Sem censura12/01/2013 | 16h02

Otimista, Luxa fala sobre a Libertadores: "O Grêmio vai entrar para ganhar"

Técnico gremista conversou com os jornalistas David Coimbra, Luís Henrique Benfica e Luiz Zini Pires

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Otimista, Luxa fala sobre a Libertadores: "O Grêmio vai entrar para ganhar" Félix Zucco/Agencia RBS
Técico gremista falou sobre Libertadores, time, Flamengo e futebol gaúcho Foto: Félix Zucco / Agencia RBS

Numa mesa ao lado do balcão do bar do Hotel Deville, centro de recuperação dos jogadores na pré-temporada gremista, na Capital, Vanderlei Luxemburgo gesticula, abre os braços, parece que vai rir, mas não sorri. Diz:

_ Não tenha dúvidas de que o Grêmio vai entrar para ganhar a Libertadores.

Copa Libertadores da América é senha para conversas mais profundas sobre o seu Grêmio 2013. Mas ao tirar Luxa do Olímpico, ao chamá-lo para uma conversa mais íntima, comandada pelo repórter Luís Henrique Benfica, ao lado dos colunistas David Coimbra e Luiz Zini Pires, seu time é apenas uma das portas para tentar chegar próximo do treinador mais polêmico do futebol brasileiro desde os anos 1990 _ e um dos maiores vencedores.

Veja o bate-papo entre os colunistas de ZH e o treinador gremista:

 

Sem assunto tabu, ele falou de tudo: das mudanças em quase todos os setores do time, de Dida e Grohe, do poder do Corinthians, da sua fome por títulos. Foi além. Contou que vive bem em Porto Alegre, da adaptação da família. Experimentou seu melhor sorriso quando confessou que uma das três filhas virá morar ao seu lado em breve. Aí, puxou o celular e exibiu uma foto da neta Vanusa, orgulho puro.

_ Com este sorriso, ela vai branquear os cabelos do avô.

Depois da gravação, bom anfitrião que é, convidou toda a equipe de ZH e o assessor de imprensa do Grêmio, Vitor Rodrigues, para degustar um bom vinho. Da nobre bebida ele entende tanto quanto de esquemas táticos. É um sommelier.

Acompanhe nesta e nas próximas duas páginas os principais trechos da entrevista.

Ganhar a Libertadores é um desafio muito difícil?
"Não é desafio. Não gosto dessa palavra. Acho que ela serve para pessoas que não têm competência de chegar a algum lugar, de desenvolver o trabalho. Nas palestras que faço em empresas sobre metas e objetivos, uso as palavras oportunidade e possibilidade. Elas são mais adequadas para quem tem capacidade profissional. Não tenha dúvidas de que o Grêmio vai entrar para ganhar, mas o mais importante é frequentar essa zona. O Corinthians campeão da Libertadores de 2012 nada mais é do que o fracassado do ano anterior. Não desistiu e ganhou o Brasileiro e a Libertadores praticamente com o mesmo elenco. O Fluminense campeão de 2012 tinha a mesma base do time que havia vencido em 2010. O Grêmio está forte, mas brigará com equipes que já estão prontas. Agora, se o trabalho é feito como o nosso, com planejamento, seriedade e sustentação, não tenho dúvidas de que poderá resultar na conquista de títulos."

O que vale ganhar uma Libertadores?
"Me incomoda ouvir alguém comentar: como pode um profissional do nível do Luxemburgo, que já ganhou tanta competição, não ganhar a Libertadores? Claro que eu quero ganhar. Agora, se eu não ganhar, será que eu sou um fracassado? Pergunta ao Felipão se ele não queria ganhar outra Libertadores. Ele voltou à Seleção porque é movido por conquistas, quer ser o treinador brasileiro que ganhou duas Copas do Mundo. Preferiu arriscar o histórico, sofrer críticas, para tentar ganhar de novo. É isso que nos move."

