O que explica a violência29/12/2012 | 16h03

Disputa por verbas e poder geram conflitos entre torcidas organizadas

Especialistas temem que Brasil passe por processo de radicalismo, como na Argentina e Leste Europeu

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Disputa por verbas e poder geram conflitos entre torcidas organizadas Montagem sobre fotos Banco de Dados ZH/
Foto: Montagem sobre fotos Banco de Dados ZH


O que explica a violência
Cenas recentes como as da briga entre integrantes da Geral do Grêmio na inauguração da Arena ou do tumulto entre a Guarda Popular e a Popular, do Inter, há um ano no Beira-Rio, trouxeram à tona o lado violento das torcidas organizadas.

Formadas pela paixão de torcedores por seus times, grandes torcidas envolvem bem mais do que apenas a festa nas arquibancadas: a disputa por verbas, respeito e proteção em partidas fora de casa são ingredientes explosivos para os conflitos.

Tanto quanto rixas pessoais e rivalidades entre os clubes, o dinheiro movimentado quando as organizações tomam corpo é também motor para os tumultos. Ansiosos por apoio em jogos fora de casa, os clubes fornecem ingressos e ônibus para torcedores acompanharem os times _ benefícios que se tornam uma disputada fonte de renda. Em dezembro de 2011, logo após protagonizar um tumulto no jogo de despedida de Fabiano no Beira-Rio, o então líder da Guarda Popular, Hierro, avaliou em R$ 25 mil o montante movimentado pela torcida mensalmente.

_ É até pouco para uma torcida do nosso tamanho _ afirmou.

Nos estádios, isso se traduz em tensão permanente entre rivais e até facções de uma mesma torcida. É quando, como comprovado nas imagens da briga na Arena, o jogo e o time ficam em segundo plano. Para o tenente-coronel Kleber Rodrigues Goulart, comandante do Batalhão de Operações Especiais (BOE), a situação entre as torcidas coloradas ficou mais calma após os tumultos do ano passado devido à redução dos benefícios feita pelo Inter _ caminho anunciado, agora, pela direção gremista. Para o comandante, se os clubes e torcedores não rejeitarem as práticas violentas das organizadas, o Brasil poderá começar a ver situações como as vividas na Argentina e na Europa.

_ Estamos num processo de hooliganismo. Continuando assim, vamos chegar a um ponto como no Leste Europeu, em que as torcidas são tão poderosas que decidem, inclusive, as contratações dos clubes.

Em todo o país, polícias e Ministério Público têm nas organizadas e suas facções uma fonte permanente de dores de cabeça. Apenas em 2012, o MP pediu a suspensão ou extinção de torcidas de Corinthians, Palmeiras e Guarani (São Paulo), Flamengo e Vasco (Rio). Integrante da Comissão Nacional de Prevenção e Combate à Violência em Estádios, o promotor do MP do Rio Pedro Rubim diz que o ciclo de violência se reproduz com rixas que não cicatrizam entre as torcidas. Neste ano, por exemplo, após a morte de um flamenguista por torcedores do Vasco, integrantes da Torcida Jovem do Flamengo teriam planejado o revide, que resultou na morte de um vascaíno. E a violência acaba aumentando o cacife das torcidas junto aos clubes, diz o promotor.

_ A ideia de que são violentos e irracionais faz com que o dirigente dê apoio, ingressos, patrocínio _ explica Rubim.

Confira os fatores que fizeram, das brigas de torcidas, bem mais do que simples arruaça juvenil:

O dinheiro
Organizar viagens para acompanhar o time do coração é uma das principais fontes de renda das torcidas organizadas. Para garantir o apoio em jogos difíceis, fora de casa, clubes fretam ônibus para levar os torcedores dispostos a encarar a estrada e dão ingressos de cortesia para os chefes de torcida. Estes, por sua vez, têm liberdade para distribui-los entre os integrantes ou simplesmente vender tíquetes e lugares nos ônibus _ embolsando os lucros ou distribuindo entre os líderes.

À medida em que as barras crescem em número de integrantes, a capacidade financeira aumenta. As dezenas que compram artigos como camisas, mantas, bandeiras e faixas se tornam centenas, e depois milhares _ e o faturamento cresce em paralelo.

A proteção
Viajar com o time para outros Estados ou países não é aventura tranquila. Em jogos fora de casa, muitas vezes a chegada ao estádio é marcada por conflitos com torcedores adversários _ às vezes, com emboscadas em postos de gasolina ou na estrada. Assim, ter "barras bravas" entre os integrantes das organizadas, capazes de enfrentar rivais nas batalhas fora de casa _ ou contra torcedores do tradicional rival da cidade _, costuma garantir a ascensão de alguns integrantes ao topo das organizações.

