Papo com colunistas22/12/2012 | 16h06

Dunga: "Eu acredito no Inter. Minha comissão técnica e eu viemos para vencer"

Treinador colorado falou com ZH sobre questões do time que comanda na próxima temporada

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Dunga: "Eu acredito no Inter. Minha comissão técnica e eu viemos para vencer" /Agencia RBS
Técnico Dunga recebeu colunistas de ZH em sua casa, em Porto Alegre Foto: Agencia RBS

Carlos Caetano Bledorn Verri, 49 anos, está de volta onde tudo começou. O seu retorno ao Inter tem este simbolismo, expresso na maciça aprovação do torcedor ao seu nome, como indicam as redes sociais e qualquer enquete que se faça. O pai de Gabriela, 26 anos, Bruno, 24 e Matheus, 5, todos do primeiro e único casamento com a inseparável Wanda, está duplamente em casa. A da Zona Sul, onde recebeu ZH para esta entrevista, e a do Beira-Rio, de onde partiu das mãos do descobridor de talentos Abílio dos Reis para ganhar a Europa, o Japão e o mundo. Com a palavra, Dunga.

>>> Confira o vídeo da entrevista feita pelos colunistas Diogo Olivier, Luiz Zini Pires e Wianey Carlet com Dunga

Crença no futuro
"O Inter me abriu as portas para o mundo, me formou como atleta. Vai se remodelar, com nova estrutura, modificando algumas coisas. É o melhor momento para iniciar um trabalho, pois aí você pode colocar suas ideias em prática com calma.  Tenho um filho pequeno (Matheus, cinco anos) e os outros dois também nunca tiveram férias direito, pois eu estava sempre fora. É hora de pensar na família, minha eterna prioridade. Olha, eu acredito no Inter. Eu e minha comissão técnica vamos trabalhar muito mesmo. E podem ter certeza: viemos para vencer."

O pós-Seleção
"Tive proposta da seleção da Arábia Saudita, do Catar, da Lazio. Só não fui para a Inter, de Milão, porque eles não aceitaram tratar com meu agente, o Antonio Caliendo, que esteve ao meu lado lá no começo da carreira. Estava tudo certo, mas ir para lá passando por cima dele seria injusto e ruim para o lado profissional do Antonio. E isso eu não faço."

Modelo de técnico
"Peguei um pouco de cada um dos grandes treinadores com quem trabalhei: Felipão, Parreira, Zagallo, Lazaroni, Jair Pereira. O segredo é você aprender com cada um, mas sempre distinguindo o que casa com as suas ideias, características e personalidade. Só copiar não adianta."

Vestiário
"Você vai adquirindo a confiança dos jogadores com as atitudes no dia-a-dia. Não adianta falar muito. Fui jogador e sei que o atleta quer que você fale a verdade. Pode até doer no momento, mas ele terá a certeza e a segurança: a relação é de honestidade e transparência. O que eu disser para ele é o que vale. Um jogador não pode ficar sabendo das coisas por terceiros. Também é fundamental saber que tudo se decidirá pelo merecimento no trabalho. Vestiário fechado é ter ali dentro só quem trabalha. As brincadeiras, as próprias discussões internas, que são normais, têm de ficar ali dentro. Se entrar uma terceira pessoa, complica. Até se for um familiar: é claro que o familiar vai tomar partido do jogador, e nem sempre ele terá razão. Agora, por exemplo: se começar a passar dez pessoas atrás da gente nesta entrevista, você vai se distrair. Jogador não tem botão liga e desliga. Então é preciso uma preparação neste sentido, até a hora do treino. Na preleção, mais ainda. O jogador só se sentirá à vontade para perguntar e falar o que quiser sem gente estranha perto."

Olho no olho
"No futebol, vocês sabem como é tanto quanto eu. Quando dá uma confusão, é sempre "não foi isso o que eu disse" ou "fui mal interpretado". Quando entra uma terceira pessoa, você dá margem para isso. Tenho vários amigos que jogaram comigo e são empresários ou assistem jogadores. Não tenho nada contra eles. Mas questão de trabalho tem que ser olho no olho. Por isso a relação precisa ser direta, sem intermediários. Não pode ter diz-que-diz. Tive dificuldade com isso na Seleção. Para encontrar um jogador, eu tinha que sempre passar por assessor. Aí, na primeira reunião, eu falei para eles: pode ser que muitos percam sua chance na Seleção por eu não conseguir comunicação direta. Aí a coisa mudou. Não precisa sempre ter um terceiro para dar um recado. A vida tem que ser mais simples."

O craque e o grupo
"Você tem que ter conhecimento detalhado dos jogadores à disposição para decidir. Futebol é competência e competição. O que faz a diferença é o talento. Agora, não pode se apegar às ideias antigas, de que só o talento resolve tudo. Talento resolve dentro de um time organizado. Do contrário, não adianta. Futebol não é a simples reunião dos melhores, mas encontrar peças que se encaixam. Este ano fui ao Chile para uma palestra e disse que a Argentina tem duas hipóteses: ou tira o Messi do time ou faz os jogadores terem a humildade e a grandeza de jogar para ele, como nós fizemos para o Romário e o Bebeto em 1994. Mas repare: o grupo sempre prevalece."