Para você, é mais fácil vencer o Brasileiro (tem cinco títulos)?
"Isso é rótulo. Com todo o respeito, a imprensa tem o prazer de rotular, como se você não fosse capacitado por não ter vencido uma Libertadores. Se você pegar quantas Libertadores eu disputei, verá que meu desempenho está muito bom. Se eu disputar seis Libertadores seguidas pelo Grêmio, com certeza vou ganhar uma. É uma competição diferente. Estou familiarizado com o Campeonato Brasileiro. A Libertadores também é diferente para a equipe. Se não vencer um ano, tem que ver o que foi feito errado, manter a base e reforçar. São Paulo e Cruzeiro ganharam assim. Você amadurece a cada competição. Fui jogar em Bogotá (contra o Millonarios, pela Sul-Americana) e tinha na equipe uma porção de jogadores que nunca haviam enfrentado altitude, não sabiam como a banda tocava. Já será diferente dessa vez, eles já enfrentaram a dificuldade na derrota, obtiveram um amadurecimento de competição."

O poder econômico faz do Corinthians o favorito?
"O Grêmio tem tradição de copa, esse é um fator importante. O Rio Grande do Sul tem enraizada em sua cultura essa coisa de copa, vive isso mais do que os outros centros, descobriu primeiro a Libertadores e a Sul-Americana. Hoje, o resto do Brasil descobriu a Libertadores como um grande projeto. Algumas equipes estão na nossa frente, mas vamos apostar na tradição copeira do Grêmio e no trabalho que fazemos para ficar em igualdade de condições. Temos que projetar o Grêmio nas demais Libertadores também, não é esse ano só. Não é fácil ganhar. Se fosse fácil, Alex Ferguson (técnico do Manchester United) não teria vencido só duas Ligas dos Campeões em 27 anos. O importante é frequentar a elite. E, aqui na América do Sul, a elite do futebol é a Libertadores."

Está preocupado em ter que mexer em todos os setores da equipe?
"Nós fizemos um trabalho parecido no ano passado. Trouxemos jogadores como Elano e Zé Roberto para ajustar o time. Quando se tem jogadores com discernimento tático e experiência, as coisas ficam mais fáceis. Também é mais fácil para o jovem entrar numa equipe pronta. Gilberto Silva saiu e entrou Cris, que tem o mesmo peso, a mesma experiência. Jogou várias Ligas dos Campeões, foi campeão brasileiro. Tem um porte físico importante. Chegou de viagem e é quem mais treina, mesmo sem ter tido férias. As mexidas existiram, mas a base está sendo mantida. Assim, a tendência é ajustar mais rápido. Agora, as desconfianças sempre vão existir. O futebol é desta forma. Com todo o respeito aos críticos, mas foi assim quando Zé Roberto chegou. Disseram que Elano estava acabado no Santos, não é verdade? Aí, ele veio para cá, se motivou de novo e a qualidade aflorou. Ao longo do ano, as dúvidas vão desaparecendo. O importante é acertar mais do que errar."

Dida e Grohe
"Dida é um exemplo para os goleiros mais jovens, que, como ele, almejam chegar à Seleção Brasileira. Teve uma brilhante carreira de 10 anos no Milan. Todo mundo ganha se ele for titular. Ele ficou feliz por voltar ao Brasil. E muito mais por chegar ao Grêmio e ver que a estrutura aqui é muito melhor. Mas não quer dizer que Marcelo Grohe e Busatto também não são grandes goleiros."

Você ficará só mais um ano e depois tentará ser presidente do Flamengo?
"Foi um erro da matéria (do jornal Estado de São Paulo). Sobre esse assunto, já falei tudo o que precisava falar em meu site oficial. Meu contrato é de dois anos, vou me dedicar 100%. Não posso responder sobre erro de jornalista que fez a matéria. Como vou dar eco a uma coisa que não falei? Só se eu fosse pirado paras assinar por dois anos e ir embora daqui a um. Meu objetivo é ser presidente do Flamengo, mas pode não acontecer. Estou muito feliz aqui no Sul. Estou mesmo, não é jogar conversa fora. Quem me acompanha lá todos os dias vê que estou bem."

