Na véspera do encerramento da primeira etapa da pré-temporada, em Gramado, Dunga fez um balanço do início de seu trabalho à frente do Inter. Está satisfeito com o trabalho até aqui e, a partir do jogo-treino com o Flamengo, de São Valnetim, neste sábado, às 10h, no estádio do Gramadense, começará a montar a sua equipe ideal para a estreia no Gauchão. Na coletiva, Dunga foi Dunga em sua essência, com respostas diretas e até com alguma ironia.
Confira a entrevista:
A defesa está definida, com Moledo e Juan?
Dunga - Não é definitivo. Mas tenho que começar com uma ideia de time. Outros também terão oportunidades.
Jackson, na lateral-direita, e Josimar como volante? No coletivo você começou com Bolatti.
Dunga - Estou experimentando. Não posso jogar com quatro estrangeiros, mas, nos treinos, coloquei os quatro por causa da língua, por se conhecerem, para que pudessem mostar cada um o seu potencial. Mas amanhã começarei com Jackson e com Josimar. Cada um vai ganhando a sua oportunidade e vai se escalando conforme os treinos. Vamos criando opções para formar a equipe.
Em sua primeira coletiva você disse que Gabriel não interessava e que o Inter buscava um jogador com outro perfil. Hoje, o que você diria sobre Gabriel e sobre o que ele agregaria ao Inter na lateral-direita?
Dunga - Na época falei que o Inter estava tratando com outros jogadores de fora do país e que, no momento, Gabriel não entrava nos planos. Até agora não há nada definitivo, só quando me falarem que o jogador está contratado vou pensar como utilizá-lo.
O que te pareceram os primeiros treinos, sobretudo com a formação do meio-campo?
Dunga - Começamos com bola, mas sem dar velocidade, sem os jogadores ficarem expostos fisicamente. Muitos falaram que no segundo treino a gente daria coletivo, uma coisa absurda para quem entende de futebol, simplesmente você dá uma carga de trabalho para os atletas e aí tem um momento que é precioso dar uma relaxada, tirar um pouco a pressão. Estamos começando. Quero um meio-campo que marque forte e que saia com certa velocidade. No primeiro coletivo o campo não ajuda muito, pois prende um pouco a bola. Os jogadores ficam ansiosos para definir logo a jogada. Deixei para fazer correções a partir dos 20 minutos, deixei eles livres no início. Depois, aos poucos, começamos a posicionar. Não é no primeiro treino que as coisas vão se definir ou que tudo vai sair bem.
Willians surpreendeu ao mal chegar e já treinar no time.
Dunga - Ele vinha jogando. Chegou e conversamos com Paulo Paixão para saber como estava se sentindo. Falamos sobre o seu comportamneto físico nos ultimos anos, levamos tudo isso em conta. Claro que qualquer técnico gostaria que o plantel já estivesse definido no primeiro dia, mas isso não é possível, principalmente no Brasil. Mas estou satisfeito com o trabalho.
Como você lida com a ansiedade, já que a estreia se aproxima (no dia 27, contra o Caxias)?
Dunga - Aqui não tem tempo para pensar no jogo. Estou preocupado em realizar aquilo que tinha sido planejado, em ter os jogadores que quero à disposição. Deixar a ansiedade para mais perto do jogo.
E sobre o rendimento dos atacantes no treinos, em especial Damião e Forlán? E em quanto tempo o time terá a "cara do Dunga"?
Dunga - Depende dos jogos, de como vamos nos comportar, a perna ainda está pesada, não tem a lucidez na hora da conclusão, a gente tem feito muitos treinos com o campo reduzido e os atacantes necessitam espaço para ter essa conclusão. Nos últimos treinos começamos a alongar mais o campo, justamente para eles terem essa noção. Fizemos trabalho de conclusão apenas por dois dias e isso é pouco para atacantes. Vamos ter noção de quando a equipe vai engrenar quando tivermos a amplitude maior do campo, por exemplo, amanhã, no jogo-treino.
E o carinho que você tem recebido da torcida em Gramado?
Dunga - Não é só comigo, é com toda a equipe. O torcedor tem se comportado de uma maneira extraordinária. Tem deixado que o time trabalhe da melhor maneira. Fomos treinar no lago (uma corrida no Lago Negro), com muita gente, sem ter segurança, e mesmo assim os jogadores puderam fazer o treino tranquilamente. Isso dá mais incentivo ainda para o ano. Esse carinho dos torcedores deixam os atletas com ainda mais vontade de vencer.
Dátolo vai começar como titular, pelos treinos até aqui, mas que ideia você tem para o Fred quando ele voltar da seleção sub-20?
