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Construções do isolamento23/03/2013 | 11h45

Crescimento desordenado de Porto Alegre acabou criando sensação de desconforto

A escritora Carol Bensimon discute a construção e estética urbana portoalegrense

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Crescimento desordenado de Porto Alegre acabou criando sensação de desconforto Júlio Cordeiro/Agencia RBS
A sacada, além de oferecer um pouco de ar livre dentro do próprio apartamento, serve como uma bela ‘ponte’ para a rua. Foto: Júlio Cordeiro / Agencia RBS
Carol Bensimon
Todo dia, um prédio recebe o acabamento final em Porto Alegre, e então está pronto para ser ocupado. Ele tem 15 ou 18 andares, janelas estreitas, uma área de lazer que nunca será tão movimentada quanto foi nas projeções eletrônicas, um nome de realeza britânica, um nome de praia espanhola, um nome em francês que pouca gente será capaz de pronunciar da forma correta.

O Prédio Novo – vamos chamá-lo assim, para simplificar as coisas – é dotado de um projeto paisagístico “minimalista”, o que se traduz, em termos práticos e visíveis, por alguns tufos de vegetação acompanhando o traçado das grades, além das esquálidas promessas de palmeiras dispostas diante da entrada. O Prédio Novo provavelmente tirou o sol da manhã que caía sobre o pátio de uma velha senhora, essa senhora, aliás, que se recusou a vender seu “terreno” (o qual, por hábito, ela chama de “casa”), obrigando a uma mudança sutil de planos por parte da incorporadora. O Prédio Novo, antes mesmo de estar pronto, tornou-se um sucesso comercial.

Tentei fazer um retrato de um empreendimento que acaba de nascer porque quero discutir alguns pontos relacionados a estética, escala de valores, alguma psicologia, e sobretudo àquilo que devemos esperar de nossas casas e de nossa cidade. 
Em uma obra clássica do urbanismo, Morte e Vida de Grandes Cidades, Jane Jacobs descreve-nos um bairro histórico de Chicago e o empenho de seus moradores em restaurá-lo, o que fez com que, segundo Jacobs, aquele se tornasse um dos lugares mais interessantes, diversos e vivos de Chicago. Em contraste, eis o que a autora nos diz sobre outra cidade americana: “Em Miami Beach, onde a novidade é o remédio soberano, hotéis com 10 anos de idade são considerados ultrapassados, e ignorados porque há outros mais novos. A novidade, com seu superficial verniz de bem-estar, é uma mercadoria muito perecível”. Agora substitua “Miami Beach” por “cidades brasileiras” e veja que a frase continua fazendo sentido, mesmo que tenha sido escrita 52 anos atrás.

Brasil e Estados Unidos, é claro, têm muito em comum. Portanto não me impressiona – ou ao menos não tanto quanto me incomoda – o fato de que a maioria de nós, brasileiros, queira adquirir um imóvel recém construído ou ainda na planta, ainda que essa característica vista como benefício se evapore em um prazo tão curto. Em um país emergente e de pouca idade como o nosso, é compreensível que o atributo do “novo” siga ditando a norma, na maior parte das vezes às custas da extinção do que é “velho”. Uma casa dos anos 1960, cheia de personalidade, subitamente dá lugar a um espigão. Você já viu esse filme várias vezes, inclusive acontecendo na sua rua.

O aspecto mutante das cidades brasileiras – alguém compararia Porto Alegre ou Recife a um palimpsesto muito gasto – é resultado de um importante crescimento econômico, sem dúvida. Mas esse crescimento se dá de forma tão desordenada que acaba por criar uma sensação de desconforto, instabilidade e, por que não, de constante insegurança. Não se trata somente de já não encontrar os lugares da infância quando você fica um pouco mais velho, tendo daí a impressão de que um pedaço de sua história foi carregada e descartada pelo vaivém de uma retroescavadeira; trata-se de observar, impotente, uma cidade hostil crescendo diante dos seus olhos. E uma fração considerável dessa hostilidade, ouso dizer, nasce com os novos empreendimentos.
Vou embasar minha afirmação em três pontos. O primeiro deles está relacionado à altura dos prédios. Quanto mais alto um edifício, menor é sua ligação com a rua. Em outras palavras: se você está no 14º andar, vai olhar muito pouco ou rigorosamente nunca para o que acontece na calçada defronte ao seu prédio. Você terá uma magnífica visão do todo, é claro, e pode ganhar até mesmo uma fatia de Guaíba lá no fundo, mas os detalhes, as pessoas, estão fora do seu alcance. Em um andar mais baixo, por outro lado, é possível observar gente indo e vindo. Um gesto banal que, como afirma Jane Jacobs no já citado livro, contribui para a segurança dos que moram naquela quadra, e também dos que apenas passam por ela. Quanto maior o número de olhos observando, melhor. Isso me faz pensar, aliás, nas sacadas (os novos apartamentos raramente têm uma, e muitas das antigas sacadas foram fechadas pelos seus donos, como se o clima de Porto Alegre fosse tão rigoroso quanto o de Helsinki ou Bagdá). A sacada, além de oferecer um pouco de ar livre dentro do seu próprio apartamento – sei que muitos europeus matariam por isso –, ainda serve como uma bela “ponte” para a rua. Os dois lados agradecem.

Segundo ponto: alguns dos novos empreendimentos criam zonas residenciais de enormes proporções. Como consequência, seus moradores precisam do carro para qualquer deslocamento, mesmo os mais cotidianos (supermercado, farmácia, banco, etc.). As calçadas acabam se esvaziando, é claro, e aquele que por acaso usá-las será acometido por uma grande sensação de insegurança.

Por último, torres residenciais de 18 andares não contribuem para a paisagem da cidade simplesmente porque são feias. Beleza é um conceito muito subjetivo e pessoal, sem dúvida. Ainda assim, diante de uma foto do centro de Phoenix, Arizona, e outra de uma estreita rua romana, acredito que nove entre 10 pessoas se sentiriam mais atraídas – e talvez mesmo apaziguadas – pela segunda imagem.

Em A Arquitetura da Felicidade, o filósofo suíço Alain De Botton diz que, assim como cadeiras ou bules denotam certa personalidade de acordo com suas curvas, cores e tamanhos variados, a mesma lógica é válida para obras arquitetônicas. Nossa tendência é, em resumo, “humanizar” todas as coisas. Portanto, afirma De Botton, “sentir que uma construção é desagradável talvez seja simplesmente não gostar do temperamento da criatura ou ser humano que reconhecemos vagamente na fachada – assim como dizer que outro edifício é bonito significa sentir a presença de uma personalidade agradável se ele assumisse uma forma viva”.

Que tipo de caráter prédios mastodônticos de janelas diminutas nos transmitem? Deixo para você esse exercício de imaginação.

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