_ Eu ainda tenho muita velejada dentro de mim.
A frase traduz as ambições de Robert Scheidt para o novo ciclo olímpico. Nada de parar, apesar dos 39 anos. O atleta mais vencedor do Brasil na história dos Jogos está com a motivação intacta, o que não significa que não esteja consciente das limitações que a idade traz.
Scheidt está em Porto Alegre para a disputa do Campeonato Brasileiro de Laser, que começa no próximo domingo no clube Veleiros do Sul.
_ Aqui é muito bom de velejar, fazia algum tempo que eu não vinha. É um dos lugares legais de se competir no Brasil _ comentou Scheidt.
A competição é mais uma do retorno à categoria, após o título do Italiano de Classes Olímpicas e algumas regatas do Campeonato Paulista. A Star, com a qual venceu três Campeonatos Mundiais e o bronze olímpico em Londres, pode sair do programa dos Jogos do Rio/2016, o que motivou a volta à Laser. Em conversa com Zero Hora, o paulista fala sobre a readaptação a um barco fisicamente mais exigente. Analisa, também, a questão da política de investimentos da vela brasileira. Segundo ele, nunca houve tanto incentivo ao alto rendimento, mas ainda falta atenção à formação de novos campeões.
Zero Hora _ Depois de tudo o que você conquistou, como você vê a questão da motivação?
Robert Scheidt _ Eu ainda não estou pronto para me aposentar. É por isso que estou aqui hoje. Ainda tenho lenha para queimar, motivação. Ainda tenho muita velejada dentro de mim para estar na vela olímpica mais alguns anos. O sonho olímpico ainda está dentro de mim.
ZH _ Como é que você vê essa transição para a classe Laser? A troca se deu pela saída da Star do programa olímpico?
Scheidt _ Foi por causa dessa questão. A saída da Star do programa olímpico ainda não está definida, vão acontecer algumas reuniões em 2013 que vão decidir isso. Se não sair, eu devo voltar a competir na Star. Nesse meio tempo, eu decidi retornar à Laser. Sei que fisicamente é duro para mim, porque eu já estou quase com 40 anos. Na Star, a exigência é diferente, mais muscular e menos aeróbica. A Laser também tem uma sobrecarga maior na coluna. Senti essa dificuldade. Comecei gradualmente, mas no meu primeiro campeonato, na Itália, consegui ganhar. Foi aí que vi que era realista continuar. Estou consciente de que não vou conseguir dominar a categoria como antes, mas talvez eu tenha algumas gratas surpresas ao longo do caminho.
ZH _ Você pensa em se aposentar após a próxima Olimpíada?
Scheidt _ Realisticamente, pararia em 2016. Já vou estar com 43 anos. A não ser que a classe Star volte para o programa olímpico. Aí eu posso até avaliar competir em 2020 também. Mas se a classe Star não entrar, ou só entrar em 2016, eu encerro depois do Rio.
ZH _ Recentemente, Torben Grael (duas vezes campeão olímpico na classe Star) fez duras críticas aos investimentos na vela brasileira (afirmou, por exemplo, que não via uma mudança no patamar da vela, mesmo com o Rio como sede da próxima Olimpíada). O que você acha do assunto?
Scheidt _ Para os atletas que estiveram na equipe olímpica, o investimento foi o melhor desde 1996. Agora, a vela não pode viver só da equipe olímpica. Tem que ser pensada a próxima geração e programas de desenvolvimento para os jovens. Há carência nisso tudo.
ZH _ Essa questão não é comum a todo o esporte olímpico no Brasil?
Scheidt _ Sim. Para se ter planejamento esportivo em um país, é preciso ter as duas coisas: o alto rendimento, para conquistar medalhas e formar ídolos, e a preparação da nova geração. Investir no esporte não só pensando em Olimpíada. Pensar em tornar a sociedade brasileira mais saudável. Essa é a visão para investir no esporte, a partir da escola.
ZH _ Como se explica o sucesso da vela brasileira, mesmo com um investimento menor se comparado a outras potências?
Scheidt _ Por mais investimento que você tenha, a medalha nunca é garantida. A Itália e a Alemanha investem muito e não ganharam nenhuma medalha (nos Jogos de Londres). Os Estados Unidos, uma potência na vela, pela primeira vez não ganharam medalha. Você precisa daquela pitada de talento do atleta na semana para chegar ao resultado na Olimpíada.
ZH _ O bronze olímpico em Londres (junto com Bruno Prada) foi comemorado ou lamentado?
Scheidt _ Foi uma mistura de sensações. Quando a gente foi para a Olimpíada, conversou e disse que, se saíssemos com uma medalha, ficaríamos felizes. Mas por termos dominado a classe em 2011, nosso instinto era de vencer. Então, quando você não está no lugar mais alto do pódio, sabendo que tinha o potencial para estar lá, tem uma ponta de frustração. Mas não foi totalmente ruim. A gente não saiu de lá decepcionado. O terceiro lugar foi uma espécie de consolo.
A recheada prateleira de troféus de Scheidt:
- Tem um total de cinco medalhas olímpicas: duas de ouro, duas de prata e uma de bronze. Na Laser, foram dois ouros (1996 e 2004) e uma prata (2000). Na Star, conquistou uma prata (2008) e um bronze (2012).
- O bronze em Londres o transformou no atleta brasileiro mais vencedor na história dos Jogos. Ele nunca saiu de uma edição de Olimpíada sem medalha.
- São 11 títulos mundiais, sendo oito na Laser e três na Star.
- Scheidt tem um total de 163 títulos na carreira, sendo 82 nacionais e 81 internacionais.
O campeonato
- O Campeonato Brasileiro de Laser começa neste domingo e se estende até o dia 29 de janeiro, no clube Veleiros do Sul.
- As regatas têm início programado para as 13h, mas podem ser transferidas por conta do vento.
- Além de Robert Scheidt, outros velejadores de destaque que participam do evento são Bruno Fontes (atual número 3 do mundo), André Streppel e Adriana Kostiw.
- São esperados cerca de 150 atletas na competição.













