Do mundo14/01/2012 | 16h03

Babel do Gauchão: Competição tem 13 jogadores de outras nacionalidades

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O Campeonato Gaúcho ganhou o mundo. Ou foi o mundo quem veio ao Rio Grande. O Gauchão, que começa nessa quarta-feira, com o Novo Hamburgo recebendo o Inter dos argentinos Guiñazu, o decano dos gringos do Estado, iniciando a sua sexta temporada por aqui, D'Alessandro e Bolatti, nunca viu tantos jogadores de outras nacionalidades em campo. Aos colorados se somarão outros 10 estrangeiros. Distribuídos em outros seis clubes, mais dois argentinos, Miralles (Grêmio) e Maidana (Caxias), três uruguaios, Guly e Góngora (ambos do Pelotas) e Alejandro (São Luiz), um boliviano, Marcelo Moreno (Grêmio), um paraguaio, Nico Martínez (Juventude), dois africanos, William Barbosa, de São Tomé e Príncipe (São Luiz) e Nconco, de Guiné-Bissau (Pelotas), e um japonês, Koji Kanuka (Santa Cruz), serão atrações no campeonato.

Game: tente identificar as vozes dos jogadores estrangeiros do Gauchão

Guly, o atacante uruguaio do Pelotas, é um trota mundo. Aos 33 anos, o irmão mais velho e menos famoso de Cavani, do Napoli, já defendeu os dois grandes de Montevidéu, Nacional e Peñarol, rodou pelo Inter Baku, do Azerbaijão, e estava no Guarani, do Paraguai. A força do real, o aumento de receita dos clubes do Interior, salários maiores que os de Assunção, e a vitrina do Gauchão para as demais praças do Brasil, seduziram o uruguaio a jogar na Boca do Lobo. Mudou-se com a mulher e as filhas, Florencia, de oito anos, e Fernanda, cinco.

— Jogar no Brasil é a realização de um sonho. Quero muito jogar contra Grêmio e Inter. Minha família está orgulhosa — conta Guly. — O Brasil passa por um momento econômico superior, o que também motiva estrangeiros a trabalharem aqui — acrescenta.

Africanos e japonese pelo campos do RS

Com o incremento de receitas, os clubes do Interior receberão mais de R$ 1 milhão pelo Estadual. Os salários, em média, são de R$ 6 mil a R$ 8 mil, com teto de R$ 15 mil — contra R$ 2 mil mensais pagos pela maioria dos clubes no futebol uruguaio, por exemplo. O presidente da Federação Gaúcha de Futebol, Francisco Novelletto, entende que o Rio Grande do Sul transformou-se em uma das principais portas de entradas para os jogadores estrangeiros no Brasil. Lembra que o Gauchão está entre as principais vendas de pay per view no país no primeiro semestre, emprestando ao campeonato a visibilidade necessária até mesmo para futuras transações:

— O Suéliton foi escolhido o melhor lateral-direito do Gauchão em 2011. No segundo semestre, foi contratado pelo Valladolid, da Espanha.

Atacante do Benfica, de Bissau, a capital da Guiné-Bissau, Nconco, 21 anos, desembarcou no Brasil nove meses atrás. Disputaria o Brasileirão pelo Bahia, mas um atraso na documentação impediu a sua inscrição. Atuou pelo sub-23 do Bahia e, ao final da temporada, surgiu a oportunidade de um teste no Pelotas. Foi aprovado. Colônia de Portugal, Guiné-Bissau tem o português como a sua língua oficial, mas boa parte da população fala o crioulo. Funciona assim também para os registros de nascimento. Uma imposição cultural. Na carteira de identidade, Nconco chama-se Agostín Soares. A mãe, Lionor, foi registrada como Amélia Correa.

— Na minha terra, só fala o português quem estuda. Eu, falo crioulo, mas compreendo bem o que vocês dizem — relata o atacante, em um português pausado e um tanto arrastado, mas bem compreensível. — Fui muito bem recebido aqui, sinto que as pessoas gostam de mim. Ainda estou morando sozinho, em uma pensãozinha, mas quero permanecer no Brasil e vencer como jogador.

