O prédio de paredão e reboco puído voltado para o início da Rua Silveiro, o portão de ferro já sem fechadura original e o símbolo do Internacional ao lado, vigilante, agora saem de cena. Há 80 anos este pavilhão do Estádio dos Eucaliptos imperou no bairro Menino Deus, na Capital. Agora, um braço mecânico coloca o simbolismo abaixo, dá lugar a um condomínio residencial, como o fim de uma época romântica.
Do portão central de ferro, por muito tempo o cheiro de éter dos vestiários exalava a calçada da Silveiro, e a torcida chegava com especial orgulho: aqui é o novo estádio do Internacional. A arquibancada mais imponente abrigava as sociais e seus ocupantes de fatiota e chapéu, as cabines de rádio e a concentração, um imenso salão abaixo dos lances de cimento, com uma cama ao lado da outra feito quartel, separadas por um espaço de 30 centímetros. Nada disso existe mais. Lá do alto, via-se o Rio Guaíba e se acessava uma espécie de sacada de onde os jogadores se debruçavam e abanavam para a torcida lá embaixo, na Silveiro.
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O salão de festas, onde Oreco e Vicente Rao levavam grupos de samba para distrair os companheiros à espera dos dias de jogos, também sucumbiu. O cantinho da capela Nossa Senhora das Vitórias ficou no passado. Ao pé do altar havia um copo tipo martelinho em que os jogadores enchiam com cachaça em oferenda a Santo Onofre - até descobrirem que um deles sorrateiramente esvaziava o copo durante a madrugada. Nada restou do altar.
O canto do vestiário de pé alto onde Tesourinha rezava em companhia de Ivo, Alfeu, Nena, Assis, Ávila, Abigail, Russinho, Villalba, Adãozinho e Carlitos, o imbatível Rolo Compressor dos anos 40, virou pó. Também o muro que dava para a Barão do Cerro Largo, em que jogadores do mesmo Rolo pulavam em fuga da concentração, logo não terá mais vestígio. Assim como a parte do muro da esquina da Silveiro com Barão do Guaíba, mais baixa, que permitia a escapada de jogadores aos bailes de fim de semana. Ainda assim fizeram história.
Copa do Mundo, aliança de Larry e a cama de Salvador
Havia motivo de orgulho na inauguração do estádio em 15 de março de 1931 — o ano em que Jorge Amado lançou O país do Carnaval, e Getúlio Vargas iniciava o governo provisório após a Revolução de 30.
O time de Risada e Javel marcou o início de uma Era ao fazer 3 a 0 no Grêmio de Lara, Luiz Carvalho e Foguinho, o Osvaldo Rolla, os donos da Baixada. Começava bem o sonho do presidente Ildo Meneghetti. Desde então, a torcida chegava de ônibus linha 77 ou de bonde pela José de Alencar e se abrigava do sol nos eucaliptos plantados com as mudas da Chácara dos... Eucaliptos, o antigo campo do clube.
O cimento da arquibancada produzia um calor insuportável. Por isso, o médio Salvador, que de tão grande dormia em cama especial, foi dormir no gramado. Ao que Florindo disse:
— E os mosquitos, Salvador?
— Eu sou negrão. Os mosquitos não me mordem à noite.
Dois jogos da Copa do Mundo de 50 foram disputados ali. Iugoslávia, Suíça e México atuaram nesse gramado, o mesmo onde Larry perdeu a aliança em um Gre-Nal. Imaginem os jogadores de cócoras no campo à procura do anel. Na semana seguinte, a tal aliança apareceu. Estava presa na trava com prego da chuteira de Milton Kuelle.
O gramado, aliás, o massagista Moura o carpia durante as férias. Quando o Beira-Rio entrou em ação em 1969, sete dos 10 maiores jogadores da história do clube haviam passado pelos Eucaliptos: Tesourinha, Carlitos, Oreco, Claudiomiro, Valdomiro, Carpegiani e Falcão. Apenas Manga, Figueroa e Fernandão não entraram pelo portão de ferro que acaba de vir abaixo.
Na Rua Silveiro, de um lado o Estádio dos Eucaliptos, no outro lado da calçada, havia um açougue onde Tesourinha e companheiros compravam carne para o churrasco assado na casa do goleiro Milton Vergara. Depois de sair do Inter, jogar no Vasco na época da Copa de 50 e retornar ao Sul para ser o primeiro negro do Grêmio, em 1952, Tesourinha acabou ganhando do Inter uma casa na continuação da Rua Silveiro. Hoje, a rua é caminho para o Estádio do Beira-Rio.