Por que ser presidente do Flamengo?
"Acho que posso contribuir com o futebol brasileiro no aspecto da gestão. É algo que já faço há muito tempo. Tenho cabeça de gestor, me preparei para isso. Ex-jogador tem que se preparar para ser muitas coisas depois que acabar a carreira. Não precisa ficar quebrando galho aqui e ali como ex-jogador. Platini foi eleito presidente da UEFA, Roberto (Dinamite) é presidente do Vasco."

A fama de "graneiro"
"Eu tenho possibilidade de fazer uma grande gestão como dirigente. Já levei rótulo de 'graneiro' por nunca permitir que um dirigente ficasse envolvido sozinho numa negociação. Se posso ajudar, ajudo. Eu sempre negociei com procuradores, tenho conhecimento de mercado, sei da capacidade técnica do jogador, sei quanto ele pode valer, posso baratear. Veja Alex Ferguson (técnico do Manchester United) e Arséne Wenger (técnico do Arsenal). Eles são os responsáveis por gerir os clubes e nem por isso são chamados de 'graneiros'. Aqui no Brasil, se você é técnico e vai negociar, é porque está levando grana. Há 20 anos, se não sou o treinador melhor remunerado do Brasil, sou um dos dois. Precisaria fazer sacanagem, ganhar por fora? Só se fosse louco. Desafio que provem isso. Se o mercado soubesse alguma coisa minha, eu estaria morto, ele não perdoa. Então, deixa que falem. Não vou deixar de chamar os empresários para conversar, tenho que ajudar os dirigentes, o Rui (Costa, executivo do Grêmio) me chama. O que se quer é contribuir. A verdade é que é muito confortável ser técnico no Brasil. Vai embora, fica uma hora e meia, dá treino e vai embora. Eu, se chego de manhã, só vou embora de noite. Tenho um escritório para trabalhar, não tenho um vestiário. Era assim no Flamengo, no Atlético-MG, no Palmeiras."

O Grêmio
"O Grêmio está se preparando para atingir a excelência, está virando referência no mercado para atrair profissionais. Hoje, jogadores como Zé Roberto e Elano querem jogar no Grêmio. O clube cresceu, está competitivo, está com credibilidade, paga em dia, construiu uma arena, tem projeto, tudo isso vai para o mercado."

A Arena
"A Arena é uma coisa nova para todo mundo. Acho que será fantástico jogar lá, será um caldeirão, mas não sabemos como será a reação daquelas 60 mil pessoas no primeiro momento. Se o lateral, por exemplo, não tiver personalidade, vai jogar de meia. O torcedor, que migrou para a Arena, ficará frustrado se o jogo contra a LDU sair de lá e ser realizado no Olímpico. É uma decisão muito complexa." 

O futebol gaúcho
"É covardia dizer que o futebol gaúcho e só pegada, porrada. Quando foram campeões, Grêmio e Inter tinham times excelentes tecnicamente. Carpegiani e Falcão jogavam pra caramba, Dinho não errava um passe, Emerson e Carlos Miguel eram muito bons. Agora, é verdade que os times daqui fungam no cangote. Craque tem que marcar. Falcão marcava. Quando chegou para treinar o Flamengo, Carpegiani nos cobrava poder de marcação. O futebol carioca, sim, é alegre, não tem muita preocupação de marcação."

A imprensa gaúcha
"Lamento não ter vindo antes para o Sul. A imprensa gaúcha cobra, questiona, o jornalista daqui vai mais fundo, talvez por serem só dois clubes. Isso é muito bom, te leva a ter um preparo melhor. Tenho um assessor em São Paulo e outro no Rio. Tudo o que sai no mundo falando em mim, eles me passam na hora."

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