The New York Times03/11/2012 | 03h58

Árbitro de boxe se aposenta após uma vida dedicada aos ringues

Joe Cortez encerrou sua carreira no dia 15 de setembro, depois de 35 anos atuando como juiz

Enviar para um amigo
Árbitro de boxe se aposenta após uma vida dedicada aos ringues Doug Mills/NYTNS
Na foto, George W. Bush cumprimenta árbitro de boxe Joe Cortez Foto: Doug Mills / NYTNS
Timothy Pratt

   

Las Vegas – Quando o árbitro Joe Cortez levantou a mão direita de Saul Alvarez como o vencedor da luta contra Josesito Lopez, valendo o título júnior dos médios, Cortez ficou surpreso ao ter sua outra mão levantada por Oscar De La Hoya, ex-campeão e hoje promotor de lutas. Em seguida, Alvarez colocou o cinturão de campeão na cintura do árbitro. Frente à lotação máxima do MGM Grand Garden Arena, De La Hoya inclinou-se para Cortez e disse: "Você é o campeão".

— Foi muito emocionante — declarou Cortez, de 69 anos. — Nunca vou me esquecer daquilo. Quando você vê um lutador desse porte dizer isso a um juiz?

Com aquela luta, em 15 de setembro, Cortez se aposentou após 35 anos como árbitro de boxe.

A carreira de Cortez foi construída com momentos únicos. No ano passado, ele se tornou apenas o sétimo juiz indicado para o Hall da Fama Internacional do Boxe. Ele arbitrou quase 200 disputas de cinturão, um recorde, segundo o historiador do boxe Herb Goldman. Em 1993, Cortez foi juiz diante do maior público de uma luta de boxe ao ar livre na história, quando 136.274 pessoas viram o invicto Julio Cesar Chavez vencer Greg Haugen no Estádio Azteca, na Cidade do México. Ele também foi o terceiro homem no ringue em 1994, quando George Foreman se tornou o mais velho campeão dos pesos pesados.

Numa tarde recente, Cortez compartilhou suas lembranças sobre as cerca de 3 mil lutas em que trabalhou. Atendendo à porta vestindo jeans e uma camisa de seda, ele começou com um tour por sua casa em Las Vegas Valley. O complexo murado inclui um ringue de boxe, uma "parede da fama" e um cinema. O ringue é cercado por caricaturas em tamanho real de lutadores e algumas fotos ampliadas da curta carreira de Cortez como lutador. Ele e seu irmão Mike conquistaram títulos do Golden Gloves, e Joe Cortez teve um histórico profissional de 18 vitórias e uma derrota. A parede de uma sala é coberta por vitrines exibindo as luvas que usou em 1960, um sino assinado por Muhammad Ali, e fotos de Cortez com os presidentes Jimmy Carter, Bill Clinton e George W. Bush. Numa pilha de fotografias ainda sem moldura, uma exibe Mike Tyson envolvendo Cortez num abraço. A inscrição, feita por Tyson, diz: "Eu sempre vou te amar".

Enquanto Cortez falava, numa sala dominada por uma mesa de sinuca, as ruas do Spanish Harlem, onde ele nasceu em 1943, pareciam estar logo atrás da porta.

— Havia um bom restaurante na rua 106 — lembrou ele, apertando os olhos como se estivesse vendo o local. — Eles tinham gangues: os Dragons, os Viceroys, os Enchanters, os Red Wings – esses eram os italianos, da rua 111. Tínhamos de caminhar pelo território deles para chegar ao ginásio Boys Club. Eles costumavam olhar para mim e meu irmão; nós tínhamos luvas penduradas do lado de fora das mochilas, então eles não mexiam com a gente.

Aos 12 anos, Cortez conheceu Gaspar Ortega, na época um boxeador profissional do México. Ortega, conhecido como El Indio, era apenas oito anos mais velho, mas logo se tornou uma figura paterna para Cortez, que foi criado com seus três irmãos por uma mãe solteira.

— Ele era decente, um bom exemplo — afirmou Cortez. Antes que ele e seu irmão conhecessem Ortega, —ficávamos pulando entre vielas, de um telhado para outro.

Ortega, hoje com 76 anos, lembra-se de Cortez como "sempre correndo atrás de mim, onde quer que eu fosse".

Embora Cortez fosse de ascendência porto-riquenha, ele se tornou o intérprete de Ortega. Depois das vitórias, ele acompanhava Ortega e seu empresário até seu quarto de hotel. Ele os observava dividindo o dinheiro do prêmio; o empresário jogava US$ 5 para Cortez. Essa foi sua introdução ao boxe como carreira. Embora Cortez tenha vencido seis torneios do Golden Gloves, e realizado rapidamente 19 lutas profissionais, ele também se casou cedo.

Aos 23 anos, ele começou a pensar em trabalhar para sustentar sua família. Ele conseguiu um emprego como exterminador de pragas, e logo abriu uma empresa de exterminação. Certo dia um cliente se ofereceu para comprar a empresa, e pagou US$ 6 mil em dinheiro.

— Eu cheguei em casa, abri a porta; minha mulher, Sylvia, estava no chão com duas de minhas filhas, Cindy e Sandy, que eram bebês — contou Cortez. — Joguei o pacote pardo de dinheiro no ar e disse: 'Vamos para Porto Rico'.

