(Bruno Alencastro/Agencia RBS)

Mão firme

Como a presidente Dilma entrou em campo para a realização das obras do Beira-Rio

Leandro Behs e Leonardo Oliveira | leandro.behs@zerohora.com.br; leonardo.oliveira@diariogaucho.com.br

Quando a presidente Dilma Rousseff cortar a fita vermelha e reinaugurar oficialmente o Beira-Rio, os colorados certamente não se lembrarão que por 463 dias o clube viveu à beira de uma guerra civil, entre a quase falência, com um estádio às ruínas, e a glória, com uma casa reformada e pronta para receber a Copa do Mundo.

Se fosse um jogo, poderia se dizer que Dilma foi o centroavante. Foi ela a ponte que descortinou ao Inter e ao Beira-Rio o futuro alvissareiro que faz a torcida flanar. Isso depois de dias de angústia e aflição que fizeram Giovanni Luigi, em ato desesperado, recorrer à autoridade máxima do país. Veio da voz forte do Planalto a cobrança para a Andrade Gutierrez assinar o contrato de reforma do estádio. Dilma é a fada madrinha que transformou o Beira-Rio de Coliseu a um dos mais bonitos do país.

A epopeia da reforma do estádio tem início lá atrás, em 2007. Vitorio Piffero, presidente à época, alistou o clube como candidato a receber a Copa de 2014. A conquista do Mundial de Clubes em Yokohama, meses antes, havia colocado o Inter no cenário universal. Era hora de consolidar diante do planeta a imagem de clube de ponta.

Ainda em 2007, a Fifa designou o Brasil como sede da Copa de 2014. Dois anos depois, confirmou Porto Alegre como uma das subsedes. Era a senha para desengavetar o projeto de modernização do estádio. A obra começou tímida. Com recursos próprios, o clube iniciou a construção das sapatas da futura cobertura. O plano era deixar o Beira-Rio estalando de novo através do autofinanciamento. Uma conta tão simples como um placar de 0 a 0: o clube alugaria, por uma década, 121 camarotes a R$ 1 milhão. Esse dinheiro, além dos R$ 28 milhões da venda dos Eucaliptos, bancaria a reforma sem afetar o departamento de futebol.

Parecia simples, mas não era. Na apresentação do projeto no Conselho, em 2009, dominado pela situação, ninguém se contrapôs. Mas, em conversas reservadas, alguns conselheiros se aproximaram de Luigi e o alertaram: nem o melhor dos vendedores comercializaria, no mercado gaúcho, 121 suítes a R$ 1 milhão cada.

A gestão Piffero havia rachado com a vitória de Luigi, apoiado por Fernando Carvalho, sobre Pedro Affatato. A unidade não existia mais. Luigi seria empossado na virada de 2010. Piffero, em seus últimos dias no comando, estava convicto de que o novo Beira-Rio seria bancado pelo próprio clube. Do outro lado, o presidente recém-eleito contava com assessores que anteviam uma tragédia financeira caso o clube decidisse assumir a reforma do estádio. Entre eles, o futuro 1º vice-presidente Luís Anápio Gomes - que se tornou uma espécie de Grilo Falante, quase a consciência de Luigi para esse tema.

(Joel Rodrigues, Estadão Conteúdo)

É o meu clube, é o meu Estado. Não há hipótese nenhuma da empresa sair que nem cachorro e deixar todo mundo de pincel na mão.

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Reportagem: Leandro Behs e Leonardo Oliveira | Edição Digital: Débora Pradella

Em uma praia privada do Rotana Beach Hotel, um dos luxuosos cinco estrelas de Abu Dhabi, Piffero, Luigi e Anápio sentaram ao redor de uma mesa do bar à beira da praia. O encontro mudaria o rumo da reforma do Beira-Rio. Era sexta-feira, quatro dias antes do Mazembaço.

