Entrevista exclusiva03/11/2012 | 16h08

Odone se prepara para a despedida: "Não fico com mágoa ou rancor"

Presidente elabora discurso para inauguração da Arena e não descarta voltar no futuro

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Odone se prepara para a despedida: "Não fico com mágoa ou rancor" Diego Vara/Agencia RBS
Paulo Odone recebeu a reportagem de Zero Hora em seu gabinete no Olímpico, de onde se despede no fim do ano Foto: Diego Vara / Agencia RBS
Luís Henrique Benfica

luis.benfica@zerohora.com.br

São 15h40min de quinta-feira. De terno e gravata, Paulo Odone desce de seu carro no Olímpico, cumprimenta o segurança Sandro e, mesmo que precise subir apenas um andar para chegar ao corredor de acesso ao seu gabinete, opta por tomar o elevador.

– Meu joelho direito está estourado. É de tanto subir e descer escada na Arena – explica à reportagem de Zero Hora.

É possível que a palavra Arena seja a mais citada por Odone a cada dia. Ele chega a ter pesadelos, imagina que irá engasgar no discurso de inauguração. Com abertura prevista para o dia 8 de dezembro, a obra virou obsessão para o dirigente nos últimos quatro anos, desde que o Conselho Deliberativo aprovou o contrato com a construtora OAS. Curiosamente, a construção teve início na gestão de seu sucessor, Duda Kroeff, em setembro de 2010. Eleito naquele mesmo ano, o atual presidente testemunhou a aceleração dos trabalhos, que serão encerrados antes de março de 2013, o prazo original.

– Imagina se o Grêmio não constrói a Arena? O Inter sediando uma Copa do Mundo, remodelando seu estádio e nós aqui na Azenha, fazendo as coisas à meia-boca. O Grêmio ficaria uma década atrasados – avalia Odone.

Nos próximos dias, ele irá a Brasília convidar a presidente Dilma Rousseff para a inauguração. Será um de seus últimos atos formais no cargo, que, em dezembro, irá repassar ao sucessor Fábio Koff. Entregar aos gremistas a mais moderna Arena da América Latina serve para ele como consolo por não poder sentar na cadeira presidencial nos dois primeiros anos de vida da nova casa. O sonho de uma volta no futuro não é de todo descartado.

ZH _ Em que momento caiu a ficha da derrota para Fábio Koff?
Paulo Odone
_ Eu já esperava a derrota, sabia dois, três dias antes. Só um milagre mudaria as coisas. Não há chance de concorrer contra essa coisa da paixão, da esperança. Tanto que o Fábio começou falando em projeto, equipe de empresários e logo arquivou isso e passou a falar em tri da América e bi do mundo, o argumento dele passou a ser o futebol. Quem entendeu que o Grêmio se organizou nesses últimos anos, ficou comigo.

ZH _ Odone vira um oposicionista a partir de 1º de janeiro de 2013?
Paulo Odone
_ Eu não vou estar na situação, mas estou muito antigo para vir ao Conselho fazer discurso de oposição. Vou acompanhar a vida do Grêmio. Quero que a Arena inaugure uma nova era, vou torcer para acontecer. Vou assistir aos jogos com meu neto João. Ele tem quatro anos e já anda fardado de camiseta (mostra a foto do menino no celular).

ZH _ Pretende voltar a concorrer a presidente algum dia?
Paulo Odone
_ Não pretendo concorrer mais. Me sentir protagonista da história do Grêmio já é muito. Mas ninguém sabe o que é o futuro. O Grêmio tinha que fazer surgirem novas lideranças.

Zero Hora _ Como estão sendo os últimos dias de presidente?
Paulo Odone
_ Usei a seguinte expressão para a minha mulher: eu estou pacificado. Já andava saturado a esta altura do campeonato, jogos às quartas, quintas, sábados, domingos. Você mata um leão aqui e tem outro ali. Se não ganhar por 3 a 0 de um time considerado fraco, o pau come. Ganhamos de 1 a 0 do Millonarios e disseram no rádio que o time está patinando. Se ganhar, não fez mais do que obrigação. Se perder, é tragédia,

ZH _ Presidente de clube não pode fazer feriadão ...
Paulo Odone
_ Minha mulher perguntou: vamos para a fazenda (em Itacurubi, perto de São Borja)? Respondi: mas como eu não vou estar aqui no sábado (dia do jogo contra a Ponte Preta)? E se ocorre um desastre? Na hora, irão perguntar onde eu andava, que eu perdi a eleição e fui embora para Itacurubi. Então, não posso ir com a minha mulher. Sob esse aspecto, a qualidade de vida de um presidente vai lá para baixo. Você fica muito atado a isto aqui. Pelo menos, vou deixar de ter essa carga.

