Histórias de Pirata09/03/2013 | 15h02

Barcos relembra a infância pobre e contesta a condição de ídolo tricolor

Em entrevista a ZH, argentino falou sobre fase no Grêmio e origem do apelido

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Barcos relembra a infância pobre e contesta a condição de ídolo tricolor Tadeu Vilani/Agencia RBS
"Sou bom no churrasco", garante o atacante argentino Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS
Luís Henrique Benfica

luis.benfica@zerohora.com.br

O Grêmio virou um porto seguro para o pirata Hernán Barcos. “Um pouco menor do que São Paulo”, como observa o centroavante, Porto Alegre caiu no gosto de sua mulher, Cristina, e dos filhos, a argentina Abril, quatro anos, e o equatoriano Emílio, dois. Já com imóvel alugado na Capital, o novo ídolo da torcida gremista só espera a volta de Caracas, na próxima semana, para inaugurar a churrasqueira.

– Sou bom no churrasco – anuncia Barcos, revelando um raro sorriso.

A escassez de risos não é sinônimo de mau humor. Pelo contrário. Na véspera da partida contra o Caracas, na Arena, combinou com os companheiros uma coreografia, em que todos imitariam um pirata. Pegos de surpresa, nem todos os fotógrafos conseguiram registrar a cena.

Barcos, na verdade, é um profissional extremamente compenetrado, que leva a sério treinos. O assessor de imprensa Bruno Junqueira observa:

– Ele não mostra os dentes.

– É um dos profissionais mais sérios que conheci – diz Vitor Rodriguez, jornalista do Grêmio, ainda impressionado com o que viu no Engenhão, na goleada sobre o Fluminense. Barcos chegou cansado da Argentina, onde velara o cunhado, não dormiu e ainda assim pediu para atuar.   

Sexta-feira, quando conversou com ZH, o argentino não fugiu aos assuntos. Falou da infância pobre, da adolescência marcada pela fome, da polêmica saída do Palmeiras, cujos torcedores o chamaram de mercenário. Um de seus sonhos é seguir ajudando os moradores de Bell Ville, a pequena cidade argentina em que nasceu, há 28 anos – famosa pela indústria de bolas de futebol e por outro filho pródigo, o ex-jogador Mario Kempes. Barcos investe na construção civil, gerando empregos e erguendo imóveis “que todos tenham condições de comprar”.

Zero Hora – Como surgiu o apelido Pirata?
Barcos –
Não tenho bem certeza. Sei que foi no Equador (atuou pela LDU em 2010 e 2011). Um jornalista associou meu sobrenome com barco pirata e passou a me chamar assim.

ZH – Já no Equador você comemorava os gols tapando o olho?
Barcos –
Não, isso começou aqui, no Palmeiras, em 2012. Renata Fan (gaúcha apresentadora da TV Bandeirantes) convidou-me para o programa, falou no apelido Pirata e pediu que eu comemorasse o próximo gol tapando o olho. Eu fiz, a torcida gostou e passou a repetir. Virou uma marca pessoal. Ficou.

ZH – Em seu gol contra o Caracas, os demais jogadores festejaram assim. Foi combinado?
Barcos –
Combinamos no jantar da noite anterior.

ZH – Como se sente tendo virado ídolo da torcida gremista em tão pouco tempo?
Barcos
– Ídolo é uma palavra muito forte. Ainda falta demonstrar muito. Tenho que tratar de ganhar alguma coisa para virar ídolo.

ZH – Mas já há uma grande admiração por você...
Barcos
– Sim, noto isso nas ruas, me tratam com muito carinho. É muito bom esse reconhecimento.

ZH – Alguns jogadores argentinos fizeram sucesso no Grêmio, como Scotta, Oberti e Maxi López. Será possível seguir essa linhagem?
Barcos –
Trabalhando desta forma, e com o grupo que temos, acho que sim. Mas sempre trato de definir o grupo como o mais importante. Sem ele, não sou ninguém.

ZH – Não acha muito ousado prometer tantos gols numa mesma temporada? Ao chegar, você falou que marcaria 28 pelo Grêmio.
Barcos –
Sempre gosto de fazer mais gols do que no ano anterior. Tinha feito 27 pela LDU e me cobraram 27 no Palmeiras. Fiz 28. Acho que estou de novo no caminho certo. Jogo num grande time, que me ajuda muito, acho que posso chegar a 28.