A reunião foi tensa. Piffero defendia o início da demolição da arquibancada inferior, marcada para dali a três dias. Alegava receio de ser descredenciado pela Fifa em função de um possível atraso. Anápio sustentava que seria inócuo quebrar o estádio naquele momento se a ideia era entregar a obra para uma parceira. A temperatura subia nos padrões do Golfo quando Piffero se voltou para Luigi e o emparedou:

- O Giovanni é o presidente, ele decide.

Luigi e Anápio pediram alguns minutos para deliberar a sós. O presidente argumentou com seu vice que seria prejudicial começar a gestão com conflito. Os dois, então, regressam ao bar. Luigi se dirige a Piffero e dá a ordem:

- Pode começar a demolição.

As máquinas, que deveriam operar na segunda-feira, entraram em ação na manhã de sábado. Pelo YouTube, dirigentes do Inter viram as imagens em Abu Dhabi. Imensos braços negros das escavadeiras coreanas Hyundai cavoucavam a social, iniciando o processo de coliseulização do Beira-Rio - cenário tétrico, que perdurou por mais de um ano.

(Valdir Friolin)
(Valdir Friolin/Agencia RBS)

Luigi tomou posse no dia 3 de janeiro de 2011 no pior cenário possível em campo. Havia as feridas do Mazembe, a renovação de Celso Roth, contra o desejo da torcida e do novo vice de futebol, Roberto Siegmann. Fora dele, parte das sociais havia se esfarelado e consumido R$ 14 milhões dos cofres.

Um estudo feito nos gabinetes da direção apontava para a quebra do clube caso insistisse na ideia de tocar a obra com recursos próprios. A proposta de parceria com uma construtora foi levada à apreciação do Conselho Deliberativo. Acabou aprovada por unanimidade. Mas sem os votos de Piffero e seu pelotão, que bateram em retirada antes da votação.

O ano de 2011 colocava a terceira marcha em Março quando o Inter passou para a etapa de definição da parceira. Colorados do ramo da construção civil tiveram acesso à proposta da Andrade Gutierrez e foram unânimes: jamais topariam oferecer ao clube um negócio naqueles moldes. Sugeriam fechar de imediato.

Mesmo assim, o Inter abriu as portas para outras ofertas. Além da AG, a Construcap apresentou-se para a reforma. Às portas do inverno, o Conselho do Inter escolheu a mineira Andrade Gutierrez como parceira. Uma gigante do ramo, cujo faturamento bruto em 2012 seria de R$ 16,8 bilhões. Era 31 de maio e começavam ali os 292 dias mais angustiantes da vida de Luigi, Anápio e do Inter à espera da assinatura do contrato com a AG.

Em ritual que se repetiu em quase todas as semanas, Anápio embarcava para São Paulo e rumava para a nobre região dos Jardins. No luxuoso prédio da Tozzini Freire, banca de advogados contratada pelo Inter, havia reuniões com o corpo jurídico da AG. Todas com o mesmo roteiro. Novos obstáculos apareciam, advogados conversavam ao pé do ouvido, pastas se fechavam e o contrato seguia em confecção.

Em outubro, com a pressão sobre a direção em níveis elevadíssimos, Porto Alegre acabou sacada da rota da Copa das Confederações. As obras estavam paradas havia quatro meses e não haveria tempo de deixar o estádio pronto até maio de 2013. Em Porto Alegre, já corria a bandeira de que a Copa deveria tomar o caminho do Humaitá, onde a Arena crescia em ritmo acelerado. Como que para acalmar o ambiente, a AG enviou ao Inter a minuta do contrato. O esboço do documento chegava revisado pelos advogados da empreiteira e do clube. O momento da assinatura parecia próximo. Parecia.

