Em Curitiba, capital mais fria do Brasil, longe do frio que já matou mais de 170 pessoas na Ucrânia e na Rússia, o meia-atacante Giuliano, destaque na conquista da Libertadores de 2010, pelo Inter, curte a família e as festas de fim de ano até o dia 8 de janeiro, quando retornará a Dnipropetrovsk, cidade de pouco mais de 1 milhão de habitantes, no leste ucraniano.
É nítido: na cabeça de Giuliano Victor de Paula, 22 anos, não há outra pauta que não seja a Copa de 2014. Convocado oito vezes por Mano Menezes, se destacou na sub-20 - em 14 jogos, fez três gols e ajudou o Brasil nos títulos Sul-Americano e Mundial da categoria, em 2012. Para ser chamado por Felipão, sabe que precisa seguir com as boas atuações na Liga Ucraniana e na Liga Europa. Diz que tem as portas abertas para voltar ao Brasil. Não descarta um futuro retorno e admite que esteve próximo do Grêmio no início deste ano. Sem acerto financeiro, a negociação emperrou.
_ Um dos objetivos que tenho é servir a Seleção. Acredito ter condições. O Mano me chamou por mérito, porque eu estava jogando bem. Estando na Ucrânia, tem um peso maior para mim. Com o Felipão, tenho chance a partir do momento em que estiver jogando bem _ opina.
Se depender da quantidade de gols que tem marcado nesta temporada 2012/2013, deverá ser testado por Scolari. A média supera os 16 em 59 jogos pelo Inter, há dois anos. No campeonato nacional _ o Dnipro está em segundo, 13 pontos atrás do Shakhtar Donetsk _, são sete e quatro assistências em 18 partidas, executados com a perna direita e com a esquerda. De cabeça, até agora, nenhum.
O motivo para o número de gols é a facilidade para chegar à frente. Primeiro, como homem-surpresa, dada a função que desempenhou quando chegou à Ucrânia. Giuliano era segundo volante em um esquema 4-2-3-1. Atualmente, no mesmo esquema, joga centralizado na linha de três, com a liberdade de um segundo atacante. Perto da área, marca.
O futebol na Ucrânia
Longe do glamour das ligas da Inglaterra, Espanha e Alemanha, o futebol ucraniano reserva espaço para um jogo duro e veloz, muito mais tático do que técnico.
_ Há menos faltas. A velocidade muda em comparação ao futebol brasileiro. É um jogo muito rápido _ conta Giuliano.
A preponderância da força no futebol europeu não é novidade. O problema é que, segundo Giuliano, a falta de qualidade da arbitragem ocasiona em infrações não assinaladas.
_ No Brasil, se o cara protege e perde a bola, pode ser falta. Lá, deixam seguir. É muito mais forte. Tem chute na canela e em outras partes da perna que não são falta. Ou seja, tem vezes que é falta e (os árbitros) não marcam. Tive certa dificuldade no começo. Depois que acostuma, joga-se com mais força _ diz.
Outra diferença cultural em relação às grandes ligas é a presença de público nos estádios. Inaugurado há 10 anos, o Dnipro Arena tem capacidade para 40 mil pessoas. Nem sempre lota. Conforme o meia, os ucranianos não têm a cultura de comprar carnês para a temporada inteira, como acontece no Reino Unido.
Violência e bebida são uma constante principalmente nos clássicos contra o Metalist, time do amigo e ex-companheiro de Inter Taison, com quem Giuliano conversa apenas por telefone devido à distância de 218 quilômetros (três horas de carro) e às raras folgas para se deslocar à cidade de Kharkiv.
_ No estádio, tudo bem. Mas depois, na rua, normalmente, tem briga.
A vida em Dnipropetrovsk
Na quarta maior cidade da Ucrânia, fundada em 1776, Giuliano encara uma rotina de treinos diários, que começam às 11h, além de trabalhos físicos personalizados, à noite, em casa. A programação envolve quase que totalmente o lar e o clube, e é intercalada por visitas a museus e alguns restaurantes. Admite, no entanto, que o estômago ainda não se acostumou com os temperos de uma culinária baseada em batata.
_ Tem uma comida característica que é tipo uma maionese (creme com batatas). Mas costumo levar daqui. Meu estômago não se acostumou _ fala.
Se o inverno rigoroso é um problema _ escurece às 15h e, assim, as opções de entretenimento diminuem _ , o idioma russo já não é mais um obstáculo. Depois de quase dois anos, Giuliano consegue se comunicar. Sem aulas, aprendeu ouvindo.
_ No começo, tinha tradutor, mas o fato da comissão técnica ser espanhola facilitou muito _ conta o jogador, que, nas horas vagas, gosta de passear pelos museus que lembram o sofrimento da região em guerras passadas (especialmente, a Segunda, com a invasão nazista sendo precedida por rebeliões bolcheviques e germano-austro-húngaras no período da Primeira Guerra Mundial).
De Dnipropetrovsk, Giuliano imagina como será a Copa, daqui a um ano e meio. Planeja jogar nos estádios que, de longe, acompanha a evolução. Do pó ao concreto, do concreto ao gramado, do gramado à bola.









