Aos 77 anos de idade, Ibsen Pinheiro assumiu ontem à tarde a cadeira de presidente do Conselho Deliberativo do Inter. A aclamação, na segunda-feira, ocorreu após uma longa costura política comandada pelo presidente Giovanni Luigi. Mesmo com alguma contestação de grupos situacionistas, sobretudo do diretor de futebol Luís César Souto de Moura, Ibsen agora ocupa uma sala distante menos de 15 metros do gabinete de Luigi. Será também um conselheiro do presidente. Apoiado por Fernando Carvalho e amigo pessoal de Fábio Koff, de quem é um companheiro histórico de PMDB, Ibsen defende uma aproximação ainda maior entre a dupla Gre-Nal, a fim de sobreviver ao crescimento financeiro de Corinthians e de Flamengo.
Presidente estadual do partido, Ibsen estava afastado do dia a dia do Inter desde 2002, quando foi chamado às pressas por Carvalho para assumir como vice de futebol e ajudar o time a escapar do rebaixamento à Série B. Após 45 anos como conselheiro, assume a presidência do legislativo colorado. A seguir, os principais trechos da entrevista:
Zero Hora - Depois de 11 anos, quando foi vice de futebol no final de 2002, o senhor está efetivamente de volta ao clube.
Ibsen - Quem tem relação profunda com o futebol tem uma relação para a vida toda. Não se extingue. Depois que decidi não mais concorrer e me tronando presidente local do meu partido, fui lembrado para o Conselho. É honrosa e não é trabalhosa como o futebol. Mas tem grande relevância institucional. Tenho conversado com o presidente Luigi. Os clubes têm grandes desafios no Brasil. Não temos uma legislação harmônica para o futebol, por exemplo.
ZH - Qual a sua opinião sobre a cláusula de barreira para a eleição presidencial (hoje, a cláusula é de 25% ou 87 votos no CD)?
Ibsen - Não saberia dizer qual será a tendência do Conselho: se diminuir ou manter. mas entendo que ela deva ter relação com os votantes presentes não com o corpo do Conselho. Caso contrário, a ausência é quase um voto. O conselheiro ausente está interferindo no processo. A cláusula precisa ser vinculada ao comparecimento na votação. Pessoalmente, não devo me manifestar sobre a redução ou não da cláusula.
ZH - Hoje vemos o Grêmio ainda em debate com a OAS sobre o contrato da Arena. O senhor acha que o Inter também terá problemas com a Andrade Gutierrez?
Ibsen - Espero que não. O contrato foi muito estudado. Espero que o que está ocorrendo com a Arena seja uma lição para todos. Tomara que aqui, quando estiver pronto esteja pronto mesmo. O contrato foi muito estudado, até contra a minha vontade. Minha posição era contrária (à parceria com a AG). O próprio debate interno aprimorou o nosso contrato. A obra do Grêmio era mais complexa, um estádio novo em uma região nova. A nossa, é a remodelação do estádio em uma região de acesso fácil.
ZH - Devido a sua amizade com Fábio Koff, é possível uma maior aproximação para lutas nacionais da dupla Gre-Nal?
Ibsen - É. Lamento até hoje a extinção do Clube dos 13. O Inter foi o último a deixar o Clube dos 13. Era importante para clubes geograficamente periféricos, como a Dupla mais Cruzeiro e Atlético-MG. Temo o exemplo negativo da Espanha, cujos recursos canalizados para Real Madrid e Barcelona devam atingir 80% de investimentos no futebol. Se não houver algum mecanismo de preservação, vamos conviver com essa realidade em breve.
ZH - Nesse aspecto, o senhor vê com preocupação o contrato da Caixa Econômica Federal com o Corinthians?
Ibsen - Não. A Caixa é uma empresa que compete no mercado, como o Banrisul aqui. Empresas com controle público, mas que competem no mercado. Me preocupa é se houver tratamento diferenciado da cobertura da TV, que é concessão pública. Temos que ter uma atitude permanente de resguardo. Os clubes estão desprotegidos, sobretudo com relação às compensações por formação de jogadores. Nesse ponto, serei um parceiro permanente da gestão Luigi.
ZH - Uma espécie de conselheiro de Giovanni Luigi?
Ibsen - Nós dois temos coisas que ajudam muito: a amizade e o temperamento da convivência. No passado, falamos muito sobre essas questões institucionais do futebol.
ZH - Ainda há no futebol espaço para o espírito dos Mandarins (movimento político que atuou no clube, de 1969 a 1971, com ideias inovadoras no futebol, do qual faziam parte Ibsen, Cláudio Cabral, Hugo Amorim, Paulo Portanova, entre outros)?