ZH _ Do que sentirá falta?
Paulo Odone
_ Vou sentir falta dessa zoada do dia a dia, desse agito. Com exceção de terça-feira, em que tenho Ordem do Dia e votação na Assembleia, vinha todos os dias, passava o dia aqui. Eu gosto disso, dessa rotina eu sentirei falta. Tenho que substituí-la pela roda de amigos. Estarei mais frouxo em dia de jogos, despido de tensão e adrenalina.

ZH _ Não fica um sentimento de frustração por ter sido o presidente que construiu a Arena e estar fora do clube no início das atividades?
Paulo Odone
_ Frustrado? Não, não, não. Vou inaugurar a Arena. Não preciso dizer que sou o dono dela. Insisto que a Arena foi construída pelo Grêmio. Tenho consciência do que ela representa para os gremistas. O cara entra lá e fica impressionado.

ZH _ O ex-presidente Hélio Dourado (responsável pela remodelação do Olímpico) já visitou a obra?
Paulo Odone
_ Ainda não. Fico triste. Ele diz que o Grêmio terminou para ele. Retruquei que haverá um memorial do Olímpico na Arena, disse que ele cortaria a fita inaugural comigo, mas ficou irredutível. Sei de pessoas que eram contra e têm medo de entrar lá e sair emocionadas, apaixonadas.

ZH _ O senhor acha que, daqui a 30 anos, os torcedores irão lembrar que ela foi construída em sua gestão?
Paulo Odone
_ Isso vai ficar marcado, é inevitável. Foi uma luta muito grande. A imensa maioria achava que era um sonho, uma fantasia, algo muito pretensioso. No começo, eu disse para o Antonini (Eduardo, presidente da Grêmio Empreendimentos): nós somos loucos de propor isso. Acho que, no futuro, vão lembrar desses malucos que fizeram isso. Essa expectativa eu tenho, sim. Quero ter um pouco da paternidade da Arena.

ZH _ O senhor tem a pretensão de que a obra o coloque na galeria dos grandes presidentes do clube?
Paulo Odone
_ Entro na lista dos protagonistas da vida do Grêmio. Isso é uma honra, gratifica, chega. Me tira a frustração de não ser o presidente nos dois primeiros anos. As pessoas me encontram e dizem que isso é uma injustiça, uma barbaridade, ficam solidárias a todo lugar onde vou, dizem que eu tinha que ser o presidente. Não sinto injustiça. Mas vou guardar comigo o que as pessoas estão falando. Até quem votou em Koff diz que tem respeito e admiração por mim. Sinceramente, não fico com mágoa, ranço, rancor.

ZH _ Fica incomodado por sair sem um grande título?
Paulo Odone
_ Dos tais 11 anos sem títulos, eu fui presidente em cinco. No primeiro ano, eu tive o título que era possível, campeão da Série B. Tive uma final de Libertadores (2007). Em outro ano (2008), quase uma final de Brasileiro. Foi tudo quase, mas era um milagre em face da situação que estávamos vivendo. Nos dois últimos anos, tive um time que não fui eu que idealizei. Em 2011, tivemos um ano perdido em matéria de vitória no futebol. Este ano, com Luxemburgo, começamos a mudar a fotografia do time.

ZH _ O senhor não gostava de Renato Portaluppi?
Paulo Odone
_ Isso é uma coisa incrível, as pessoas começaram a dizer isso. É um equívoco enorme. Disse à minha direção que se ficássemos com Renato, teríamos que turbiná-lo, dar todo o respaldo a ele. Passei o tempo todo fazendo isso, eu o chamava no meu quarto para conversar sobre contratação. Mas, quando começamos a perder, temi ir para a segunda divisão.

ZH _ O senhor o demitiu ou ele pediu para sair?
Paulo Odone
_ Ele pediu demissão. Eu estava sentado na sala dos médicos, veio o Vicente (Antônio Vicente Martins, ex-vice de futebol), dizendo que Renato não tirava mais suco do time, que estava fora, que pedia demissão. Achei que era uma decisão de bom senso. Aí, dei entrevista dizendo que ele tinha pedido demissão. Não sei se ele se arrependeu no outro dia.

ZH _ Vai chorar na despedida do cargo?
Paulo Odone
_ Na despedida, nenhum choro. Vou me emocionar no dia da inauguração da Arena. Às vezes, tenho pesadelos de que estou falando um negócio lá dentro, me engasgo, fico agoniado. Se me emociono dormindo, imagina acordado. Tenho que me condicionar, me controlar. Entro lá e fico emocionado com a Arena vazia, imagina com 60 mil pessoas, oito da noite, a penumbra, um espetáculo de som e luzes, banda dos Fuzileiros Navais. Não haverá discurso. Vou falar no máximo três minutos. Sei que, se tiver discurso, tem vaia.

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