Se São Pedro – padroeiro do Rio Grande do Sul – ajudar, o Estado poderá se beneficiar do atual cenário de dificuldades com a soja no Centro-Oeste e na Argentina. Mas, para que isso ocorra, é essencial que chova nas regiões produtoras nos próximos dias.
De acordo com os meteorologistas consultados por Zero Hora, o volume de chuva em solo rio-grandense deverá ficar na média para o período em fevereiro, mês decisivo para a safra. Entretanto, as precipitações devem se tornar mais regulares e consistentes somente a partir do começo da segunda quinzena.
– É muito bem-vindo. Poderemos ter algumas dificuldades pontuais, mas, de forma geral, se há previsão de que o volume de chuva se restabeleça, significa uma perspectiva razoável para a soja – avalia o engenheiro agrônomo Alencar Rugeri, técnico da Emater.
O especialista, porém, mantém uma ponta de receio em relação ao que pode acontecer na próxima semana. Nesse período, as previsões meteorológicas apontam apenas pancadas isoladas no Estado, o que, segundo Rugeri, pode não ser suficiente para garantir a integridade da safra.
– O problema são os próximos dias. Tem de ocorrer alguma chuva nesse período – pondera.
Na Argentina, terceiro maior produtor mundial de soja, a falta de chuva derrubou a estimativa de safra de 55 milhões para 52 milhões de toneladas. No Centro-Oeste, carro-chefe da produção brasileira (o país é o segundo maior produtor mundial, atrás só dos EUA), o problema é o oposto: o excesso de umidade. Em algumas cidades, como Cristalina (GO) e Mutum (MT), foram registrados mais de 400 milímetros de chuva em janeiro, cerca de 25% acima da média para o período, o que derrubou a produtividade em cerca de 30% em algumas propriedades.
Em razão das incertezas sobre o clima e a produção na América Latina, os contratos futuros da soja negociados na Bolsa de Mercadorias de Chicago vêm registrando altas consecutivas nas últimas semanas. Conforme o consultor Carlos Cogo, o preço do grão chegou a subir quase US$ 1,50 por bushel nos últimos 45 dias, especialmente devido à preocupação com a questão argentina. Nesta sexta-feira, os contratos da soja em grão com vencimento em março fecharam em US$ 14,52.
E relatório divulgado pelo Departamento de Agricultura dos EUA projeta alta na produção brasileira de soja, de 82,5 milhões para 83,5 milhões de toneladas, e revisa para baixo o desempenho global, de 269,5 milhões para 269,41 milhões de toneladas.
Preço poderá ficar ainda mais atraente ao produtor
Com tudo isso, a previsão de um volume de chuva consistente para fevereiro, mantendo as condições próximas do ideal, oferece boas perspectivas para os sojicultores gaúchos. Sem queda da produção no Estado e com o menor volume do grão no mercado em razão dos problemas na Argentina e no Centro-Oeste, a tendência é de que, além de garantir espaço no mercado externo, a soja gaúcha possa alcançar melhor patamar de preço. Mas tudo depende de São Pedro.
Conforme o meteorologista Fábio Rocha, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos a previsão para fevereiro "indica condições favoráveis à ocorrência de chuva acima da média" em toda a Região Sul.
Os meteorologistas Flávia Matioli, da Somar Meteorologia, e Glauco Freitas, da Fepagro, engrossam o coro e garantem: na segunda quinzena, os prognósticos indicam um volume de chuva mais significativo no Estado. Até lá, resta aos produtores orar pelo padroeiro do Estado. A próxima semana será decisiva.
No noroeste, preocupação e perdas
O clima seco e as altas temperaturas têm preocupado os produtores de soja no Estado. A falta de chuva no momento de floração e a dificuldade no desenvolvimento das vagens podem acarretar perdas na produtividade, principalmente nas plantas cultivadas em solo raso. De acordo relatório divulgado pela Emater, 80% do total semeado no Estado está nessa situação.
Em Cruz Alta, no noroeste do Estado, após um ano de seca, a expectativa é de boa safra, porém, esse cenário só vai se confirmar se chover. As precipitações irregulares e o clima seco preocupam agricultores como Rivaldino Casarin, 50 anos, da localidade de Lajeado da Cruz. Há cerca de uma semana não chove nos 35 hectares onde cultiva soja. Se continuar nesse ritmo, as perdas serão inevitáveis
– Essa falta de chuva está preocupando a gente. Precisaria chover pelo menos cinco milímetros por dia. O que está acontecendo é que a flor e a vagem não estão se desenvolvendo. Já estimo uma perda de 15% da produtividade – afirma o agricultor.
No ano passado, Casarin colheu apenas sete sacas por hectare devido à seca que atingiu o Estado. Para esta safra, no entanto, espera colher 45 sacas por hectare. Só que o prognóstico depende de clima favorável.