ZH – Zé Roberto o define como facilitador, por preparar as jogadas para que ele faça gols.
Barcos –
É muito bom ouvir isso. Zé Roberto é uma grande pessoa. Sempre falo que ele é um exemplo para mim e para qualquer atleta profissional. Joguei contra ele uma partida pela Copa da Uefa (Barcos pelo Estrela Vermelha, da Sérvia, e Zé Roberto pelo Bayern de Munique). Lembrei isso para ele. E hoje é um prazer traballhar ao seu lado. Tem 38 anos e corre como um menino.

ZH – Como acha que os palmeirenses reagem a cada gol seu marcado pelo Grêmio?
Barcos –
Foi muito bom atuar pelo Palmeiras. Ganhamos a Copa do Brasil depois de muito tempo. O rebaixamento foi algo muito difícil, ninguém acreditava nisso. Eu estava muito bem lá, era feliz, não esperava sair. Sabia do interesse do Grêmio em novembro, dezembro, mas como não saí, mentalizei o Palmeiras. Depois, a saída foi muito rápida, de um dia para outro. Ficou como se eu tivesse desejado ir embora. Muitos torcedores me xingavam de mercenário por telefone e pelo Twitter. Não sabem que, para o Palmeiras, era necessário que eu saísse. O clube me devia quatro meses de salário e temia que eu fizesse algo para sair livre. Quem me conhece sabe que eu nada faria contra o Palmeiras. Sempre me doei ao Palmeiras. Sempre fui leal. Não era a forma como eu queria sair. Mas, hoje, estou feliz aqui.


COM FOME NOS TREINOS DA BASE DO RACING

As dificuldades na infância
“Minha infância foi muito pobre, minha família era muito humilde. Meu pai morreu de aneurisma. Nunca tinha tido doença antes e morreu entre uma sexta-feira e uma segunda. Eu tinha 10 anos. Ficamos em quatro irmãos, entre 10 e 12 anos, e tivemos que começar a trabalhar. Minha mãe ficou sozinha, foi muito complicado para ela. Ela fez mágica. Nunca deixou faltar comida na mesa e nos deu uma boa educação. Nenhum de nós fez coisas erradas na vida.”

O início da carreira
“Com 15, 16 anos, fui sozinho para Buenos Aires, para atuar na base do Racing. Para minha mãe, foi muito difícil deixar-me ir. Eu era o caçula e ela sabia que eu ainda não teria salário. Então, ela fazia de tudo, me mandava bolo, para que eu não passasse fome na pensão. Só depois de muito tempo tive coragem de dizer a ela as dificuldades que enfrentava longe de casa. Mas a ambição de jogar a primeira divisão era mais forte do que a fome. Um dia falei para não puxarem muito porque não tinha comido nada. Foi complicado. Minha mãe pensava que tinha comida todo dia na pensão. Depois de um ano, conheci um empresário, que passou a me ajudar. Somos amigos até hoje.”

O primeiro salário
“Quando recebi o primeiro prêmio, nunca havia visto tanto dinheiro (risos). Comprei um tênis caro para mim e lava-roupas e secadora para minha mãe. Fiquei sem dinheiro de novo, mas feliz por ajudar minha mãe.”

A inspiração
“Crespo, Batistuta, Ronaldo Fenômeno. Me inspiro em muitos jogadores. De cada um, trato de tirar alguma característica importante.”

Bell Ville, a cidade natal
“Minha mãe ainda mora lá. Estou investindo em construção. São habitações para que qualquer tipo de pessoa possa comprar. Trato de dar empregos a meus familiares e a quem queira trabalhar com a gente. Quero dar tranquilidade para a gente de minha cidade. Não é tão fácil conseguir emprego por lá.”

MESSI E A SELEÇÃO ARGENTINA

Barcos foi convocado para dois jogos da Argentina pelas Eliminatórias da Copa de 2014. Sobre atuar ao lado de Messi, definiu como “um sonho, uma loucura”. O centroavante não titubeia em apontar sua seleção como uma das favoritas ao Mundial do Brasil:

– Há argentinos nos melhores times do mundo. Esperamos que a seleção faça as coisas bem. Time para ganhar, temos.

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