Ibsen - Acho que sim. Sempre me pergunto: "Qual o segredo desse esporte?". O futebol é a recriação mágica dos conflitos que temos na vida. Na vida e no futebol, você faz tudo certo e dá errado. na vida é assim também. No basquete, não: o melhor sempre ganha. É sem graça. Quantas vezes você se queixa de uma coisa amarga que te aconteceu e, na verdade, ela está te preparando para uma coisa boa. Como em 2005, perdemos daquela maneira para o Corinthians, na sequência, em 2006, perdemos o Gauchão, para em seguida vencer a Libertadores e bater o Barcelona, com 18 craques, no Mundial. Futebol é magia. Vejo algumas ideias dos Mandarins consagradas, como a utilização de ao menos um volante no time. Hoje, combato times com até quatro volantes. Futebol é organização, solides defensiva e qualidade possível.
ZH - O trabalho de Dunga até agora lhe agrada?
Ibsen - Vejo ele treinando e me lembro de uma frase de César Luís Menotti (campeão mundial em 1978, com a Argentina): "Time começa com ideia de time". Quem não as tem, não está proibido de ganhar, mas o que você faz com precisão tem mais chances de dar certo. Estou muito satisfeito com o trabalho do Dunga. Não o conheço pessoalmente, mas gosto de suas ideias. Ele foi um jogador autoconstruído. Carpegiani, Falcão, nasceram prontos. Dunga era um jogador baixote, sem o drible, com um pé só, sem velocidade, sem cabeceio, sem brilho. Mas, aos 30 anos, era um homem rico, poliglota, exemplo de conduta e famoso no mundo todo. Ele construiu isso. Ao contrário de talentos que vemos e pensamos: "Aos 30 anos, ele precisará de um jogo beneficente para se manter".
ZH - Como entendedor de futebol, e como colorado, o senhor vê com preocupação esse novo time do Grêmio?
Ibsen - O Grêmio está fazendo um grupo de qualidade e de quantidade de bons jogadores. mas isso não basta. O time está em processo. Não sei se já chegou ao ponto de produzir um time. Como o Inter do ano passado, que começou o ano tido como o melhor grupo do Brasil. Quem sabe a escalação do Corinthians campeão do mundo? Tite. Foi um trabalho do técnico, foi comando. Não sei se o Grêmio já tem isso. Mas não sei se o Inter também tem. Vejo o Inter com um grupo muito bom, mas em começo de trabalho. Acho que vale para Inter e Grêmio: têm material humano, mas dependerá dos técnicos ainda a formação dos times.
ZH - Como ocorreu a costura política para a sua aclamação à presidência no Conselho Deliberativo?
Ibsen - O clube aspirava por soluções harmônicas. Esse sentimento estava presente. Houve a percepção dos grupos políticos da realidade. Acho que o meu perfil, agregador, pesou um pouco. Nunca fiz inimigos no Inter. Há pessoas que não me apreciam e vice-versa. O que separa as pessoas na vida pública, e futebol é vida pública, não são as opiniões nem os interesses, mas a grosseria, o insulto e a incivilidade. É preciso divergir com respeito. O presidente Luigi é um exemplo. Fernando Carvalho também.
ZH - O senhor seria um Giovanni Luigi com mais experiência?
Ibsen - Mais experiência não posso ter, pois ele já sentou na cadeira do presidente e eu jamais sentarei. Olha, ser presidente do Inter... não sei se é de invejar, devido à quantidade de broncas que tem. Invejável é a minha cadeira. Se eu ganhar, sou campeão de tudo, se perder, sou apenas um torcedor sofrido.
ZH - Como o senhor recebeu as críticas do diretor de futebol Luís César Souto de Moura a sua ascensão ao Conselho?
Ibsen - É uma opinião. Ponto final. Não preciso rebatê-la. Não houve agressão pessoal.
ZH - Ele disse que o senhor não tem o perfil para liderar as mudanças que o clube exige, através do Conselho.
Ibsen - O perfil do Fernando Henrique, do Lula e da Dilma não é do agrado de todos. Como eu vou ficar sem restrições ao meu perfil? Se houvesse disputa, estaria brigando por voto. Fui candidato único.
ZH - Ainda há o temor de Souto de Moura que a sua presença acabe tendo influência no futebol e desemboque na sucessão de Luigi, como uma espécie de cabo eleitoral de luxo de Vitorio Piffero.
Ibsen - A única interferência que tenho futebol é a de 2002, que fui convidado para assumir o departamento de futebol nas últimas rodadas. Gosto de ver o jogo, de falar de futebol, volta e meio dou meus palpites nas rádios, mas isso só ajuda. A crítica deve ser bem feita e bem compreendida. Sobre a eleição, ainda é muito cedo para especular.









