Em pouco mais de um mês, o futebol produziu cinco momentos de violência para revirar estômagos. No lugar do brilho de jogadas tecnicamente virtuosas, o destaque ficou por conta de entradas que incharam tornozelos, tiraram jogadores de ação e provocaram lágrimas de dor.
Em meio à revolta pelos lances, desencavou-se a velha discussão sobre o carrinho e seus perigos e veio à tona a impunidade de alguns jogadores, que nem sempre receberam da arbitragem uma sanção rigorosa.
A onda violenta teve início no dia 5 de fevereiro, quando Lincoln acertou o argentino Bottinelli e fraturou o tornozelo do companheiro de equipe em um treino do Coritiba. No dia 26 do mesmo mês, Ronaldinho saiu ileso após o zagueiro Diego Braghieri entrar com os dois pés esticados em sua canela e cometer pênalti na goleada de 5 a 2 do Atlético-MG sobre o Arsenal, pela Copa Libertadores. Eysseric, do Nice, causou fratura da tíbia e fíbula de Clement, do Saint-Étienne, em jogo do Campeonato Francês do dia 3 de março.
O último final de semana trouxe mais dois casos. No sábado, o meia Lucas, do PSG, saiu de campo com dores fortes no tornozelo após um carrinho de Mangani, do Nancy. A entrada de Danielzinho, do São Caetano, sobre Ferrugem, da Ponte Preta, no domingo, resultou em cenas fortes. O pé do jogador parecia estar "solto" da perna após o lance. Os exames apontaram fratura e rompimento dos ligamentos do tornozelo esquerdo.
Dos quatro incidentes que ocorreram durante jogos, com arbitragem presente, apenas o de Eysseric sobre Clement foi punido com o cartão vermelho.
— Dá para notar quando o lance é para machucar. O árbitro também sente aquele frio na barriga quando vê uma entrada assim. Nessa hora, a gente tem que expulsar — diz o árbitro Márcio Chagas da Silva.
Nos cursos para árbitros, a orientação é tratar lances com violência excessiva da mesma forma que uma agressão física. O cartão vermelho é obrigatório. A consequência do lance, no caso, uma fratura séria do jogador vitimado, deve ser levada em consideração. A dificuldade fica em diferenciar o que é falta sem punição, o que merece cartão amarelo e o que exige expulsão direta.
Diante da dúvida, surgem os exemplos de impunidade. O contraste entre a lesão séria do jogador que sofre a entrada e a punição branda a quem o vitimou gera larga repercussão e danifica a imagem da arbitragem.
Em meio à discussão sobre o papel do árbitro nos lances, ressurge o debate sobre a suposta necessidade de abolir o carrinho, responsável por todos os casos recentes. Há quem defenda que o lance é perigoso mesmo que vise a bola, já que o mínimo erro do defensor resulta no choque físico e, dependendo da força da jogada, na lesão de seu adversário.
— O jogador se pergunta: se querem tanto coibir a violência, por que não proíbem o carrinho? Na maioria dessas jogadas, o jogador não entra para quebrar. Mas acontece a fatalidade do atleta ficar com o pé preso no gramado ou algo assim. Se a regra não permitisse esse tipo de lance, isso não aconteceria — ressalta Cláudio Duarte, jogador do Inter nos anos 70 e ex-técnico da dupla Gre-Nal.
Há quem argumente, porém, que a tentativa de desarme deslizando no gramado pode ser feita sem colocar a integridade física dos jogadores em risco.
— O carrinho por trás precisa ser punido, independentemente de pegar a bola ou não. Mas a gente sempre cita aqueles jogadores clássicos que utilizavam esse recurso muito bem, como o Gamarra ou o Mauro Galvão. Eles faziam o carrinho de lado e visavam somente a bola — lembra Chagas da Silva.
Casos e repercussões
Lincoln e Bottinelli
A fratura do tornozelo direito de Bottinelli deve tirá-lo dos gramados até maio. O argentino teve que passar por cirurgia no local. Após o incidente, Lincoln se desculpou:
— O Bottinelli é um cara que admiro muito e tudo o que quero é que ele fique bom logo. Pedi desculpas pelo ocorrido, mas reitero esse pedido publicamente, pois pequei por excesso de vontade e não por maldade.
Braghieri e Ronaldinho
Ronaldinho não se lesionou após o violentíssimo carrinho de Braghieri no jogo entre Atlético-MG e Arsenal, mas o lance foi tão impressionante que ganhou repercussão internacional. Jornais europeus destacaram o lance, que sequer foi punido com cartão amarelo, enquanto o zagueiro revelou ter conversado com o meia após o jogo:
— Não sou um mau caráter. Depois, conversei com Ronaldinho e pedi desculpas.
Eysseric e Clement
O carrinho do meio-campista Eysseric, do Nice, em Clement, do Saint-Étienne, tirou a vítima do restante da temporada do Campeonato Francês. O autor da entrada também perderá o final da competição, já que, além do cartão vermelho, recebeu punição de 11 partidas, apesar de apelos do próprio Clement para que a sanção fosse branda.
— Clement sabe que Eysseric não queria machucá-lo intencionalmente e espera que ele não seja punido muito severamente — escreveu o empresário do jogador do Saint-Étienne, David Ventinelli, no Twitter.
Mangani e Lucas
O árbitro não marcou falta na disputa de bola entre Mangani, do Nancy, e Lucas, do PSG, em jogo do Campeonato Francês no último sábado. Apesar de ter atingido primeiro a bola, o defensor acabou acertando o tornozelo esquerdo do brasileiro, que caiu no gramado e teve que ser substituído.
— Foi uma dor enorme e fiquei com muito medo naquele momento. Ficou muito inchado, mas hoje (domingo) amanheceu melhor. Fiz radiografia e, graças a Deus, não houve nenhuma fratura — disse o meia.
Danielzinho e Ferrugem
Ferrugem ficará de fora dos campos por até seis meses após a entrada de Danielzinho que causou o rompimento dos ligamentos do tornozelo esquerdo. O atacante do São Caetano mostrou arrependimento pelo lance:
— Queria pedir desculpas ao jogador Ferrugem e sua família pelo lance de ontem (domingo). Não sou marcador, por isso errei no tempo e intensidade do lance. Imagino a dor que ele e a família estão sentindo. Desculpas sinceras e de coração.









