Torcedores passaram a semana visitando o Olímpico em busca de recordações. Funcionários passaram a semana tentando lidar com a verdade: não restará nada além de recordações
Só se ouvia um quero-quero. Com algum esforço, também se ouvia o ruído do papel do picolé de uma menininha, sentada quieta no segundo degrau da arquibancada do Olímpico. O resto era um silêncio triste.
E havia lá dezenas de pessoas, algumas sozinhas, outras em família. Não tinha jogo no gramado _ só um cortador de grama estacionado sob o sol violento da tarde, enquanto aquela reunião de gremistas, na arquibancada, registrava calada suas últimas impressões de um estádio moribundo.
Era recém segunda-feira, mas a semana toda _ a última semana antes do último jogo da história do Olímpico _ seria assim. Torcedores entravam quietos, fotografavam o estádio, fotografavam a si próprios dentro do estádio, depois ficavam 20 ou 30 minutos fitando o campo e saíam de cabeça baixa, em um protocolo quase fúnebre.
_ Só agora a gente presta atenção em detalhes que nunca tinha percebido. Eu nunca tinha visto essas pedrinhas coloridas nos bancos de concreto _ suspirava a professora Dalila Gertz, 54 anos, enquanto o filho Jeferson, de 31, procurava entre as arquibancadas uma pedra solta, uma lasca de chão, qualquer pedaço de Olímpico para levar de recordação.
E bem nessa hora a diretora do memorial do Grêmio, Ema Coelho de Souza, 75 anos, deixava uma reunião no Departamento de Patrimônio do clube. Abraçada em uma pastinha, dona Ema foi costeando os fundos do estádio para retornar à sua sala, mas avistou o campo iluminado pelo sol, percebeu as goleiras reluzindo e parou. E aí chorou.
_ Eu trabalho há 29 anos aqui, meu filho _ ela dizia apertando as mãos. _ Eu agora vejo o nosso estádio, tão bonito, e me lembro de tanta coisa: me lembro dos gols do André Catimba, do Renato, me lembro daquele Gre-Nal dos 4 a 0 em 1968.
Dona Ema e o memorial serão transferidos para a Arena. Mas nem todos os funcionários têm destino certo, embora o Grêmio já tenha sinalizado que pretende aproveitar a maioria deles na nova sede _ ou no centro de treinamentos em Eldorado do Sul, talvez na escolinha do clube no bairro Cristal. Sílvio Vargas de Oliveira, chefe da manutenção, tem 65 anos e trabalha há 40 no Olímpico, onde começou como segurança e depois foi porteiro. Ele diz:
_ Eu tento passar tranquilidade para todo mundo, mas a nossa mente não quer aceitar. As pessoas estão preocupadas, sim. Esse estádio, como vou explicar?, esse estádio é como alguém da família que está nos deixando.
É bom esclarecer que ninguém _ nem Vargas, nem dona Ema, nem torcedor nenhum _ nega que a Arena será o mais espetacular dos abrigos para quem gosta do Grêmio. Mas imagine, por exemplo, um gremista fanático que acorda todo dia olhando para aquele bandeirão imponente do Olímpico? Na terça-feira, Fábio Marques, um porteiro de 35 anos, foi ao estádio com a namorada Samuara despedir-se do vizinho preferido.
Porque todo dia Fábio desce os morros da Glória, onde mora, sorrindo enquanto admira a casa do Grêmio. E dentro da própria casa, quando o preço alto do ingresso o impede de comparecer às partidas, ele consegue ouvir os fogos e a gritaria da torcida, além de enxergar a luz dos refletores que iluminam o time.
_ Dói ver o fim do Olímpico, cara. Dói mesmo. Mas agora até pretendo reservar um dinheiro e virar sócio. Porque a Arena vai lotar sempre, e eu preciso estar lá _ Fábio prevê.
