Vamos aos fatos: após o gol sofrido em Quito diante da LDU, na noite de quarta-feira, com apenas 30 segundos em campo, Marcelo Grohe dormiu tarde, é claro, mas só porque goleiro é o cara que está sujeito a um drama pessoal a cada lance na área e acumula a adrenalina do jogo. Ele só perde o sono se falhar em um lance traiçoeiro.
Como não foi o caso do gol da derrota do Grêmio para a LDU, no outro dia ele circulava pelo saguão do hotel sem sinal de ter cortado os pulsos.
— Olha, nada indica que ele se abalou – depõe o repórter Luís Henrique Benfica, de Zero Hora, que acompanhou a delegação no Equador e testemunhou o dia seguinte do jogador. Mesmo sabendo que em Porto Alegre uma tempestade de críticas cairia sobre seus ombros, Grohe deixou o hotel sorrindo diante da insistência do fotógrafo Diego Vara, também de ZH, em registrar o momento de antes da volta ao Brasil.
— Abalar o Grohe não é assim — confirma o ex-goleiro Danrlei. — Ele fica triste pelo resultado, como profissional, mas não pelas críticas.
Não são muitas as reclamações, mas o que existe é bombástico. Elas partem do cronista Paulo Sant’Ana, de Zero Hora e da Rádio Gaúcha, um homem inconformado com a titularidade de Marcelo Grohe desde quando o goleiro herdou a vaga de Victor, transferido ao Atlético-MG.
O ponto alto se deu em 15 de agosto. Naquela noite o desafeto tomou dois gols da Portuguesa e o Grêmio perdeu no Olímpico por 2 a 1, pelo Brasileirão. Sant’Ana chegou do estádio e explodiu a verve contra as escorregadelas de Grohe. Desde então, o nível de censura ao goleiro jamais aliviou, como na quarta-feira. Grohe nem falhou. Ao contrário, arrojado, ele operou duas defesas antes de o meia Feraud finalizar.
— Corremos muito no segundo tempo. Acho que o lance do gol foi a única vez em que eles chegaram à frente. Não lembro de o Dida ter feito defesa antes — explica o goleiro.
De fato, o gol saiu no minuto seguinte em que o titular deixou o campo com lesão no ombro e Grohe entrou. Parace fatalidade, falta de sorte e outras subjetividades. Quando Dida desembarcou no Olímpico sem que o técnico Vanderlei Luxemburgo o comunicasse, também Grohe não esboçou reação.
— Nem chegamos a conversar (com Luxemburgo), o futebol é feito de escolhas. Da mesma forma que ele não precisa avisar quando coloca alguém, também não precisa falar quando tira. Não me senti desprestigiado. A torcida me motiva mais — discursa.
O ex-goleiro Mazaropi vê na contratação de Dida uma quebra no crescimento técnico de Grohe. Ex-goleiro do Grêmio, Remi trabalhou dois anos com Grohe e hoje o considera um dos melhores em fundamentos.
— Dificilmente toma gol defensável — diz Remi, treinador do sub-13.
Se tomar, é certo que o paciente Marcelo Grohe não vai se abalar.
A opinião de ex-goleiros
"Dói ouvir uma crítica, não tem como não sentir. Se não for justa, ela bate muito mais, dá depressão. Comigo foi assim. Eu passava a noite pensando no lance. Mas até agora não ouvi o Grohe protestar por algo. Ele está tratando a situação com a maior maturidade, eu não teria essa tranquilidade. Ficaria a ponto de explodir e voaria até por cima do travessão para dar a resposta em campo." (Danrlei)
"Não vi necessidade da contratação de Dida, que é indiscutível. Criou-se uma situção de abatimento ao interromper a ascensão de um goleiro jovem. O Grohe terá de construir tudo de novo. Mas agora que Dida está aí, ele (Grohe) tem de aproveitar a ocasião e sorver a experiência do companheiro." (Mazaropi)
As vantagens de cada um
A favor de Grohe, 25 anos, 1m88cm
– Reflexos apuradíssimos, de um bom goleiro jovem
– Arrojo nos lances que exigem coragem
– Técnica muito desenvolvida e em crescimento
– Frieza em situações limites
– Treinamento intensivo
A favor de Dida, 39 anos, 1m96cm
– Melhor tempo na saída do gol
– Leitura do enquadramento do corpo do atacante na hora do chute
– Leitura do pé de apoio do adversário, se vai bater com força ou colocar
– Antevisão da jogada e frieza
– Melhor postura no comando da defesa
– Maior envergadura
* Colaborou Roberto Azambuja









