O início01/12/2012 | 15h31

David Coimbra: Aquela tarde de 1954

Em jogo entre Grêmio e Nacional-URU, Olímpico fez sua estreia há 58 anos

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David Coimbra: Aquela tarde de 1954 Ronaldo Bernardi/Agencia RBS
Estádio completou 58 anos neste ano Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

Coube ao lateral-direito Orli a honra de ser o primeiro jogador a pisar no gramado do Olímpico. Neste domingo de Gre-Nal, caberá a Elano, entre outros, a honra de serem os últimos. No dia do derradeiro jogo na casa gremista, Zero Hora conta a história e histórias do estádio de 58 anos.

Os outros jogadores do Grêmio chamavam Orli de "O Padre". Porque era um católico ardoroso, assíduo de missas. Foi o seu pé piedoso o primeiro calçado com botina de jogo a ferir a grama do Olímpico, na história quase sexagenária do estádio. Era a tarde de 19 de setembro de 1954, o dia da inauguração da casa do Grêmio. Ainda no vestiário, Orli avisou os companheiros:

_ Vou ser o primeiro a pisar nesta grama!

_ Mas ele não tinha nenhuma intenção de fazer alguma façanha, não tinha intenção de entrar para a história, nada assim. Era só uma brincadeira entre jogadores, do tipo que se faz todos os dias durante o treino _ lembra Milton Kuelle, 79 anos, o meia-direita do time que jogou a primeira partida do Olímpico, contra o Nacional do Uruguai, e que, escalado para o jogo festivo da nova casa tricolor, no Humaitá, se transformará no único jogador gremista a ter atuado nos três estádios: Baixada, Olímpico e Arena.

Orli era lateral-direito, mas, naquele dia, jogou na esquerda. Era um tipo retaco, de pouco mais de 1m70cm de altura, duro na marcação.

_ Ele chegava forte _ diz Milton.

Talvez tenha sido uma de suas fortes chegadas que motivou a fúria dos uruguaios no fim da partida, vencida pelo Grêmio por 2 a 0. Quando o árbitro Arthur Vilarinho soprou o apito pela última vez, Waldemar Gonzalez saiu correndo atrás de Orli com intenções claramente inamistosas. Orli, então, fez o que qualquer homem sensato faria em seu lugar: correu. Zuniu em direção à segurança do vestiário, gesto que seria repetido 22 anos depois pelo grande Roberto Rivellino, por coincidência depois de um jogo contra uruguaios.

Nos anos 1970, quando Rivellino escapou da ira de Sergio Ramirez, o Uruguai já estava deixando de ser a "Suíça sul-americana", como era conhecido nos anos 1950, em que Orli pôs-se a salvo da ferocidade de Waldemar Gonzalez. Na época, o Uruguai era o país mais avançado do lado de baixo do Equador, com uma democracia sólida e leis sociais abrangentes. No Uruguai, a lei do divórcio existe desde 1907, quatro anos depois de o Grêmio ter sido fundado. No Brasil, só foi aprovada na época em que Rivellino fugiu de Ramirez.

O Rio Grande do Sul também era mais avançado no tempo em que o Olímpico foi inaugurado. O Estado tinha 478 mil alunos e 18 mil professores, mais do que o Rio, perdendo apenas para São Paulo e Minas. Era o maior exportador do país, com um volume quase duas vezes superior ao de São Paulo. E só São Paulo superava o Rio Grande no número de indústrias _ eram 13.800 na terra de Ademar de Barros contra 4.500 na de João Goulart. A população do Estado era de 4 milhões e 600 mil, pouco menos da metade de São Paulo, com seus 10 milhões e 300 mil _ hoje, São Paulo tem mais de quatro vezes a população do Rio Grande do Sul.

Não era de se espantar, portanto, que um clube gaúcho construísse o maior estádio particular do Brasil. Naqueles dias de setembro, o Olímpico era o orgulho do Estado. Os gremistas quase nem lembravam que, havia pouquíssimo tempo, em 24 de agosto, o presidente Getúlio Vargas se suicidara com um tiro no coração. A política brasileira trepidava e fremia. O todo-poderoso proprietário dos Diários Associados, Assis Chateaubriand, ao ser informado da morte de Getúlio, refletiu por alguns momentos e declarou, para espanto dos circundantes:

– Vou me candidatar à vaga dele na Academia Brasileira de Letras.

Como os gremistas, o Chatô estava mais preocupado com seus próprios assuntos. Outro tema que o afligia era a eleição que ocorreria em outubro, quando ele tentaria a reeleição para senador da Paraíba, onde ele não ia jamais, nem para fazer campanha. Foi, na verdade, uma única vez, levando um caixote para fazer discursos incompreensíveis para os matutos do interior que o ouviam. Em Currais Novos, por exemplo, Chatô bradou para uma plateia boquiaberta:

_ Vós tendes uma semelhança com O Contrato Social, de Rousseau!

