Em um cubículo a céu aberto próximo à saída do estádio 19 de Outubro, onde o seu time recém havia aplicado 5 a 0 numa final de turno do Gauchão contra o São Luiz, o técnico Dunga admitiu: o time do Inter tem a sua cara, o seu dedo e a sua garra. Foi D'Alessandro quem se saiu com essa ao final da conquista. Fred também elogiou o treinador ao proferir a mesma reflexão. Então Dunga não teve o que discodar.
— Aceito as colocaçoes dos jogadores. A equipe tem a minha cara porque está fazendo aquilo que trabalhamos — disse o técnico, encurralado contra uma folha de zinco encoberta pelo banner do clube.
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O sentimento do técnico é que o seu projeto está no caminho. Aspirações como o Campeonato Brasileiro têm de ser trabalhadas desde agora e, para isso, uma vitória expressiva como a deste domingo garante tranquilidade e distribui confiança no vestiário.
— Tem que ter grupo para continuar com as vitórias — falou.
A receita é marcar, talvez o verbo mais utilizado em seu vocabulário, especialmente quando se refere a sistema de jogo. Como explicar uma goleada que nem ele mesmo acreditava? Ninguém acreditava. A resposta é sempre o velho verbo:
— Marcar, não deixar o time do outro jogar. Aí, com posse da bola, com a nossa qualidade, vamos atacar.
Questionado se o gramado embarrado criou dificuldade para o Inter, Dunga abriu um sorriso de canto de boca.
— Se a gente costuma correr 100 quilômetros da manhã à tarde, não seria esse gramado que nos traria problemas — disse, referindo-se ao fôlego de sobra com o qual o time acabou o jogo na casa do adversário.
De qualquer forma, passada a comemoração, nesta terça ou quarta-feira a corda volta a esticar. Em outros momentos da entrevista, Dunga habilmente retirou de si as glórias e passou a depositá-la sobre os jogadores. Falou de Damião, por exemplo, que hoje se movimenta mais, foge do isolamento entre os zagueiros e por isso tem melhor chance de vencer o lance no giro ou no corpo, como nos dois gols marcados no 19 de Outubro. Citou a disposição de D'Alessandro, que deu carrinho no barro e enlameou-se todo.
— Ele é assim no treino. Não foi só no jogo. Por isso ele cobra muito — declarou, sobre o meia argentino.
Rafael Moura previu o gol de Damião, que o abraçou
Cena 1. Quando fez o giro sobre o zagueiro do São Luiz e marcou o primeiro gol do Inter, Leandro Damião logo se lembrou do que há pouco tempo o outro centroavante do grupo Rafael Moura havia lhe dito no vestiário:
— Você vai marcar um gol aqui (na decisão de Ijuí) e afastar essa fase.
Por isso, Damião correu para abraçar o colega, que depois confirmou a história:
— Nós somos concorrentes na posição, mas, acima de tudo, somos companheiros, trabalhamos em grupo. — disse Moura. — O Rafael é muito amigo, a gente se dá muito bem — justificou Damião.
Cena 2. Em um contra-ataque do Inter, Forlán inverteu o jogo para Damião. Ele dominou a bola, levantou a cabeça, viu a posição adiantada do goleiro Oliveira e chutou sobre ele. Do estádio, parecia um lançamento para quem entrasse no segundo pau. Pareceu, também, que a bola sairia para a linha de fundo, sobre o travessão. Mas, não. Ela desceu rápido e se aninhou quase acompanhando o caimento da rede. Surpreendeu a todos no estádio, inclusive os narradores.
O mais curioso é que, por questão de dois minutos, esse gol não sairia. O quarto árbitro já vinha com a placa de substituição. Rafael Moura entraria. Mas Damião não entendeu porque estavam lhe chamando à beira do gramado e ficou parado do outro lado do gramado, como quem não quisesse sair. Então o árbitro Leandro Vuaden foi buscá-lo e Rafael entrou em seu lugar.
— Eu pensei aquilo mesmo, colocar a bola no gol. Tive sorte, desta vez deu certo — explicou o centroavante.













