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The New York Times17/11/2012 | 04h20

A evolução da tomada de notas

Conferência em Havard reuniu 250 acadêmicos e explorou o futuro do livro

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A evolução da tomada de notas Charlie Mahoney/NYTNS
Encontro em Havard atraiu historiadores, estudiosos de literatura, psicólogos e cientistas da computação Foto: Charlie Mahoney / NYTNS
Jennifer Schuessler

   

Cambridge, Massachusetts — Todos os dias, em salas de aula através dos EUA, estudantes tomam notas silenciosamente em laptops e antiquados cadernos, ou pelo menos fingem. Recentemente, porém, 250 acadêmicos e leigos se reuniram na universidade de Harvard para um exercício mais autoconsciente: uma oportunidade de tomar notas sobre a tomada de notas.

A ocasião era a "Take Note", conferência que concluiu uma iniciativa de quatro anos para explorar a história e o futuro do livro, patrocinada pelo Radcliffe Institute for Advanced Study. O evento atraiu historiadores, estudiosos de literatura, psicólogos e cientistas da computação — incluindo diversos "criadores de notas" (como diria a terminologia atual) ávidos por brincar com as possibilidades de papel e tela.

"Pensei que tomaria minhas notas de uma nova maneira hoje", declarou Judith Davidson, professora de educação da Universidade de Massachusetts, em Lowell, que usava o software Penultimate e uma caneta stylus para escrever notas cursivas em seu iPad — isso quando não estava preenchendo espaços vazios com desenhos abstratos. "Muitas coisas passam por sua cabeça quando você está tomando notas", explicou ela.

As longínquas ideias que passam pelas cabeças de acadêmicos quando eles pensam em notas ficaram claras no encontro, que durou um dia todo. As apresentações abordaram os tópicos anotados na mão de Sarah Palin durante um discurso, folhetos de postes e publicações no Twitter sobre a conferência que foram lidos no palco (o evento foi transmitido ao vivo pela internet), muitos dos quais expressando preocupação sobre as habilidades de tomar notas dos próprios ouvintes.

Mas a conferência foi mais do que uma celebração de anotações extravagantes e egocentrismo acadêmico. O estudo das notas — sejam elas feitas em livros comuns, em fichas ou em apostilas — é parte de uma pesquisa acadêmica mais ampla da história da leitura, um campo que ganhou terreno conforme o crescimento da tecnologia digital fez o encontro entre livro e leitor parecer mais frágil e fugidio do que nunca.

— A nota é o registro que um historiador possui das leituras passadas. O que significa ler, afinal? Mesmo analisando de forma introspectiva, é difícil saber o que você está levando consigo em dado momento. Mas as notas nos dão esperança de nos aproximarmos do processo intelectual. — questionou Ann Blair, professora de história em Harvard e uma dos organizadores da conferência.

Não que a tomada de notas sempre seja considerada uma atividade inteiramente sadia. Durante o primeiro painel, questionado se os tomadores de notas mais entusiasmados não seriam como "acumuladores compulsivos", Peter Burke, professor emérito de história da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, disse que um de seus professores expulsava da sala qualquer aluno pego tomando notas — por falta de atenção.

Ele próprio nunca foi tão rigoroso, afirmou Burke. "Mas eu desconfiava dos alunos que tomavam notas demais, assim como dos que não tomavam nenhuma." E acrescentou: "Se você anota tudo, isso se torna uma doença".

Para muitos acadêmicos daqui, porém, o verdadeiro problema costuma ser a escassez. Novos recursos digitais como o Annotated Books Online, projeto iniciado pela Universidade de Utrecht, da Holanda, oferecerão um acesso mais sistemático a livros repletos de anotações em bibliotecas do mundo todo.

Numa conversa sobre a tomada de notas na época de Shakespeare, Tiffany Stern, professora de teatro da Universidade de Oxford, descreveu a forma como as pessoas carregavam "livros de mesa", com páginas especiais "apagáveis", a sermões e peças, não só para tomar notas, mas também para se mostrarem como tomadores de notas — como o iPad de hoje. "Eles mostravam que a pessoa era altamente instruída, e queria escrever o tempo todo", explicou ela.