Dunga - Vão começar a polêmica antes de retornar o Fred (riso tenso)? Vamos deixar o Fred na seleção, quando ele estiver à disposição vou pensar como trabalhar com ele. É um jogador rápido, técnico e esse ano terá muitos jogos pela seleção. Estará muito tempo fora e preciso criar opções. Mas são opções boas. Quanto mais jogadores de qualidade, melhor.
Dátolo teve um primeiro semestre muito bom no ano passado e, depois, teve problemas com lesões. Qual a sua opinião sobre a dupla Dátolo e D'Alewssandro, que vem atuando no meio-campo?
Dunga - A língua facilita, eles se conhecem bem, sabem como cada um joga, o posicionamento. Um é agudo, rápido, chuta bem de fora da área, o outro é um 10 clássico, que tem a velocidade da bola e o tempo de jogo. Essa facilidade vai ajudar os dois.
O Inter já tem mais dois jpgadores contratados, Bruno Peres e Hélder, e outro que é uma possibilidade, Fellipe Bastos. O que você pode falar sobre as características deles?
Dunga - Fellipe é um jogador de meio, de muita marcação, forte, que chuta de longa e média distâncias, assim como Bruno Peres. O Hélder é um jogador mais de velocidade. Mas só vou começar a pensar neles quando eles estiverem aqui. O resto, é muita especulação. É complicado falar de jogador que ainda não chegou.
Você havia pedido para a direção que organizasse uma base de dados individuais dos jogadores, a fim de auxiliar no seu trabalho. Isso foi atendido?
Dunga - Tentei pegar com pessoas que trabalham no Inter e no futebol como é o perfil desses jogadores, como reagem sob pressão, como reagem em treinamento, como reagem quando jogam, quando não jogam. Mas isso é uma coisa bastanate interna, que o treinador precisa ter à disposição. O Inter tem um grupo de profissionais muito competente. A minha forma de trabalhar é reunir todos esses dados e toda a capacidade desses profissionais. Fui contemplado, mas individualmente, estamos tentando organizar todos esses dados para que todos na comissão técnica possam ter esses dados e possam tomar decisões dentro das suas funções.
Você assistirá à estreia do Inter (o time sub-23) contra o Passo Fundo. Qual a sua expectativa sobre esse time?
Dunga — Espero que possa ter um resultado positivo e que, com esses jogadores, possamos ter opções para o grupo profissional. Vai depender do que cada um apresentar e das necessidades do grupo principal. Dessa necessidade que surgir, vamos tentar escolher no sub-23.
Que tipo de cobrança você fará aos jogadores nesse primeiro jogo-treino?
Dunga — Independente de resultado, e é lógico quer temos que ganhar sempre, mas algumas coisas que conversamos e que treinamos terão que começar a sair. Mesmo que a execução não seja perfeita, que se tente fazer o que treinamos. Futebol é dinâmico, dois dias atrás fizemos um treino sem marcação, sem nada, treinamos as jogadas e não saía. Aí, colocamos pressão, com adversário, e as coisas saíram ao natural.
Como está sendo voltar a trabalhar como treinador? Como é o estilo Dunga?
Dunga — Sou tranquilo. Você tem que conversar, orientar, reorientar, quando as coisas não saem, explicar, ter paciência. Às vezes a gente tem aquela ansiedade que tudo saia de forma perfeita... Sou muito crítico comigo mesmo antes de ser com os outros, quaro que as coisas saiam rapidamente, aí vem o Paulo Paixão, o Élio Carravetta, o Mauro Cruz, dizem, "não, calma, está indo bem, tranquilo, espera", é normal. Mas acho que o grupo está saindo bem. Tem uma competição interna muito boa entre eles e respeito muito grande. Eles entenderam a nossa forma de trabalhar. A gente cobra, sabe o momento de apertar, de relaxar, os jogadores estão cientes. Está sendo muito bom.
Você pediu que o clube trabalhasse com um software (uma espécie de banco de dados mundial, de todos os jogadores). Isso tem sido utilizado e o que isso pode agregar no seu trabalho de dia a dia com os jogadores?
Dunga — O software nada mais é que você ter informações detalhadas de cada jogador. Às vezes, de jogadores que nem lembrávamos mais que passaram pela selação, pela sub-20, sub-15, e foram para o leste europeu... Você coloca ali e ele busca informações, não somente onde ele está, mas como foi nos últimos três jogos. Quando não encontra o nome, em quatro, cinco dias, eles (uma empresa alemã, que desenvolveu o equipamento) procuram a informação e te passam. O mais interessante é que eles não sabem que está pedindo a informação sobre o jogador, com isso, fica mais fácil de trabalhar.














