New York Times17/04/2012 | 04h59

SESC, uma história de sucesso

Principal entidade de apoio às artes do Brasil tem orçamento que chega a US$ 600 milhões ao ano

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SESC, uma história de sucesso Lalo de Almeida/The New York Times
Complexo cultural do Sesc em São Paulo foi projetado pelo arquiteto Lina Bo Bardi Foto: Lalo de Almeida / The New York Times
Larry Rohter


 
São Paulo — No mundo todo, as organizações culturais estão apertando os cintos e cancelando produções, mas o desafio que Danilo Miranda enfrenta é outro, de matar os colegas de inveja: como diretor da principal entidade de apoio às artes do Brasil, seu orçamento cresce dez por cento ou mais anualmente e ele tem que decidir como gastar esse valor, que chega a US$ 600 milhões ao ano.

De pé, na frente da janela de seu escritório num fim de tarde do ano passado, Danilo mostrou uma das iniciativas mais ambiciosas de seu grupo: no pátio logo abaixo, a trupe de vanguarda Théâtre du Soleil de Paris, dirigida por Ariane Mnouchkine, erguia uma tenda gigante onde começaria a turnê pelo país.

A organização de Danilo, o SESC, ou Serviço Social do Comércio, também quer estreitar relações com artistas norte-americanos: para isso, patrocinou um festival de jazz em parceria com a Nublu, a gravadora de Nova York; fechou uma "parceria institucional" com a companhia espanhola TeatroStageFest e já apresentou o trabalho de David Byrne, do percussionista de salsa Bobby Sanabria e o diretor Robert Wilson — cujas obras incluem as óperas "Einstein on the Beach" e "the CIVIL warS" e que, aliás, negocia uma parceria a longo prazo, assim como o Globalfest, que mostra música do mundo inteiro e é realizado em Nova York todo mês de janeiro.

— O nosso princípio fundamental é usar a cultura como ferramenta de educação e transformação com o objetivo de melhorar a vida das pessoas — e, graças a Deus, temos condições de cumprir essa missão — ele diz. — Na última década, o nosso orçamento vem dobrando a cada seis anos. Incrível, não?

O SESC deve sua posição invejável em grande parte a um modelo financeiro que seus líderes acreditam ser único no mundo. Entidade privada e sem fins lucrativos cujo papel é garantido pela Constituição, a organização recebe esse orçamento graças ao 1,5 por cento de encargos sociais imposto às empresas brasileiras — de modo que se a força de trabalho desse país de quase 200 milhões de habitantes se expande, o mesmo acontece com o caixa da entidade.

Nos EUA e principalmente na Europa, a crise econômica de 2008 acarretou inúmeros cortes, dos setores público e privado, em investimentos culturais; já as finanças brasileiras vão bem, obrigado, e o país já é a sexta economia do mundo depois de crescer 7,5 por cento em 2010 e pouco menos de três no ano passado.

A força de trabalho cresce ainda mais rápido: Abram Szajman, presidente da FecomercioSP, federação que supervisiona o conselho regional do SESC, estima que o volume dos encargos sociais recolhidos tenha crescido de dez a doze por cento no ano passado.

— O Brasil está crescendo, assim como as nossas necessidades e a dos trabalhadores — diz ele. — É gente que quer acesso não só aos esportes e à saúde pública, mas também à arte, música e outras atividades culturais, sejam brasileiras ou estrangeiras, e aí é que nós entramos.

A expansão do grupo pode não ter sido registrada ainda pelos consumidores de arte fora do Brasil, mas sua emergência como força global não passou despercebida nem pelos artistas nem por aqueles que pagam por seu trabalho.

— Os brasileiros estão nadando em dinheiro — afirma Jennifer P. Goodale, diretora do Trust for Mutual Understanding, ONG que trabalha com programas de intercâmbio cultural com países do leste europeu e Ásia. — Com as Olimpíadas e tudo mais, o país é a bola da vez.

