Se o tamanho das cicatrizes mostram as dores e os caminhos difíceis de um homem, então o apelido está mais do que justificado. É um fenômeno que ele ande normalmente após tantas invasões nos joelhos. Ronaldo se acomoda ao meu lado no sofá da espaçosa sala de estar da casa de Bruno de Luca, apresentador do canal Multishow, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e o que logo impressiona é o seu joelho esquerdo. Uma imensa cicatriz, que mais parece um zíper prestes a abrir, principia acima da rótula e desce como se fosse uma talho de navalha rumo à canela.
Ronaldo recebeu a equipe da RBS de camiseta, bermuda e chinelos. É um homem entusiasmado com a perda de peso. Com a naturalidade exibida nas funções no comitê de organização da Copa e, claro, revela entusiasmo com o Jogo Contra a Pobreza, na próxima quarta-feira, na Arena, quando os seus amigos enfrentarão os de Zidane numa concentração de celebridades da bola nunca vista antes na Província de São Pedro. O Fenômeno se abriu: falou ainda sobre Felipão, Dunga, Mano Menezes, Ronaldinho, Neymar, o futuro, a Seleção, obras da Copa, concentração e o que mais lhe fosse solicitado. Confira:
ZH _ Você esperava tanta receptividade da torcida para o Jogo Contra a Pobreza em Porto Alegre?
Ronaldo _ Sinceramente, não esperava tanto sucesso. Foi a melhor surpresa que eu poderia ter. Os ingressos estão esgotados há duas semanas. Desde já, o meu agradecimento ao povo gaúcho. A gente espera retribuir com um bom espetáculo. E terá de ser, pois é uma honra jogar na Arena do Grêmio, um espetáculo de estádio padrão Fifa que já visitei duas vezes.
ZH _ E aquela confusão com os operários, que invadiram o campo atrás de você?
Ronaldo - Acho que atrasei a obra (risos).
ZH _ Você e Zidane pretendem repetir o jogo no Brasil, em razão do sucesso de público?
Ronaldo - Vamos ver. Primeiro temos que encerrar este evento. Precisamos arrecadar o dinheiro e cuidar que as entidades recebam tudo certinho.
ZH _ Onde será o próximo jogo?
Ronaldo - Será na Argélia. O Zidane quer fazer um jogo na terra dos pais dele.
ZH _ Você está mais magro.
Ronaldo - BEM mais magro.
ZH _ Ficará mais fácil ganhar do time do Zidane?
Ronaldo - Bá, quero muito ganhar dele. Tem dois anos que apanho dele.
ZH _ Mas nestes jogos não tem aquela combinação tácita de empatar para todos ficarem felizes?
Ronaldo - Você não conhece o Zidane (risos). Vou ganhar dele.
ZH _ Por que você engordou tanto?
Ronaldo - No meu caso, que desde pré-adolescente cumpria regras de toda a sorte, além das concentrações absurdas, foi importante. Eu precisava daquilo quando parei. Precisava não ter horário, comer o que quisesse. Precisava não ter de me preocupar. Aí, engordei. Mas o programa da Globo (Medida Certa) me ajudou neste sentido. Mais magro, minha qualidade de vida cresceu de uma maneira impressionante. Durmo e respiro melhor agora.
ZH _ Chegaremos ao estágio em que poderemos dispensar concentrações, como fazem o Barcelona e outros clubes?
Ronaldo - Deveríamos. O jogador tem que ser cobrado pelo rendimento em campo. Se não tiver a medida do que é bom ou ruim para o seu trabalho, não é bom profissional. É arcaico prender jogadores numa concentração.
ZH _ O torcedor não está pouco entusiasmado com a Copa?
Ronaldo - Não concordo. O brasileiro vive uma Copa como em raros países. Será uma loucura.
ZH _ E a volta de Felipão? Há uma certa euforia pelo fato de ele ter sido campeão em 2002.
Ronaldo - Achar que a chegada do Felipão é garantia de vitória é uma grande ilusão. Apesar de toda a sua capacidade e talento, que eu conheço muito bem, continuamos com os mesmos problemas enfrentados pelo Mano, cuja saída foi uma manobra equivocada. Os jogadores convocados por Felipão serão praticamente os mesmos. Não tem como fazer mágica.
ZH _ Por que o time não deslancha?
Ronaldo - Vivemos uma entressafra de talentos. Temos uma galera jovem e inexperiente, e isso vale também para o Neymar, nosso craque absoluto. Os jogadores que deveriam estar comandando esta equipe não se firmaram em seus clubes: Adriano, Kaká no Real Madrid e Ronaldinho, no Milan e no Flamengo. Esse é o problema. O Felipão tem que poder contar com eles, e mais Robinho e Pato.
ZH _ Você conhece Dunga muito bem. Ele dará certo no Inter?
Ronaldo _ Além da identificação com a torcida do Inter, ele é um cara capaz. Tenho certeza que vai imprimir o seu estilo no clube. O Dunga é uma pessoa divertida, tranquila. É parceiro, amigo dos amigos. Falam da carranca dele, mas é um sujeito divertido. Se derem a ele tempo e planejamento, o Dunga vai arrumar o Inter.
ZH _ As obras da Copa estão adiantadas ou atrasadas?
Ronaldo - Nem uma coisa nem outra. Isso não importa mais. O importante é cumprir as metas. Não temos mais tempo de ficar lamentando e criticando. É fato que faremos a Copa. Na questão das obras de mobilidade urbana e logística, a preocupação da Fifa é com o legado para o povo. Não tem a ver com o evento em si.
ZH _ Você parece se sentir bem neste figurino de dirigente da Copa?
Ronaldo - O futebol me deu tanto, mas tanto, que preciso retribuir. A função política significa aproveitar nossa economia estável para melhorar o nosso futebol, gerando mais renda, trazendo empresas, aumentando receitas dos clubes. De fato, estou gostando dessa condição.
ZH _ O ritmo é mais suave?
Ronaldo - Ao contrário. A correria é imensa. Até maior, só que de outra maneira. Mas a diferença mesmo é o salário. Estou ganho infinitamente menos (risos).
ZH _ Qual o legado que ficará da Copa?
Ronaldo - A Copa mostra um leque gigantesco de receitas, sobretudo com os estádios novos e remodelados. Se bem explorados e administrados levarão os clubes com casas privadas a um salto. Está todo mundo de olho.
ZH _ Trazer um grande jogador para ser o ponta de lança de um projeto é uma saída?
Ronaldo _ O segredo é unir clube e torcedor. O torcedor é tudo na vida de um clube. E o torcedor gosta de bons jogadores, de ídolos. Claro que um projeto não é só isso. O Corinthians apostou em mim, mas antes decidiu que queria crescer em tudo. Se for campeão contra o Chelsea, será o coroamento de um ciclo virtuoso esportivo e de gestão. O Corinthians já é o clube mais poderoso da América do Sul.
ZH _ É difícil ou fácil ser Ronaldo, uma pessoa que nunca terá uma vida normal?
Ronaldo - Olha, eu gosto. Até porque nunca serei outra pessoa mesmo. Só sei ser Ronaldo.













