O que matou Dienifer26/02/2014 | 06h10

Afogamento de canoísta gaúcha de 15 anos foi marcado por série de erros

Atleta que treinava com a seleção brasileira não sabia nadar e não utilizava colete salva-vidas

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Afogamento de canoísta gaúcha de 15 anos foi marcado por série de erros Adriana Franciosi/Agencia RBS
Mãe de Dienifer pede justiça e fala em negligência na morte da filha Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS
Paulo Germano, de Cachoeira do Sul

paulo.germano@zerohora.com.br

Sem saber nadar, sem colete salva-vidas, sem um instrutor que a acompanhasse, sem uma embarcação para protegê-la.

Assim morreu a canoísta gaúcha Dienifer D'Avila Loreto, de 15 anos, que treinava com a seleção brasileira ao se afogar na última sexta-feira em São Paulo.

A jovem atleta, que até o final de janeiro vivia em Cachoeira do Sul, região central do Estado, começou a tomar aulas de natação quando foi convocada para a seleção, um mês atrás, já morando na capital paulista. Seu corpo foi encontrado - sem qualquer vestimenta que pudesse mantê-la flutuando - na represa de Guarapiranga, onde a equipe, em uma parceria da Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa) com o Yacht Club Paulista, treinava diariamente.

- Eles tinham conhecimento de que ela não sabia nadar. A polícia precisa pegar quem cometeu essa negligência - protesta, aos prantos, a mãe de Dienifer, Nair Fátima D'Avila, 54 anos. 

O item 3.2.4 do Regulamento da Canoagem Velocidade da Confederação Brasileira de Canoagem estabelece:

"Todo competidor deve saber nadar e, no caso de deficiência nesta habilidade, deve vestir colete salva-vidas".

Em entrevista recente ao canal SporTV, o técnico de Dienifer, Marcos Ito, disse que o colete "atrapalha na remada" e que a garota passava por uma adaptação para se livrar do acessório. No último Campeonato Brasileiro de Canoagem, em 2013, foi usando colete que a adolescente conquistou duas medalhas de prata e duas de bronze na categoria cadete, chamando a atenção dos dirigentes da confederação.

- Aqui em Cachoeira, onde ela se destacou nos treinos, é proibido entrar na água sem o equipamento, mesmo que o atleta nade muito bem - diz o presidente da Associação Cachoeira de Canoagem e Ecologia, Edson Machado, lembrando que Dienifer passou quase dois anos remando às margens do Rio Jacuí e, após um mês em São Paulo, "voltou em um caixão".

Um atleta da seleção ouvido por Zero Hora, que pediu sigilo de sua identidade por medo de ser expulso do time, relatou uma rotina de descasos no centro de treinamentos paulista. Conforme ele, desde o início do ano, apenas o técnico Ito e um auxiliar eram responsáveis pelas equipes masculina e feminina.

Deveria haver um treinador e um assistente para cada grupo.

Por isso, segundo o atleta, Ito costumava acompanhar os treinos dos rapazes, com o auxiliar sempre atrás, em um bote a motor. As garotas ficavam sozinhas, sem guarida para o caso de um acidente.

Para piorar, dois dias antes da morte de Dienifer, o treinador teve um problema familiar e foi dispensado. Assim, somente o ajudante estaria responsável pelos seis rapazes e pelas quatro meninas.

Quando a gaúcha desapareceu, o bote do auxiliar estaria distante, oferecendo amparo aos homens.

Na humilde casa sem pintura onde vive a família de Dienifer, em uma rua de chão batido em Cachoeira do Sul, a mãe e as quatro irmãs mais velhas mostram o colete salva-vidas que a menina levara para São Paulo. Stefani, 16 anos, também canoísta, conta que foi ela quem atou as fitas de náilon do equipamento antes de colocá-lo na mala da irmã:

- Depois que ela se afogou e os pertences voltaram, vi que as amarras do colete estavam intactas. Eu fiz nós difíceis de desatar, e todos eles ainda estão lá. A mana não usou o colete nenhuma vez.

Em vez da visita, a missa de sétimo dia
Uma vez, no meio de uma brincadeira entre adolescentes canoístas, Dienifer ralhou a turma:

- Não estou aqui para brincar nem para rir: estou aqui para treinar.

Sua dedicação à rotina de treinos era tão séria, tão determinada, que contrariava o espírito jovem de seus 15 anos. Caçula de cinco irmãs, dizia que sua meta era tirar a mãe da pobreza e disputar a Olimpíada do Rio em 2016. Não tomava refri, não comia chocolate.

- Ela passou um ano inteiro dizendo para mim: "Eu vou para a seleção, eu vou para a seleção, eu vou para a seleção". E foi mesmo - recorda seu treinador na Associação Cachoeira de Canoagem e Ecologia, Raufer da Silva Costa.

