O placar em sets do terceiro e último jogo – 3 a 0 – não traduz corretamente o quão parelho foi o duelo das quartas de final da Superliga masculina de vôlei entre o eliminado Móveis Kappesberg/Canoas e o classificado Sesi, de São Paulo. As parciais de sábado à noite na capital paulista dão uma pista melhor: 25/23, 26/24 e 25/21. Mas é a soma dos pontos das três partidas que define, com precisão, o equilíbrio da chave: 281 para o Sesi, 281 para os gaúchos.
Apesar da desclassificação, o Canoas pode comemorar. Surgido no final de 2011 para disputar a Superliga B, foi campeão da divisão de acesso e, em sua primeira temporada na elite, alcançou as quartas de final, com o sexto melhor desempenho na primeira fase. Mas o principal motivo para celebrar é a continuidade: o técnico Paulão quer a equipe ainda mais forte para o campeonato 2013/2014, como conta na entrevista a seguir.
Zero Hora – Qual foi o peso da derrota em casa, na quinta-feira, para a eliminação em São Paulo?
Paulão – Fizemos uma preparação mais light, sem forçar a motivação, porque isso não faltava. Tínhamos de lidar com a ansiedade, depois de deixar escapar sets bem ganhos em Canoas. Mas, em São Paulo, a tática do Sesi foi muito boa, o Murilo estava inspiradíssimo, e o Serginho, para variar, defendeu tudo. Ele já era meia seleção brasileira, imagina no Sesi. Não conseguimos bloquear como vínhamos fazendo, tivemos quatro contra-ataques para fechar o segundo set, mas botamos para fora. Não era nosso dia. Mas estou extremamente feliz pela minha primeira Superliga. Só tenho a agradecer aos atletas, que não são um time, mas uma equipe, com letras garrafais.
ZH – Após o jogo, você desabafou para o SporTV. Mandou um recado para a Confederação Brasileira de Vôlei, dizendo que vôlei "é feito com o coração, não só com dinheiro".
Paulão – Eles fazem de tudo para os times do Rio e de São Paulo. São rigorosos com a gente, reclamam do material dos patrocinadores no ginásio, mas os ginásios de lá têm uma série de irregularidades. Queremos ser uma NBA, mas não temos know how. A CBV fica ditando regra, mas não vem dar palestra, dar entendimento.
ZH – Você também se queixou da arbitragem, mas fazendo questão de dizer, mais de uma vez, que essa não foi a razão da eliminação.
Paulão – Existe um problema que é mundial: o vôlei precisa adotar a tecnologia, precisa ter um tira-teima, como o tênis. Não pode ficar mais sob a decisão de um juiz. A Superliga tem um nível altíssimo, mas a arbitragem não acompanha. Em Canoas, fomos prejudicados no tie-break e na marcação de um dois-toques do Gustavo.
ZH – Já dá pra pensar na temporada 2013/2014?
Paulão – Dá. Já tivemos conversas preliminares com a prefeitura de Canoas. Os patrocinadores nos disseram: "O projeto de vocês é bonito, e vocês demonstram isso". Acho que não podemos pensar só em dinheiro, tem que ter um compromisso emocional. Na noite de sábado recebi mais de 400 mensagens no Facebook, do tipo: "Estamos reunidos em um churrasquinho para torcer pelo time". Puxa, é emocionante saber que conseguimos cativar um público. Vamos conversar com cada atleta, vamos falar com os parceiros para ver se investem mais.
ZH – Do que o Canoas precisa para ser mais forte?
Paulão – Para ter uma equipe competitiva, para trazer alguns atletas, algo entre R$ 3 milhões e R$ 3,5 milhões para as despesas do ano (na temporada 2012/2013, o Canoas se manteve com cerca de R$ 1,5 milhão). Também seria bom jogar um campeonato de outro Estado, fazer um intercâmbio na América Latina, um trabalho de prospecção de jovens jogadores. Aliás, o Estado exporta demais talentos.
ZH – A retenção de talentos é um dos objetivos do convênio firmado entre La Salle e o Ministério do Esporte?
Paulão – Estamos aguardando a liberação dos recursos, devem pintar até o fim do mês. Serão cinco núcleos de aperfeiçoamento (Canoas, Porto Alegre, Carazinho, Caxias e Esteio) e um núcleo de excelência (em Canoas). Mas o objetivo não é só esse. Eu já trabalho há 12 anos com esporte educativo. Sou apaixonado pela alegria das crianças, pelo brilho nos olhinhos. Os alunos vão aprender as regras, vão ganhar metas, mas o esporte tem que andar junto com valores e diversão. Existe ferramenta mais fabulosa do que o esporte para sociabilizar crianças?