O status
Ser chefe de uma facção da torcida é também um símbolo de status. Ter influência sobre um grupo dentro da torcida conta pontos na hora da divisão dos benefícios dados pelo clube, garante a presença em partidas importantes e assegura vantagens financeiras. Sem falar na fama pura e simples, inclusive entre meros simpatizantes _ não por acaso, a Geral do Grêmio tem integrantes no Conselho Deliberativo.

O fanatismo
Seja a minoria violenta ou a maioria barulhenta, todos os integrantes de torcidas organizadas têm, em comum, o amor irrefreável pelo clube. Algo que, muitas vezes, provoca o ciclo de violência apontado pelo promotor Pedro Rubim: agredir um torcedor é insulto imperdoável para muitos. Não por acaso, o principal troféu que os brigões de uma torcida buscam ao enfrentar um grupo rival é roubar suas bandeiras e faixas _ que seriam a prova da superioridade da torcida e de seu time.

O medo
Comportar-se violentamente sem a devida repressão da Justiça rende dividendos aos arruaceiros que integram as torcidas _ e ajuda a consolidar seu poder junto aos times, diz o promotor Pedro Rubim. Ele conta que as brigas ajudam a criar, para a organizada, uma aura de que "são bárbaros e estão dispostos a qualquer coisa" _ e, assim, os torcedores ganham privilégios dos clubes e, em alguns casos, até dinheiro de jogadores.

_ Paradoxalmente, quanto mais violenta a torcida, mais facilidade têm pra se beneficiar _ afirma o promotor carioca.

ALIANÇAS NACIONAIS
Torcidas se relacionam fora do Estado, mas mantêm a rivalidade Gre-Nal

Na hora de formar alianças com organizadas de outros grandes times brasileiros, as torcidas de Grêmio e Inter se mantêm em polos opostos.

Duas alianças nacionais conectam as principais organizadas do Brasil: a União do Punho Cruzado _ integrada pela Camisa 12 colorada _ e a União Dedo Pro Alto, que conta com Geral e Torcida Jovem, do Grêmio. As duas têm como símbolos gestos com os braços que remetem à violência.

Ter uma torcida coirmã significa oferecer todo suporte quando visitada pela parceira, seja como adversária ou em partidas contra o rival da cidade. Integrantes buscam os colegas no aeroporto ou na rodoviária e os hospedam na própria casa. Churrascos para comemorar a presença da organizada visitante são comuns. No dia do jogo, mesmo que contra o próprio time, há ajuda mútua para estender as faixas nas arquibancadas. Se a partida for na casa do rival, os organizados locais escoltam e protegem os forasteiros no estádio. Quando comemoram aniversário, as torcidas enviam passagens para que a diretoria da coirmã participe da festa. Até bandeiras são trocadas para tremularem em outros estados. É uma forma de expandir a marca nacionalmente e fortalecer o grupo ao qual pertencem.

Essas relações preocupam as autoridades. Pedro Rubim, promotor do Ministério Público do Rio, diz que as alianças podem complicar jogos tranquilos entre times de Estados diferentes _ basta que rivais locais se misturem aos forasteiros.

_ Se flamenguistas se misturam a torcedores visitantes em uma partida contra o Vasco, a situação fica muito complicada _ explica.

No Rio Grande do Sul, a ordem na Brigada Militar é retirar das torcidas de outros Estados qualquer torcedor identificado com o rival local _ seja um gremista no Beira-Rio ou um colorado em jogos do Grêmio.

As parcerias não são imutáveis. A Máfia Azul, principal organizada do Cruzeiro, era uma "Punho Cruzado" até o ano de 2000, mas uma briga com a Independente são-paulina comprometeu a união. Um conflito entre a Jovem Fla e a Independente, no ano passado, também estremeceu a relação entre as duas. A Camisa 12, no entanto, segue recebendo bem a Máfia Azul em Porto Alegre. Mais ampla, a União Dedo Pro Alto congrega torcidas em boa parte do Brasil, que combatem as do Punho Cruzado _ mas nem sempre têm boa relação entre si.

Algumas organizadas se mantém independentes dessas "ligas" e escolhem pontualmente suas amizades. É o caso de Guarda Popular (Inter), Fanáticos (Atlético-PR) e Gaviões da Fiel (Corinthians).

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