Do Acre09/02/2013 | 21h24

Longe demais: Conheça o Rio Branco, o adversário colorado na Copa do Brasil

Inter estreia na competição no dia 3 de abril, no Acre, a 4,1 mil quilômetros de Porto Alegre

Enviar para um amigo
Longe demais: Conheça o Rio Branco, o adversário colorado na Copa do Brasil riobrancofc.com.br/Divulgação
Arena da Floresta é o estádio do Rio Branco, onde a equipe local irá encarar o Inter no dia 3 de abril Foto: riobrancofc.com.br / Divulgação

A distância entre o Inter e seu primeiro adversário na Copa do Brasil não é só física. Além dos 4,1 mil quilômetros que separam Porto Alegre da capital acreana, folha salarial, número de sócios e até a temperatura para os treinos mostram o abismo entre o colorado gaúcho e o Rio Branco.

Há quatro anos sem jogar a Copa do Brasil, desde que foi vice-campeão do torneio, em 2009, o Inter está de volta. E, já na primeira fase da competição, depara-se com toda a realidade possível do campeonato: uma viagem de 4,1 mil quilômetros ao Acre. O Rio Branco, atual tricampeão acreano, aguarda Dunga e companhia em 3 de abril.

Criada em 1989 como cópia dos torneios europeus, a Copa do Brasil permite que clubes de séries menores enfrentem os da elite. Na história do adversário do Inter, algumas curiosidades, como o goleiro que se tornou campeão olímpico, o Matador do Norte, o craque Testinha e os treinos a 46º C.

Com um teto de R$ 5 mil para os destaques do time, quadro social de 650 torcedores (contra os 106 mil do Inter, por exemplo) e folha de R$ 70 mil, o equivalente aos vencimentos de um jogador reserva do adversário de Porto Alegre, o Rio Branco passa pela pior crise nos últimos anos. Dívidas trabalhistas com o volante Pedro Ayub, ex-Grêmio, e com o zagueiro Gabriel, atualmente no Lajeadense, tiraram R$ 100 mil dos cofres do clube.

Além disso, a exclusão da Série C, no ano passado, por ter ingressado junto com o governo do Acre na Justiça comum, a fim de jogar na Arena da Floresta — o estádio estatal no qual manda as suas partidas, e que estava interditado pelo Ministério Público —, deixou o Rio Branco na penúria com a falta de investimentos. A confirmação do Treze-PB em seu lugar no calendário da CBF levou os acreanos à Justiça uma vez mais. O clube conta com o sucesso no Superior Tribunal Federal (STF) para voltar à terceira divisão nacional.

— O futebol do Acre está nivelado por baixo, essa é a verdade. Antes da exclusão da Série C, éramos os grandes rivais do Paysandu no Norte. Agora, perdemos força. O que não quer dizer que o Inter vá chegar aqui, fazer 2 a 0, e nos eliminar. Em casa, já ganhamos do Flamengo (em 1997, nas oitavas, vitória por 2 a 1, em casa, mas derrota por 5 a 1, no Maracanã), do Atlético-PR (em 2011, vitória por 2 a 1, em casa, derrota por 3 a 1, em Curitiba, na primeira fase) e do São Paulo (em 1993, nas oitavas, vitória por 1 a 0 em casa e derrota por 3 a 1 no Morumbi) na Copa do Brasil — advertiu o vice de futebol e ex-presidente do Rio Branco, Natal Xavier.

Ainda que o Estrelão — como é chamado o clube do Acre — jamais tenha passado das oitavas de final da Copa do Brasil, há grande esperança de seguir no torneio deste ano. Passar pelo Inter significa a sobrevivência do Rio Branco em 2013.

— Temos uma grande tradição no futebol do Norte, só não temos dinheiro — resumiu Xavier. — Contra o Inter, a renda será boa. O problema é que, na Copa do Brasil, o vencedor do jogo fica com 60% da bilheteria. Assim, mesmo com 13 mil pessoas no estádio, não temos a certeza de ficar com esse dinheiro — lamentou o dirigente.

A falta de recursos faz com que o time quase não se renove. A base da equipe é a mesma desde 2007. Sim, o Rio Branco é um caso raro, grande parte do grupo está junto há sete temporadas. Tanto é assim que os destaques do Estrelão são veteranos na casa dos 35 anos, como o meia Testinha, o lateral Ananias e o atacante Juliano César.

— Os nossos jogadores são sempre os mesmos. E olha que mantemos essa base a duras penas — disse Xavier. — O nosso time é muito forte em casa, mas, admito, neste ano as coisas estão complicadas — acrescentou.

Estrelão

O escudo do Rio Branco é em vermelho e branco e tem uma estrela vermelha. O apelido, Estrelão, remete ao primeiro uniforme do clube, de 1919, cuja camisa branca exibia uma enorme estrela no peito. A estrela do clube é uma referência à estrela vermelha da bandeira do Estado, que por sua vez representa o sangue daqueles que lutaram para que o atual Estado pertencesse ao Brasil. Até 1903, o Acre foi alvo de disputa entre Brasil, Bolívia e Peru. Enquanto em Porto Alegre o Grêmio era fundado, o governo brasileiro comprava a região dos bolivianos por 2 milhões de libras esterlinas. O Acre passou de território a Estado somente em 1962. O clube possui 43 títulos estaduais e uma Copa do Norte.

O goleiro ídolo

O herói do Rio Branco joga vôlei. Carlão, capitão da seleção olímpica medalha de ouro em 1992, começou a carreira como goleiro do clube. Dos 12 aos 16 anos, Antônio Carlos Gouveia foi o camisa 1 da base do Estrelão. Dono de 1m85cm de altura quando começou nos infantis da equipe, Carlão (hoje com 47 anos e 1m98cm) foi campeão estadual dos infantis até a categoria juvenil.