É provável que o mais jovem visitante dessa última semana antes do último jogo da história do Olímpico fosse Davi Lucas Carvalho, um bebezinho de dois meses.
_ Viemos de Guaíba só para tirar fotos com ele. Quando ficar grandão, o Davi vai poder contar que esteve aqui _ sorriu a mãe, Daniela Amador, 21 anos.
_ Pena que ele nunca vai ver um jogo no Olímpico _ lamentou o pai, Jonathan, para depois repensar: _ Mas a Arena é bem mais perto de casa. O piá vai ser fanático.
Nos bares, tristeza e esperança
O clima de velório também se estendia para as imediações do Olímpico na última semana.
É nas ruas adjacentes ao estádio que comerciantes se amontoam há anos mirando torcedores como público-alvo. Quem frequenta o Olímpico conhece, por exemplo, o boteco Preliminar, tradicional ponto de encontro da torcida gremista na esquina das ruas José de Alencar e Santa Cecília.
_ Minha vida é isso aqui: é o bar, é o Grêmio, é a torcida _ lamentava o proprietário Edenilson Davi, o Faísca, que vem tentando sem sucesso levar o Preliminar para o entorno da Arena.
A Secretaria Municipal da Produção, Indústria e Comércio (Smic) tem evitado conceder alvarás antes que os empreendimentos previstos para a região da Arena se estabeleçam. Faísca chegou a propor à Smic um Preliminar móvel, com o bar funcionando dentro de um ônibus, mas a ideia não vingou.
Enquanto ele lastima o fim do Olímpico, a gerente do Petiskão _ na Avenida da Azenha, esquina com a Rua Afonso Pena _, Traicy de Souza, até comemora. Diz que o o shopping e as torres previstas para substituir o estádio vão qualificar o público da região, além de garantir mais gente circulando na área a semana inteira, não só em dias de jogos. E prevê para logo uma reforma para dobrar o bar de tamanho:
_ Vamos fazer a frente do bar toda envidraçada. E isso seria impossível se o Olímpico permanecesse: na primeira briga, na primeira pedra que voasse, quebraria tudo. É desgastante trabalhar em dia de jogo. O pessoal bebe e se chapa demais.
10 mil itens vão a leilão
No próximo dia 11, o Grêmio vai lançar o projeto Meu Pedaço de Olímpico, uma série de leilões que envolverá cerca de 10 mil itens _ entre quadros, placas, mesas, tapetes, pôsteres, bandeiras, luminárias _ hoje espalhados pelo estádio. Qualquer torcedor poderá participar dos leilões, por meio de um site ou nos eventos que ocorrerão no Olímpico.
_ Também colocaremos à venda, e aí não serão leilões, pedaços do gramado, azulejos e cadeiras do anel superior. Esse projeto vai se chamar Olímpico Eterno _ diz o diretor executivo de Marketing do Grêmio, Paulo César Verardi.
Grêmio fica no estádio até março
Embora o último grande evento programado para o Olímpico seja o show da cantora Madonna, em 9 de dezembro, o Grêmio só deixará o estádio em definitivo em março. É quando estará pronto o centro de treinamentos da Arena. Até lá, o time seguirá treinando no gramado suplementar do velho Monumental.
Implosão será em maio de 2013
Oito torres residenciais, três prédios comerciais e um shopping center estão previstos para a área que o Olímpico ocupou por 58 anos, no bairro Azenha. A implosão do estádio deve ocorrer em maio, no máximo em junho de 2013.
Diretor de Desenvolvimento da construtora OAS, Carlos Eduardo Barreto adianta que o empreendimento será construído em torno de um grande bulevar _ e que o centro de compras será um pouco maior que o Moinhos Shopping, situado no bairro Moinhos de Vento.
_ Não vamos construir tudo ao mesmo tempo. As edificações devem começar por duas torres residenciais e uma comercial, com lançamento ao mercado até julho do ano que vem _ afirma Barreto.









