Crônica do adeus02/12/2012 | 23h06

Com emoção e homenagens, gremistas se despedem do Estádio Olímpico

Gre-Nal que encerrou a história da casa tricolor foi marcado por manifestações comoventes de torcedores

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Com emoção e homenagens, gremistas se despedem do Estádio Olímpico Mateus Bruxel/Agencia RBS
Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Entre os mais de 40 mil gremistas que neste domingo se amontoavam no Olímpico, um anseio coletivo atravessava todos os setores do estádio.

De cada arquibancada e cada cadeira brotava uma sofreguidão meio animalesca, um ímpeto de prestar uma homenagem barulhenta, uma sede de construir um espetáculo de gritaria que entrasse para a história do Grêmio — porque aquele era o último jogo da história do Olímpico —, e toda essa gana de berrar foi resumida aos dois minutos do segundo tempo, quando o anel superior e as sociais gritaram "Grêêêmiooo, Grêêêmiooo", enquanto a Geral puxou aquela música mandando os colorados fazerem coisas que, enfim, você pode imaginar.

Regida pela Geral, a torcida do Grêmio sempre cantou em uníssono. Neste domingo, não: a cada 10 passos havia um gato pingado puxando música. Todos queriam participar com maior relevância, com alguma liderança, daquele Gre-Nal histórico, daquele Gre-Nal que enterrou 58 anos de uma intensa vida desfrutada pelo Olímpico.
— Vamos gritar, gritem, vamos gritar! É o último jogo do Monumental, vamos gritar! — exigia um rapaz no setor das cadeiras, área que habitualmente era a mais sossegada do estádio.


Foto: Mateus Bruxel

Mesmo quem, por algum motivo, não podia rugir com a fúria dos pulmões da maioria, mesmo esses encontravam suas formas de reverência. Luiz Alberto Ibarra, por exemplo, um jornalista aposentado de 82 anos. Acompanhado da mulher, a professora Suely, de 79, seu Luiz segurava com vaidade uma sacolinha de súper. Porque dentro da sacolinha havia uma foto ampliada e enquadrada com moldura — que normalmente fica na sala de casa, no meio da biblioteca, mas ontem seu Luiz quis levá-la para o Olímpico —, exibindo o casal nas obras do estádio, em 1953. Ele aparece de bigode garboso, ela de vestido muito pudico.

— Cheguei a fazer promessa para que mudassem de ideia, para que o Grêmio continuasse no Olímpico. Não fui atendida — dona Suely baixou os olhos.
A essa altura, a torcida inteira do Grêmio já se coordenava cantando, unissonante, a música do "dá-lhe ô, dá-lhe ô, dá-lhe Grêmio, dá-lhe ô". Um dos 40 mil que berravam era o corretor de imóveis Vinicius Ceroni, 35 anos, chorando por trás dos óculos escuros. Antes do jogo, Ceroni saiu de carro do bairro Agronomia, onde mora com a mulher, Fabiana, e dirigiu até a casa onde viveu por 25 anos no bairro Santana.

— Eu fazia a pé esse trajeto do Santana até o estádio. Fiz isso por 25 anos, cara, 25 anos. E eu precisava fazer esse trajeto pela última vez — suspirava o corretor, as lágrimas já lhe escapando queixo abaixo.

Outro que chorava sem pausa era um vendedor de picolé que, era de se compreender, não quis revelar seu nome. É que todos os picolés se transformaram em uma pasta derretida, repelente e amarronzada — simplesmente porque o vendedor, entretido com a importância histórica do Gre-Nal, não repôs o gelo do isopor. E, se o sol de ontem fazia as arquibancadas arderem, imagine o que fazia com um picolé. Com a caixa abandonada no chão, ele até se justificava:

— Na boa, esse é o último jogo. Eu perco o dinheiro, mas não perco um gol.

Só que gol nenhum saiu. E o último jogo da história do Olímpico terminou em 0 a 0. Mas mesmo assim, se as paredes do estádio falassem, se cada pedaço de pedra abrisse a boca para uma última palavra, provavelmente sairia uma variação do que disse o goleiro Mazaropi em 1983, quando o Grêmio venceu a Libertadores contra o Peñarol ali mesmo, nada muito diferente do que outros tantos jogadores disseram outras tantas vezes:

— Eu quero agradecer a essa massa, a essa torcida que sempre esteve aqui. Obrigado, gremistas. Muito obrigado!

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