Mesmo que demonstre alguma inocência em campo, Nconco merece elogios de Carlos Gavião, ex-volante do Grêmio e técnico do Pelotas. Dono de grande força física e velocidade, o guineense tem sido exemplo para os demais jogadores.

— Nconco foi adotado pelo nosso grupo. Todos veem o esforço e a dedicação com que treina. O estrangeiro quase sempre demonstra um empenho enorme, até por necessidade de adaptação — pondera Gavião.

O Santa Cruz apostará no volante japonês Koji Kanuka para reforçar o meio-campo. Indicado para testes pelo técnico Edson Porto, que trabalhou 11 temporadas no Japão, o jogador de 22 anos e 1m81cm de altura, foi aprovado e começará o Gauchão na reserva. Kanuka atuava no Chiba, da segunda divisão nipônica, demonstra boa técnica ainda que careça de maior malandragem.

— Kanuka está se soltando agora. O sonho dele é ser um novo Kazu (atacante japonês, que atuou no Santos nos anos 90, e na seleção do Japão) — revela Edson Porto, treinador do Santa Cruz.

Fluente em japonês e em inglês, Kanuka consegue dialogar com Porto, em japonês, e com o atacante paulista Creedence, que fala inglês.

— O brasileiro adora estrangeiros. O Kanuka é querido por todos aqui — diz o treinador.

Distante 470 quilômetros da Boca do Lobo, um outro jogador africano tentará a sorte no Gauchão. Filho de uma família de nômades, o zagueiro William Barbosa, 28 anos, deixou as ilhas de São Tomé e Príncipe para cursar extensão em enfermagem, na Uniclinic, uma faculdade de Fortaleza. Era 2009. Não teve problemas de adaptação, afinal, fala português, de Portugal, pois as ilhas também foram colonizadas pelos lusitanos, mais inglês e francês, uma exigência da mãe, que obrigou os filhos a conhecerem as línguas. Hoje, eles estão espalhados pelo mundo: a irmã professora, Ana Cristina, mora na Bélgica, o irmão mecânico de aviação Élder, em Luxemburgo, Nelson, trabalha em computação na Espanha, Osvaldo, que esteve na equipe de atletismo nos Jogos de Atlanta, é segurança em Portugal, e Hamilton estudou engenharia naval na Ucrânia e é o único irmão que vive em São Tomé e Príncipe.

Misto de Márcio Tigrão com Somália, dono de 1m88cm de altura, ainda em 2009, William foi convidado a pegar a zaga no Uniclinic (além de faculdade, um time de futebol profissional). A enfermagem ficou para trás e o futebol se transformou em profissão. Ainda passou por Horizonte (CE), o time de Siloé, ex-Inter, ainda que não tenham atuado juntos, e Santa Quitéria (MA), antes de ser oferecido ao São Luiz por um empresário. Da universidade, William levou Lise, que cursava Direito, e se tornou sua mulher e mãe de seu filho, Joel, de quatro meses.

— A torcida adora o William. Cada vez que ele dá um balão e manda a bola para fora do estádio, nossos torcedores vão à loucura — conta Delmar Blatt, vice de futebol do São Luiz.

A aposta nos gringos é, sobretudo, uma redução nas despesas. Como vêm de mercados economicamente menores que o brasileiro, custam menos que os jogadores nacionais. Ao ser informado sobre o Gauchão, William logo apresentou armas. Gostou do que ouviu, as histórias de jogos aguerridos e com disputas renhidas, e comentou que se encaixaria direitinho no espírito do campeonato:

— Desde cedo aprendi que se a bola passar, o atacante não passa. Admiro o estilo de futebol do Nenê, do Vasco. Espero que vocês, gaúchos, também gostem do meu jogo — diz o esperançoso africano de Ijuí.

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  • blogdozini

    blogdozini

    luiz zini piresVitória do Chelsea foi legal. Há quem ache que futebol é só o do Barca. Não. Futebol é, antes de tudo, competição. Não é concurso de belezahá 6 horas Retweet
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