- Ela voltaria para cá no dia 28, que seria a folga do Carnaval, e para mim ela ainda vai voltar, não consigo entender o que houve - seca as lágrimas a irmã Catusa, 31 anos. - Só que justamente no dia 28 vamos rezar sua missa de sétimo dia.

Dienifer caminhava 40 minutos todo dia para chegar ao treino, na borda do Rio Jacuí, do outro lado de Cachoeira do Sul. Depois de quatro horas na água, retornava à modesta casa da mãe, a dona de casa Nair, pegava uma vassoura e ia para frente do espelho. Acomodava dois tijolos no chão, apoiava neles uma barra de ferro comprida e subia em um pé só naquela haste: passava horas simulando um remo com a vassoura, aperfeiçoando equilíbrio e postura. Depois fazia abdominais e saía a correr pela rua - e assim foi acumulando vitórias em provas de rústica.

Sua parceira de canoagem era a irmã Stefani,16 anos, com quem faturou a medalha de prata na prova dos mil metros em duplas, no Campeonato Brasileiro de Canoagem de 2013. Stefani, mais descontraída, encarava o esporte como um lazer, nunca levou a canoagem tão a sério como Dienifer.

- Mas agora eu vou levar. Agora eu vou para vencer, agora quero honrar a memória dela - garante a menina, para depois chorar abraçando Catusa.

Em Cachoeira do Sul, a associação que treinava Dienifer nunca foi um garimpo de atletas. Pelo contrário: a ideia era estimular crianças e adolescentes pobres a se apaixonar por um esporte, a plantar árvores na margem do rio, a fugir das drogas e ajudar desabrigados em enchentes - Dienifer também tocava essas atividades sociais, com muito gosto. Mas, aos poucos, talentos foram surgindo e as competições também.

- Era justo dar a eles a oportunidade de se destacarem - diz o canoísta Givago Ribeiro, medalhista no Pan de Guadalajara/2011, maior ídolo de Dienifer ao lado do irmão Gilvan. - Ajudei a treinar essa menina em 2012, aqui em Cachoeira, e agora acontece isso... Trataram a Dienifer como uma máquina de remar. Eu estou abandonando o meu projeto de chegar à próxima Olimpíada. Não quero participar disso.

Comandante dos Bombeiros Aquáticos já havia alertado sobre falta de colete
Em conversa por telefone com Zero Hora, o tenente Fernando Nishihara, que chefiou as buscas a Dienifer na Represa de Guarapiranga, em São Paulo, destacou pontos relevantes para o entendimento da morte da menina de 15 anos. Por mais de uma vez, condenou o fato de a atleta estar sozinha e não vestir coletes salva-vidas ao longo do treinamento. Nishihara declarou que já havia avisado o grupo de canoístas da Confederação Brasileira de Canoagem de que o uso do equipamento é norma obrigatória para os que estão na água - principalmente para aqueles que, como Dienifer, não sabem nadar.

- Eu já havia alertado sobre o uso obrigatório de colete para quem anda de caiaque. Tudo bem, são atletas, argumentam que ele (equipamento) prejudica a performance. Mas nada impede que tenham um mau súbito. Ela sozinha, então, mesmo que soubesse nadar, complica - disse o tenente.

O LOCAL E OS FATOS

- Atleta da seleção brasileira menor de canoagem, Dienifer Loreto morava havia cerca de um mês no Yacht Club Paulista, parceiro da Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa).
- Na manhã da sexta-feira, Dienifer deixou o clube e foi treinar na represa.
- Dienifer se afogou por volta das 9h30min.
- Foi encontrada no fundo da represa, cerca de 10 a 12 metros de profundidade, cinco horas após o acidente.
- O lago, represamento do Rio Guarapiranga desde 1909, tem perímetro de 85 quilômetros e inunda área de 3,4 mil hectares.
- Como não há correnteza no local, segundo Fernando Nishihara, o corpo afunda verticalmente e toca o solo, o que dificulta o acesso dos bombeiros e a localização.
- A canoísta foi localizada a cerca de 250 a 300 metros da margem da represa.
- Testemunhas que presenciaram o afogamento destacam que Dienifer não ficou mais que dois minutos em superfície após cair do caiaque. A embarcação estava a cerca de 40 metros longe da menina.
- Segundo Nishihara, um bom nadador se socorreria com facilidade ao caiaque nesta distância.
- O 102º Distrito Policial de São Paulo aguarda laudos médicos para avaliar a causa da morte. Por enquanto, caso é tratado como afogamento.

* Colaborou Alexandre Ernst

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