Apesar da intensidade da trocas de documentos entre Inter e AG, a formalização da parceria ainda estava longe. Tanto que o clube fugia de qualquer previsão de data. O que era prudente. Um informante muito ligado à cúpula da AG trouxe para Luigi e Anápio uma notícia aterradora:

- O que se falou numa reunião da construtora é que a obra de vocês não sairá.
A AG havia refeito cálculos e concluído que tirar lucro de estádio, área que desconhecia, representava riscos altos. A obra a preço fechado (na qual o clube nada mais paga além do que foi contratado) na casa dos R$ 330 milhões, com financiamento bancário, já não mais atraía a poderosa construtora - hoje, em números extraoficiais, a obra já consumiu mais de R$ 370 milhões.

Luigi já varava noites insone. Acordava, revirava a cabeça no travesseiro em busca de saída e perdia o sono. Olheiras e um problema nas costas eram o resultado visível da tensão. A pessoas próximas, chegou a questionar se o melhor não seria reconhecer a derrota e abandonar a Copa - que aportaria no colo do Grêmio e da Arena e levaria seus benefícios urbanos para o Humaitá. Para a torcida, assumiria o discurso do "Beira-Rio para os colorados" e buscaria a reforma mais modesta e com recursos próprios. Foi demovido com firmeza por seus escudeiros. Anápio, que a essa altura acumulava a 1ª vice-presidência, a presidência da Comissão de Obras e o cargo de vice de futebol, foi veemente:

- Giovanni, agora é tudo ou nada. Essa parceria precisa sair de qualquer jeito.
Mas as informações vindas de São Paulo só aumentavam o pânico. Todas davam conta de que a parceria estava por um fio. Em visita a Porto Alegre, o recém-empossado ministro do Esporte Aldo Rebelo trouxe apoio de Brasília e confirmou o Beira-Rio como o estádio da Copa. Mas a onda para instalar o Mundial na Arena era um fantasma à espreita.

Anápio abriu sua agenda e acionou um amigo de longa data, assessor de Lula no Planalto. Anos antes, através dele, havia sido apresentado ao então presidente, que se mostrou simpático ao Inter e lembrou dos uniformes enviados por Fernando Carvalho para a Granja do Torto. Um encontro foi marcado com Lula em São Paulo. Anápio embarcou esperançoso. Mas tudo ruiu ao descer em Congonhas. O ex-presidente foi chamado para palestra na Europa e viajou de última hora.

- Precisaremos ver outra data - ouviu o dirigente.

Ainda se refazendo da decepção, Anápio ouviu sugestão do seu interlocutor:

- Por que vocês não tentam falar com a Dilma?

O dirigente agradeceu o conselho, mas não viu naquele instante meios de colocá-lo na linha com a presidente. Parecia algo distante. Além disso, havia questões de campo a serem cumpridas. Em 4 de dezembro, depois de reagir no Brasileirão sob a batuta de Dorival Júnior, o Inter venceu o Grêmio por 1 a 0, gol de D'Alessandro. A vitória no Beira-Rio semidemolido colocou o time na Libertadores de 2012. No dia 15, já com as luzes coruscantes de Natal, Conselho aprovou a minuta com a AG. Foram 229 votos a favor, 47 contra, sete abstenções e quatro horas de reunião.

Se o Inter comemorava a aprovação, na AG tudo era silêncio. Não havia data para a assinatura, muito menos previsão de retomada das obras. A construtora alegava buscar parceiros estratégicos para a reforma e mostrava pouco interesse em assumir sozinha o financiamento de R$ 205 milhões da obra.

Foi quando Anápio lembrou-se da sugestão do amigo assessor de Lula e colocou para Luigi a ideia de recorrer a Dilma. Afinal, mesmo mineira, era gaúcha por adoção e simpática ao Inter.

Angustiado em sua casa, na Assunção, Luigi procurava uma saída para o brete em que havia se metido. Foi quando recordou que, vez ou outra durante suas caminhadas, encontrava Carlos Araújo, ex-marido da presidente. Entrou no carro e percorreu o quilômetro e pouco que o separava do endereço de Araújo. Minutos depois, bateu à porta da casa ampla, com vista para o Guaíba. O ex-deputado o recebeu ainda no portão. Luigi, com seu jeito polido, se apresentou. Mas foi interrompido pelo dono da casa:

- Eu sei quem o senhor é.

