quero passar perto do rio, para nada — conta a mãe.
A mesma dor de Cleonice foi enfrentada por famílias de pelo menos outras 149 pessoas que morreram afogadas no Estado em 2011. O maior número de mortes aconteceu em águas interiores. As ocorrências em lagos, rios e açudes foram oito vezes mais frequentes do que as fatalidades no mar.
Em boa parte dos casos, as falhas foram as mesmas. As vítimas refrescavam-se em local inapropriado e sem a vigilância de salva-vidas. Desrespeitaram a força da água. E foram levados por ela.
Adolfo Bialoso, sargento do 2º CRB, que recebeu o pedido de socorro da amiga de Ana da Costa, estima em porcentagem a origem das tragédias: 90% das vítimas não sabiam nadar. Soma-se a essa incapacidade, fatores que podem causar mal-estar como entrar na água após refeições pesadas e ingestão de bebidas alcoólicas ou depois de exercícios que exijam grande esforço físico.
Para Joel Prates, presidente da Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático (Sobrasa), além da imprudência, a excessiva confiança de que se sabe nadar também é fator que pode levar a afogamentos.
— As pessoas têm de se dar conta de que nadar em piscina é uma situação diferente do que estar em águas escuras e frias. Os rios têm mudanças de profundidade bastante abruptas e, quando se vê, se está em situação de risco — avalia Prates.
Falta de vigilância aumenta os riscos
O 9º Comando Regional de Bombeiros, com sede em Tramandaí, contabilizou 27 mortes em 2011, o que significa que menos de 20% dos casos de afogamento aconteceram no litoral gaúcho.
De acordo com o major Avila, do Grupo de Busca e Salvamento (GBS) da Capital, no entanto, até 2 mil salvamentos são realizados por ano nas praias do Estado. Cruzando os dados, uma constatação é certeira para o comandante: o maior número de mortes nas águas doces do interior gaúcho é explicado pela falta de vigilância.
— Não se pode afirmar que os 2 mil casos de afogamento por ano no Litoral resultariam em morte, mas é possível dizer que pelo menos a metade dessas pessoas não sobreviveria se não houvesse a presença constante de salva-vidas nas praias mais movimentadas no verão — estima Avila.
No último mês, foram registradas 20 mortes em todo o Estado, 10 a mais do que as contabilizadas em outubro do ano anterior. Nenhuma aconteceu no mar. Oito foram em rios e sete em arroios do interior gaúcho.
Em água doce ou salgada, a prevenção mais eficaz que existe contra o afogamento é aprender a nadar.
— É preciso prevenir — diz Avila.
Siga as dicas:
> Seja precavido...
- Nunca superestime a sua capacidade de nadar
- Se for nadar, evite a ingestão de bebidas alcoólicas
- Não faça refeições pesadas antes de entrar na água
- Evite nadar durante a noite ou em locais isolados
- Respeite as placas que sinalizam locais impróprios para banho
- Não nade após exercícios
- Seja cauteloso e verifique a profundidade e a correnteza do local de banho antes de cair na água
> Se alguém estiver se afogando...
- Ligue para os bombeiros, no 193
- Não tente salvar alguém se há risco à sua segurança
- Se dominar a natação, entregue algo que flutue para a pessoa que está se afogando
- Se não souber nadar, não entre na água. Tente jogar uma corda ou uma boia para perto de quem está se afogando
> Se você estiver se afogando...
- Se caiu em alguma situação de risco, mantenha a calma
- Se não souber nadar, tente boiar ficando com a cabeça para fora da água
- Se souber nadar, dirija-se para um local seguro ou até o ponto fixo mais próximo
- Em hipótese alguma nade contra a correnteza. Sempre a favor dela