Império do resultado
"A gente brincava na Seleção: ah, os outros são melhores do que nós, mas quem deu volta olímpica? Quem ergueu taça? O importante é ganhar. A história é contada pelos vencedores. Nunca vi contar a história por quem perdeu."

O time
"A equipe que terminou 2012 vai começar 2013. Não acho correto varrer o trabalho anterior, como se tudo estivesse errado. Para mudar, tem que estar vendo de dentro, trabalhando o dia-a-dia. Falo direto que, lá de cima da cabine, é ótimo _ para ver a disposição dos jogadores no campo. Mas só à beira do campo você vê quem pede a bola na hora do apertão, quem marca quando o time está dificuldades, quem fica firme quando o jogo pega fogo. Primeiro, eu tenho que ver o Inter de dentro, para só depois mexer. Ouvi muita gente diagnosticando a doença no Inter, mas não vi ninguém receitando remédio. Então sabe dizer que está doente, com 40 graus de febre, mas não diz como curar? Foi um ano complicado, com muitas lesões e mudanças na preparação. É preciso fazer uma análise geral e conferir o que houve, jogador por jogador. Prefiro ver eu mesmo, lá dentro, para só depois agir e falar."

Três volantes
"A Seleção, comigo, fazia muitos gols. Aplicamos várias goleadas. Mas tinha gente que chamava de defensiva. O Elano, comigo, era volante. Agora, é meia. Via análises sobre equipes que faziam menos gols e eram chamadas de ofensivas. Qual é o conceito? É preciso equilíbrio. Tu podes ser defensivo atacando. Na Copa América, jogamos com três volantes, mas o time marcava do meio para frente. Na minha concepção, só há vantagem em jogar com três volantes se você pressionar o adversário. Qual a virtude do volante? É saber marcar. Então não adianta trazer o adversário para dentro do meu campo. Se eu roubar a bola aqui atrás, tenho que percorrer 60 metros até o gol adversário. Se eu pressionar na frente, são só 20 ou 10 metros. É matemática."

Seleção e clube
"Não há tanta diferença assim. Se você tem um craque na Seleção e ele comete erros, você precisa administrá-lo como no clube. Não vou convocar outro se eu sei que ele é decisivo. É mais fácil colocar um jogador na linha do que ensiná-lo a jogar futebol. Jamais vou punir o meu time por uma indisciplina de um jogador, mas ele terá responsabilidade pelos seus atos. Exijo comprometimento. O objetivo maior é sempre o grupo. Se um cometer deslize, prejudicará o desempenho dos outros, pois o futebol é coletivo. Um depende do outro. Assim, ele será cobrado não só pelo técnico, mas pelos próprios colegas. O segredo é ter uma relação sincera com todos."

D'Alessandro
"Ele é competitivo. Quer ganhar sempre. É sanguíneo. Às vezes, a explosão não é dentro do campo. Pode ser algo acumulado aqui atrás. Tem que sanar antes, buscando a origem. Claro que ele precisa ter a consciência do quanto é importante para o grupo. D'Alessandro é um jogador decisivo e talentoso. Precisamos tirar esta carga de que ele é bom, mas isso e aquilo. Ele é bom. Ponto. Mas não adianta eu falar. Falaremos ele e eu."

Imprensa
"Só me incomoda a mentira. Se o cara te chama de bom ou ruim, é a opinião dele: você tem de respeitar. Agora, quando te atribuem algo que você não disse ou sequer pensou, aí não dá para aceitar. Na Seleção, tinha jornalista pago para perguntar algumas coisas. Errei ao responder porque, ali, eu não estava respondendo para ele, mas para o torcedor. E os outros jornalistas também ficavam sem entender o motivo da resposta."

Categoria de base
"Vou dizer algo muito importante. O Inter tem conquistado títulos na base. Mas o guri, quando chega no time de cima, tem que correr mais, lutar mais, ralar mais. Lá na base, ele era estrela. Aqui, precisa conquistar o espaço. Então não adianta chegar no profissional e ficar paradinho esperando bola. Não: vai correr atrás dela, vai pegar junto. Essa grande e humildade é fundamental. O mundo mudou, mas na minha época eu ficava no cantinho do vestiário e vibrava com um sorriso de um profissional. Amaciava a chuteira dos caras com prazer. Por percepção, acho que jogador para começar a pintar o cabelo e botar brinquinho, o guri da base precisa ter umas 10 partidas no time principal. Não tenho nada contra, desde que isso não se sobreponha ao futebol. Só marketing não adianta. Agora, dentro de campo, todos buscam espaço em pé de igualdade, do experiente ao novato."

O capitão
"Vai muito do perfil de cada um. Eu não gritava para xingar, mas para lembrar do que a gente tinha feito o treino, inclusive na parte tática. Mas cada um tem o seu jeito. D'Alessandro terminou o ano como capitão e começará como capitão comigo."

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