Não se elegeu, é claro, e mais tarde se queixou:

_ Eu não podia mesmo ser escolhido senador por uma gente cretina, ingrata e atrasada como aquela!

No dia em que o Olímpico foi inaugurado, Chatô escrevia um artigo debaixo do título "O comunismo e a UDN", denunciando essa estranha (e imaginária) associação para derrotá-lo na Paraíba. O comunismo assustava, naqueles tempos de Guerra Fria. Em julho, o Vietnã seria dividido em dois numa conferência de paz em Genebra. E, nos Estados Unidos, o senador Joseph McCarthy, o perseguidor dos comunistas e pseudocomunistas, só seria desmoralizado pelo Senado em dezembro. A ameaça de conflito nuclear era real e, se fosse concretizada, seria a terceira e última guerra mundial, simplesmente porque, depois dela, não existiria mais ninguém para guerrear.

O mundo era perigoso nos anos 1950, mas quem se importava com isso em Porto Alegre? A capital de todos os gaúchos era uma cidade com pouco mais de 400 mil habitantes e em desembaraçado crescimento, de arquitetura de talhe europeu e vida relativamente calma. Crimes havia, sempre houve, mas nada parecido com a atividade organizada e profissional do século 21. Na véspera do jogo entre Grêmio e Nacional, por exemplo, a Folha da Tarde noticiou com algum alarde:

"Esposa infiel foi esfaqueada pelo marido".

A seguir, o texto informava no típico estilo "lavou sua honra": "Um homem revoltado com o procedimento leviano da sua esposa, que pela segunda vez abandonou o lar em busca de aventuras amorosas, resolveu eliminar aquela que tanto o humilhava".

E dois dias antes da partida, quando o cimento de alguns trechos de arquibancada do Olímpico ainda secava, o jornal gritou:

"Atropelada e ferida por automóvel".

Na sequência, um pormenorizado texto relatou que Odília Stinbecker, "branca, brasileira, casada, que emprega suas atividades na Indústria Fracalanza" havia sido atropelada na esquina da Ramiro com a Farrapos às 7h30min.

Numa manhã de outubro de 2012, poucos meses antes da implosão do Olímpico, o repórter de trânsito Mauro Saraiva Jr registrou que, em cinco horas, ocorreram 30 acidentes em Porto Alegre.

Mas no dia da inauguração, aí sim, o trânsito se complicou. Quinze ônibus desceram a Serra com gremistas de Caxias e Bento que vieram contemplar o novo estádio. Carros se perfilaram no alto morro do cemitério e seus ocupantes sentaram-se no capô para assistir à festa. Quem não tinha carro, subia nas árvores do entorno. Para ver aquele jogo, só mesmo indo ao Olímpico. A TV não transmitiria a partida, simplesmente porque não existia TV no Estado. A primeira TV do Brasil havia sido lançada por Chateaubriand exatamente quatro anos e um dia antes da inauguração do Olímpico. A primeira do Rio Grande do Sul seria lançada um ano depois.

Para se divertir, os porto-alegrenses iam à Casa Zenith e adquiriam seus toca-discos cobra-matic, o único com "duas inovações revolucionárias": o regulador de velocidade e o estroboscópio. Naquele fim de semana, quem não gostava de futebol podia ligar a Rádio Gaúcha e ouvir a grande atração, a voz maviosa de Ivon Curi entoando seus maiores sucessos como João Bobo ou O Xote das Meninas, ou, quem sabe, podia ir aos cines Victória, Eldorado ou Oásis para assistir a voluptuosa Virginia Mayo em Vivendo sem Amor.

Mas é evidente que a cidade estava mobilizada, mesmo, era para o jogo. Até o comércio local se alvoroçou. A Casa Magnum ofereceu uma artística faca de prata "para quem marcar o último tento" do amistoso. E a Casa Excelsior decidiu dar "uma fina medalha" para o autor do último tento. Vítor ganhou os dois prêmios. Mas Vítor só pisaria na grama do Olímpico na segunda etapa, quando substituiu Camacho. O primeiro jogador a entrar naquele gramado foi, realmente, Orli. Depois é que viriam Tesourinha, Ênio Rodrigues, Sérgio Moacir, Milton Kuelle. E, mais tarde, Aírton, Juarez, Vieira, Gessy. E também Alcindo, Joãozinho, Everaldo. E Ancheta e Tarciso e Iúra e Tadeu Ricci e Oberdan e André Catimba e Paulo Isidoro e Baltazar e Leão e Valdo e Cristóvão e Renato Portaluppi e Paulo César Caju e De León e Jardel e Paulo Nunes e Carlos Miguel e Danrlei e Elano e Zé Roberto e tantos, tantos mais, uns craques, outros apenas ótimos, inúmeros bons e muito bons, e houve até os precários, claro que houve, sempre há, mas nenhum, nenhum deles, antes de Orli, o Padre.

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