Araújo conduziu o presidente do Inter para dentro de casa. Ouviu o motivo da inusitada visita e o pedido: havia como a presidente intervir ou ajudar na questão?

O ex-deputado telefonou ali mesmo para Dilma. Diante de Luigi, descreveu o visitante inesperado e seu temor em perder a Copa pela demora da construtora. Ao desligar o telefone, Araújo relatou a um ansioso Luigi o que ouviu da ex-mulher:

- É o meu clube, é a minha cidade. Pode dizer ao presidente que o Beira-Rio será reformado e que a Copa será lá.

Luigi voltou para casa mais aliviado. Mas manteve a sua natural desconfiança. Justificada. A AG ainda levaria três meses para assinar o contrato. No dia 29 de fevereiro, Dilma emitiu o primeiro sinal. Ao tratar dos atrasos da Copa em entrevista, exigiu em público que a construtora cumprisse a promessa de assinar com o Inter. Em Porto Alegre, o Banrisul rejeitava pela terceira vez emprestar dinheiro a AG. Alegava que as garantias oferecidas eram insuficientes. À época, Dilma voltou a cobrar a empreiteira. Conforme apurado por ZH, a presidente advertiu uma última e definitiva vez o alto comando da Andrade Gutierrez:

- É o meu clube, é o meu Estado. Não há hipótese nenhuma da empresa sair que nem cachorro e deixar todo mundo de pincel na mão.

(Adriana Franciosi)

No dia 29 de fevereiro, Andrade Gutierrez e Banrisul fizeram uma reunião de negociação

(Adriana Franciosi/Agencia RBS)

Presidente do Banrisul, Túlio Zanin, deu coletiva sobre as negociações com a Andrade Gutierrez

(Mateus Bruxel)

O epílogo do thriller colorado se dá a partir dos primeiros dias de março, quando a AG define junto ao BNDES o financiamento para a reforma. Na segunda semana daquele mês, em viagem de negócios na chinesa Shanghai, Anápio ouve o celular.
Olha no visor o código 011, de ligação internacional, e sente o mesmo frio na espinha de chamadas anteriores. Pensa, rodeado de chineses: "Lá vem bronca do Beira-Rio". Só que do outro lado da linha chegava a mensagem que esperava havia um ano. Soa como sinfonia:

- Anápio, é o Ari (Ari Panayotis Santas, superintendente da AG). Estou indo para Porto Alegre com todos os nossos advogados. Falei para você que reformaríamos o estádio de vocês. O Inter terá o estádio mais bonito do Brasil.

Mal Ari se despede, Anápio telefona para dar a boa nova a Luigi:

- Giovanni, conseguimos: acabou. Eles vão assinar.

Luigi, ainda desconfiado, conteve o entusiasmo. Só acreditava depois de ver as assinaturas no papel. No dia 16 de março, uma sexta-feira, às 22h35min, convocou para subir os jornalistas que faziam plantão sob a janela de seu gabinete. Depois de um dia inteiro de reuniões, a parceria estava fechada. A assinatura seria três dias depois. O presidente e seu grupo de apoio saíram dali direto para a mesa de um restaurante, no Moinhos de Vento. Era hora de comemorar.

No dia 19 de março, Luigi e o presidente executivo da AG, Otávio Marques de Azevedo, assinaram o documento mais esperado pelo Inter nos últimos anos. Na mesa, uma maquete do estádio decorava o cenário. Faltam só 3% para o Beira-Rio ficar fielmente igual a ela. E Dilma o verá já quase pronto nesta sexta-feira, quando batizará o estádio da Copa em Porto Alegre.

Novela das negociações ano a ano

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