Cortez e sua família moraram lá durante oito anos. Ele trabalhou no hotel El Conquistador, subindo rapidamente de recepcionista a assistente de gerência. No hotel, Pat Mascia, que havia arbitrado algumas das lutas de Cortez no Golden Gloves, o reconheceu. Mascia incentivou Cortez a se tornar juiz. Depois que Cortez foi promovido a gerente executivo e transferido para Nova York, ele ligou para Mascia em 1976.

Cortez foi designado para arbitrar algumas lutas do Golden Gloves no Brooklyn. Apesar de uma nevasca, os lutadores e alguns juízes laterais conseguiram chegar, mas Cortez era o único árbitro. Ele trabalhou em todas as 27 lutas de dois rounds naquela noite. Pediram que ele voltasse para as quartas de final, e depois nas semifinais. Então ele trabalhou em duas lutas valendo cinturão no Madison Square Garden.

Pouco tempo depois, segundo Cortez, Frank Morris, o subcomissário de boxe do estado, lhe telefonou. Cortez ainda se lembra da conversa.

— Gostaríamos que você pensasse em se profissionalizar — disse Morris.

— Só estou arbitrando há seis meses — afirmou Cortez.

Morris respondeu: — Achamos que você tem as habilidades necessárias.

Cortez também se "sentia confortável no ringue", disse ele.

— Eu podia trabalhar a noite toda — acrescentou ele. — Era como se eu estivesse dançando, como se aquilo fosse o meu domínio. Me lembro de ter dito à minha esposa: 'Eu realmente amo fazer isso'.

A primeira luta de que ele se lembra com detalhes teve um final terrível.

— Em 1994, Wangila Napunyi, um vencedor da medalha de ouro olímpica do Quênia, estava lutando no Aladdin — disse Cortez. — Ele havia levado golpes duros na cabeça. No décimo round, ele foi acertado com um uppercut. Era um caso de concussão. O outro lutador o agarrava, o empurrava. Ele caiu, mas então se levantou de novo. Ele foi acertado com uma combinação. Eu pulei no meio, interrompi a luta. Os fãs me vaiavam. Mas a luta estava terminada.

— Alguns minutos depois, ele começou a sofrer ataques. Eles o levaram correndo para o hospital. Eu fui para lá. O médico disse: 'A coisa não está boa'.— Cortez fez uma pausa, com lágrimas nos olhos. "Dois dias depois, ele estava morto." Napunyi tinha um coágulo no cérebro.

— Aquele foi um dos dias mais tristes da minha vida — afirmou Cortez.

A experiência deixou-o mais determinado a ensinar segurança a novos árbitros, declarou ele. Hoje Cortez participa do conselho consultivo da Clínica Cleveland e Centro de Saúde Cerebral Lou Ruvo, em Las Vegas, que realiza pesquisas sobre os efeitos de golpes repetidos sobre o cérebro. Ele também tem ideias para facilitar o trabalho dos árbitros, incluindo colocá-los sentados em cadeiras altas como as usadas em torneios de tênis.

Questionado sobre quais outras lutas se destacaram para ele, Cortez citou duas. Primeiro, a tentativa de George Foreman, em 1994, de recuperar o cinturão dos pesos pesados. Seu oponente, Michael Moorer, vinha "lhe dando uma boa surra nos primeiros nove rounds", afirmou Cortez.

— Outros lutadores em seu lugar teriam abandonado a luta — acrescentou ele. — Mas Foreman não era de desistir.

No décimo round, Foreman derrubou Moorer na lona. — Quando Moorer caiu, e eu comecei a contagem, era como um sonho — disse Cortez. — Comecei a contar, 'Sete!' – e ele não levantava. Então 'Nove!' – a mesma coisa. Quando cheguei nos 10, ele tentou se levantar mas não conseguiu. Eu sacudi as mãos. Olhei para trás. Foreman caiu de joelhos, olhou para o céu e agradeceu ao Senhor. Ele inspirou muitos lutadores naquele dia.

E também inspirou Cortez, que vê a si mesmo em Foreman.

— Como lutador, eu era do mesmo jeito — garantiu Cortez. — Gaspar me ensinou aquilo. Conforme você fica mais velho, você não pode parar. Você continua indo em frente. — Cinco anos antes, Cortez havia arbitrado a luta entre Roberto Duran e Iran Barkley.

— Duran tinha 37 anos — disse Cortez. — Havia um metro de neve em Atlantic City. Saí de minha casa em Yonkers de manhã bem cedo para chegar a tempo para a luta. Duran estava enfrentando um duríssimo campeão dos pesos médios. No sexto ou sétimo round, um gancho de esquerda de Barkley fez Duran girar. Ele não caiu. Eu disse para mim mesmo: 'Ele não caiu. Ele quer desesperadamente esse cinturão'. Ele voltou como um leão. Ele atingiu Barkley com uma linda combinação de quatro socos. O último deixou Barkley de costas no chão, no 11º round. Duran venceu por pontos, numa decisão dividida.

— Aquela foi uma luta eletrizante — concluiu ele. — Eu pensei: isso é algo que quero fazer pelo resto da minha vida. Isso é o que eu nasci para fazer.

Comentar esta matéria Comentários (0)

Esta matéria ainda não possui comentários

Siga @zh_esportes no Twitter

clicRBS
Nova busca - outros