— Eu era magro e alto pra caramba. Adorava jogar no gol porque o futebol sempre era o meu esporte preferido. Me divertia muito no gol — conta Carlão. — Abandonei as luvas aos 17 anos, quando saí de Rio Branco e fui estudar em Fortaleza, onde comecei a jogar vôlei. Se tivesse seguido a carreira, teria sido goleiro de um dos grandes clubes do Brasil — aposta.

Torcedor do Estrelão e do Flamengo, Carlão acompanha de longe a equipe da sua terra natal. Não acredita na classificação sobre o Inter, mas espera que o time consiga viajar para o Rio Grande do Sul para uma segunda partida. 

— Tenho uma vaga esperança de que o Rio Branco faça frente ao Inter no jogo de ida, mas a diferença entre os clubes é gigantesca — admite o ex-goleiro.

Matador

Há 11 anos no Rio Branco, o atacante Juliano César é uma das atrações do Rio Branco. Ele é o maior artilheiro da história do Campeonato Acreano, com 83 gols. Juliano, que também rodou por equipes de Rondônia e do Amazonas, passou a ser conhecido como o Matador do Norte. Com 93 anos de fundação, o Rio Branco realizou apenas uma partida internacional oficial em sua história: contra os colombianos do Tolima, na Copa Conmebol de 1999. O clube acabou eliminado nos pênaltis.

Enquanto o Campeonato Acreano não começa (a estreia será no próximo dia 17), o Rio Branco já está com o time formado para a temporada e, na semana passada, venceu o torneio início — ainda tradicional no Acre —, sob o comando de Luís Carlos, o técnico goiano que dirige o time desde o ano passado.

O atacante haitiano Innocent Olibrice, 25 anos, dificilmente enfrentará o Inter. Em uma ação humanitária, o Rio Branco abrigou o jogador, que deixou o país após o terremoto de 2010, e embarcou para o Acre — porta de entrada dos refugiados da ilha no Brasil. Ele treina desde o ano passado com a equipe, mas ainda não conseguiu ser registrado na CBF, devido à burocracia.

A equipe: Douglas; Bruno, Marquinhos, Érick e Ananias; Ismael, Araújo, Neném e Testinha; Marcelo Brás e Juliano César. Técnico: Luís Carlos.

Mais quente que Porto Alegre

O atual preparador de goleiros do Veranópolis, Edson Girardi, trabalhou de maio a setembro de 2012 no Rio Branco. Foi a convite do treinador Guilherme Macuglia, hoje no Cerâmica. Segundo Girardi, a estrutura do clube é muito boa, o gramado da Arena da Floresta é "excelente" e conta com uma torcida fanática: 

— O nível do futebol de lá é muito diferente do nosso. O Rio Branco tem a estrutura semelhante à do Brasil, de Farroupilha (que joga a segundona gaúcha). O camisa 10, Testinha, é o grande nome do time. Jogador habilidoso e que faz muitos gols em cobranças de faltas.

Girardi e Macuglia deixaram o Rio Branco justamente no momento em que o clube foi excluído da Série C e ficou sem competições na temporada.

— Tenho boas lembranças do Rio Branco. E apenas uma ruim: os treinos a 46º C, com um calor úmido, que deixa a cidade mais quente que Porto Alegre no verão — concluiu o preparador de goleiros.

O Rio Branco na Copa do Brasil

Com 13 participações na Copa do Brasil, o Rio Branco jamais passou das oitavas de final. No currículo dos acreanos, vitórias em casa sobre Flamengo, São Paulo e Atlético-PR, seguidas de eliminações. O clube já enfrentou também Corinthians, Santos e Botafogo-RJ. No ano passado, já ingressando na atual crise financeira, a pior derrota: 6 a 0 para o Cruzeiro-MG, em casa.

Inter na Copa do Brasil

Com 18 participações no torneio, o Inter já enfrentou algumas equipes que não costumam fazer parte do cenário dos grandes clubes. Nomes como Muniz Freire (ES), Pontaporanense (MS), Camaçari (BA), Guará (DF) — com o zagueiro Lúcio embarcando com a delegação do Inter, contratado mesmo após um 7 a 0 —, União Rondonópolis (MT) — com Rodrigo Moledo marcando Nilmar, em 2009 —, Confiança (SE), Nacional (PB), Prudentópolis (PR) e Ji-Paraná (RO) — responsável por sofrer a maior goleada do Inter na competição, os 9 a 1, de 1993 — já cruzaram o caminho colorado na Copa do Brasil. 

A maior distância

Rio Branco será a maior distância percorrida pelo Inter na história da Copa do Brasil: 4,1 mil quilômetros. Antes, a campeã era Patos-PB, em 2008, com 3,8 mil quilômetros, para enfrentar o Nacional-PB.

A logística do Inter ainda não está definida. Há opções de viagem por Belo Horizonte e por Brasília, com chances de pernoitar na cidade antes de seguir voo para o Acre. A viagem, no total, poderá levar até 10 horas, somente de voos.

Há oito anos, um problema

Na Copa do Brasil de 2005, o Inter foi a Patos de Minas - MG, enfrentar o Chapadão (vencendo por 2 a 1). Nesse jogo, após uma viagem de 3,8 mil quilômetros, Renan, Maycon, Edinho e Muriel contraíram hepatite do tipo A e ficaram um bom tempo sem poder jogar, tratando a doença.

Siga zh_inter no Twitter

Imprimir
clicRBS
Nova busca - outros