Poucas notas de livros de mesa sobreviveram, mas os registros impressos trazem vestígios das controvérsias por vezes causadas. Elas davam aos ouvintes uma sensação de propriedade, disse Stern, para desespero de padres e dramaturgos que investiam contra textos não autorizados publicados a partir de notas do público. Sobre essas pessoas, Ben Johnson escreveu em 1600: "onde quer que se escondam sentadas, saibam que o autor desafia a elas e a suas escrivaninhas".

Mas Stern também vê evidências de que alguns dramaturgos escreviam tendo como foco as audiências tomadoras de notas, esperando que trechos copiados e repetidos servissem como publicidade.

Uma exposição online de 73 artefatos ligados a notas, todos da coleção de Harvard compilada para a conferência, inclui um livro de mesa de 1581, embora as notas nas páginas apagáveis sejam aparentemente do século XIX. A exposição também apresenta outros exemplos de tecnologia de tomada de notas pré-digital, incluindo um pedaço de cerâmica usado como papel rascunho e uma gravura alemã do século XVII mostrando um "armário de notas" — onde pedaços de papel podiam ser pendurados em ganchos correspondendo a até 3.000 títulos em ordem alfabética.

Numa sessão sobre ferramentas digitais de anotação, David Karger, cientista da computação do Massachusetts Institute of Technology, descreveu seu software NB, que permite aos estudantes inserir de modo colaborativo perguntas e comentários marginais em leituras de classe — abrindo, com isso, um canal para alunos que não queiram falar durante as aulas, afirmou ele.

Mas outros acadêmicos relataram resultados positivos com meios muito mais primitivos. Neste semestre, Leah Price, professora do departamento de Inglês de Harvard e organizadora da conferência, está lecionando o seminário "Como Ler um Livro", onde a cada semana os estudantes são limitados a um meio antigo de tomar notas — incluindo máquinas de escrever, gravadores de fita, penas e pergaminhos e até mesmo tábuas de argila.

A superfície limitada das tábuas "realmente os obriga a pensar antes de escrever", explicou Price. "Isso também gerou uma fantástica discussão de classe. Todos realmente mantiveram contato visual."

Blair, cujo livro "Too Much to Know" examinava as respostas dos primeiros acadêmicos europeus modernos à "sobrecarga de informação" de sua própria época, teve menos sucesso com um esforço para transcrever partes da conferência usando a Schreiberchor, ou coral de escrita, técnica de tomada de notas desenvolvida na escola religiosa alemã do século XVII, onde equipes alternadas de até 16 garotos anotavam transcrições literais de sermões em blocos de oito palavras.

Quando você está apenas contando palavras, "é impossível acompanhar o que está sendo dito", argumentou Blair. "Mas, como diziam os pedagogos, isso mantém sua mente longe de pensamentos escabrosos."

A preocupação com o possível vácuo mental da tomada de notas assumiu especial urgência durante a sessão de anotação digital, onde palestrantes debateram se a internet e as redes sociais teriam inaugurado uma era dourada das notas ou nos condenado a ver todos os nossos pensamentos passageiros — se não nossos próprios cérebros — serem sugados num gigantesco ralo digital, fora do alcance dos futuros historiadores.

Em determinado momento, um tuíte de David Weinberger, tecnólogo do Berkman Center for Internet and Society, de Harvard, foi lido em voz alta no palco: "Para mim, a tomada de notas privada parece egoísta. Tornemos tudo público, usando padrões. Grandes nuvens de notas!"

Outros defenderam a intimidade essencial do processo de tomar notas, que um membro da plateia resumiu na frase: "Minhas notas não são da sua conta".

— Há algo que você deixa de aproveitar quando uma nota não está em suas próprias mãos, quando você não pode olhar para ela e saber que aquela nota é sua. De certa forma, ela não é sua — afirmou Stern.

Não que o velho método do papel e caneta não traga seu próprio risco de alienação. "Tento evitar tomar notas", disse Markus Krajewski, historiador da Universidade Bauhaus em Weimar, Alemanha, enquanto guardava seu laptop após a sessão final. "Não consigo entender minha própria letra."

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