A história de uma família dilacerada por um acidente de trânsito fez silenciar o município de Pedro Osório, no sul do Estado. Em uma tentativa de salvar o filho de quatro anos, a auxiliar legislativa Bianca Velleda dos Santos, 32 anos, grávida de sete meses, foi atropelada por uma motocicleta. Ela, o bebê e o filho foram sepultados no final da tarde desta sexta-feira, diante do choro de mais de sete mil pessoas.
— A cidade está parada, nem os passarinhos estão voando hoje — disse uma amiga da família ao retratar a pior das cenas a que poderia assistir: dois caixões, um ao lado do outro; em um deles, a mãe com o bebê que nem havia nascido nos braços, no outro, o menino Caio, com os brinquedos do Homem Aranha de que tanto gostava.
A Câmara de Vereadores suspendeu o expediente e o prefeito decretou três dias de luto oficial. Bianca era conhecida pelo trabalho de quase 15 anos no Legislativo e pela atividade que exercia junto com a família no Rotary Club.
Mãe e filho foram atropelados na Avenida José Bonifácio, do outro lado da rua da casa onde moravam. Caio foi socorrido pelo avô e levado ao Pronto Socorro de Pedro Osório e Bianca encaminhada para atendimento pela Brigada Militar. Devido à gravidade dos ferimentos, os dois foram transferidos para Pelotas, mas não resistiram.
Michele Velleda dos Santos e Cibele Velleda dos Santos, irmãs de Bianca, contam que mãe e filho deixavam a praça juntos. Bianca acompanhava Caio, e os dois já estariam próximos à calçada quando foram atingidos. As familiares relatam ainda que foram doadas as córneas das vítimas.
De acordo com a Polícia Civil, os dois foram atropelados pelo entregador de pizzas Diego Silva da Rosa, de 23 anos, que estava trabalhando no momento do acidente, teve um ombro deslocado e escoriações leves. Conforme consta no boletim de ocorrência, o velocímetro da motocicleta teria travado na marca dos 110 quilômetros por hora. À polícia, Rosa relatou não ter tido tempo de desviar ao perceber os dois na via.
Essa é a segunda vez em pouco mais de um mês que um trágico acidente deixa a população de Pedro Osório chocada. Gabriely Soares, de seis anos, foi atropelada pelo caminhão do Papai Noel na véspera do Natal, durante a festa promovida pela prefeitura.
"Eu estava do outro lado da rua, vi tudo e não pude fazer nada"
O auxiliar de manutenção, Cléber Ossanes, de 28 anos, perdeu a mulher, o filho e o bebê — que viu pela primeira vez no caixão, junto com a mãe.
Zero Hora — Como você ficou sabendo do acidente?
Cléber Ossanes — Eu estava tomando chimarrão na frente de casa, junto com eles, só que do outro lado da rua. Vi tudo e não pude fazer nada. Vi que uma moto se aproximava, ela vinha muito rápido. Foi tudo muito rápido. A gente cuidava tanto, não sei como isso foi acontecer.
Zero Hora — Qual foi a sua reação?
Cléber Ossanes — Não deu tempo de nada, não lembro direito. Vi o meu sogro, que também estava conosco, sair correndo, pegar o meu filho no colo. Eu fui para perto também, aí já chegou a Brigada Militar. Eles estavam com braço, perna, cabeça quebrada, vi os cabelinhos do meu filho no chão. Arrancaram a minha família de mim.
Zero Hora — Você consegue imaginar como será a sua vida daqui para frente?
Cléber Ossanes — Não sei, não consigo pensar em nada daqui para frente porque ainda não acredito que isso aconteceu.