O SESC, porém, não é a única entidade que trabalha para expandir suas atividades e levar a cultura brasileira para o exterior: o Ministério de Relações Exteriores — e os estados e cidades — também têm programas para auxiliar as turnês de músicos fora do país, bem como promover filmes e outros trabalhos no exterior; já o governo federal tenta encontrar meios de reforçar uma lei de vinte anos que oferece incentivos fiscais às empresas que financiam programas artísticos.

— O dinamismo cultural, a estabilidade monetária, o processo de inclusão social — tudo isso contribui para que a cultura brasileira seja um meio muito válido do exercício do poder brando, de tornar a nossa sociedade mais conhecida e compreendida pelos outros — afirma Celso Lafer, ex-ministro do Exterior que também é membro da Academia Brasileira de Letras.

Entretanto, o SESC é a organização de artes mais ativa do país, operando em todos os 27 estados, financiando não só programas culturais como também atividades recreativas, cursos educativos e clínicas de saúde. Em São Paulo, que abriga 41 milhões de habitantes e é o estado mais populoso e próspero do país, vinte e cinco por cento do orçamento do grupo é gasto em "expansão e renovação" de seus centros de recreação e artes; 55 vai para atividades diversas e vinte diretamente para os programas culturais — e só por eles, Danilo Miranda recebe quase tanto quanto o National Endowment for the Arts (principal órgão norte-americano para estímulo da cultura), recebe para os EUA inteiro.

Atualmente, há poucas áreas no cenário artístico brasileiro em que o SESC não esteja envolvido: ele tem uma editora própria, além de uma gravadora e um canal de TV e opera galerias, teatros, cinemas e salas de concerto que normalmente fazem parte de complexos maiores, com restaurantes e quadras esportivas.

— O modelo SESC é maravilhoso e deveria ser copiado ao redor do mundo — disse Nan van Houte, diretor do Instituto de Teatro da Holanda e ex-presidente da Rede Internacional de Artes Performáticas Contemporâneas. — É muito interessante e engenhosa essa integração de teatros, piscina, restaurante, workshops e museus. Tudo isso faz parte da cultura do dia-a-dia, não pode ser dissociado.

Para os artistas, a organização representa uma trégua da pressão comercial e encoraja o trabalho experimental — e uma vez que o modelo do SESC é "voltado para o envolvimento da comunidade nas artes e na cultura, anula a pressão promocional e de marketing que o patrocínio corporativo acarreta", escreveu por e-mail Robert Wilson, que já negocia com o grupo a produção de pelo menos seis trabalhos seus.

Para se ter uma ideia do ecletismo da organização, em 2010, ela contratou um musicólogo grego que trabalha no Brasil para gravar um CD duplo com as composições de quase 300 anos encontradas em monastérios espalhados pelo país para piccolo cello, mas também lança CDs, realiza shows de samba e outros gêneros de música popular e patrocina exposições de arte naïf.

— Uma vez que somos uma instituição privada com um compromisso público, não podemos nos limitar a apenas uma tendência ou estilo — Danilo explica. — Não podemos dizer: 'Vamos só valorizar a música tradicional ou moderna ou hip-hop ou bossa nova'.

O SESC foi fundado em 1946, num momento em que os setores comercial e industrial temiam que os trabalhadores fossem atraídos pelo comunismo — e uma vez que o Brasil é o maior país católico do mundo, a doutrina social cristã defendida em encíclicas papais como o "Rerum Novarum", que pregavam uma maior solidariedade social e uma relação mais harmoniosa entre o capital e a mão de obra, também foi uma influência importante.

É óbvio que, de lá para cá, o Brasil e o mundo mudaram; não só o comunismo entrou em colapso como a economia brasileira está maior que a do Reino Unido, Itália ou Rússia. Ainda assim, Os grandes empresários brasileiros veem grandes vantagens e utilidades no sistema do SESC e nenhum dos mais de vinte partidos políticos do país se opõe a ele.

— Parte da recuperação do investimento é social. É importante para nós, empresários, que a sociedade veja que estamos participando — disse Abram Szajman. — Há também um retorno prático: os funcionários entram no mercado de trabalho como cidadãos mais bem informados, com treinamento mais adequado — e mais felizes, o que os torna mais produtivos.

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