Rumos da estatal16/02/2013 | 16h02

Presidente da Petrobras tenta reconquistar investidores

Pressionada por interesses do governo, Graça Foster quer mostrar que a companhia pode transformar o pré-sal em lucro

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Presidente da Petrobras tenta reconquistar investidores Petrobras/Divulgação
No dia em que Graça Foster foi anunciada presidente da Petrobras, as ações da estatal tiveram alta de 3%, mas um ano após a posse a batalha para equilibrar decisões técnicas e políticas está longe de ser vencida Foto: Petrobras / Divulgação

A chegada de Graça Foster à presidência da Petrobras, com seu perfil técnico e fama de gerente durona e eficaz entusiasmou o mercado, que esperava menos influência política na direção da estatal. Um ano depois se constatou exatamente o contrário.

— A Graça é autoritária com os funcionários, mas submissa com os chefes. Ela deveria ser mais firme — afirma um engenheiro que já trabalhou com a executiva.

Para evitar que a inflação ganhe altitude — depois de encostar no teto em 2011 e ficar acima do centro da meta em 2012 —, o governo segurou o aumento no preço dos combustíveis, mesmo quando o barril de petróleo subia no mercado internacional.

— O fato de Guido Mantega ser, ao mesmo tempo, ministro da Fazenda e presidente do conselho da Petrobras é, no mínimo, conflitante. Quando tiver de reajustar o preço dos combustíveis, vai pensar na saúde financeira da empresa, como um conselheiro deve fazer, ou vai tentar evitar uma alta da inflação, como faz um ministro? — questiona Alessandro Barreto, da Geral Investimentos, que não aconselha mais a compra de papéis da Petrobras e os excluiu da carteira recomendada.

Embora seja presidente da estatal, Graça Foster tem de aprovar metas e investimentos no conselho de administração, presidido por Mantega, que sucedeu nessa posição ninguém menos do que a atual presidente, Dilma Rousseff.

A manutenção artificial do preço dos combustíveis resultou em uma situação incomum: a Petrobras vende combustível mais barato do que compra no mercado internacional.

— Essa diferença chega a 13% na gasolina e a 24% no diesel — afirma Barreto, da Geral Investimentos.

O reajuste de 6,6% para a gasolina e de 5,4% para o diesel no final de janeiro não foi suficiente para mudar o panorama, como admitiu a própria Graça ao comentar o lucro da Petrobras em 2012, o menor em oito anos.

— Pelo menos, ela é mais sincera que o antecessor, que tinha metas mais mirabolantes. Não há como ter metas agressivas se o caixa da empresa está constrangido — afirma Valter de Vitto, da Tendências Consultoria.

Em 2012, a empresa registrou seu primeiro prejuízo trimestral em 10 anos e viu cair a produção de petróleo em 2%. Para completar, o valor dos papéis da empresa continuam a despencar. Só durante os dois primeiros anos do governo Dilma, as ações ordinárias (com direito a voto) caíram 45,1% e as ações preferenciais (sem direito a voto) tiveram baixa de 32%.

Levantamento feito pela consultoria Economatica mostra que, em três anos, a petrolífera perdeu 40% de seu valor de mercado. A estatal valia US$ 199,3 bilhões no dia 1º de janeiro de 2010, valor que despencou para US$ 119,9 bilhões em fevereiro de 2013.

 

 

Tenho ações da petrobras, e agora?

O ano não começou fácil para quem tem ações da Petrobras. Só em 2013 o tombo foi de 9% nos papéis preferenciais (sem direito a voto) e de cerca de 18% nos ordinários. Mas especialistas aconselham a esperar a tempestade passar, mesmo que demore.

— Se você já está em alto-mar, é melhor continuar remando do que pular do barco — brinca Zulmir Tres, gestor da Sparta Assessoria de Investimentos, referindo-se àqueles que já são acionistas da Petrobras.

Marcelo Lescano, da Fence Investimentos, reforça: é melhor esperar rar as ações valorizarem de novo do que vender com prejuízo.

— Tem aquela máxima no mercado financeiro de que tudo que cai muito tende a voltar a subir. A Petrobras, apesar de todos os problemas que enfrenta, é uma empresa forte — afirma.

Lescano avalia que a ação vai voltar a se valorizar assim que a produção do pré-sal aumentar, mas isso pode levar de três a quatro anos. O conselho é o mesmo para os trabalhadores que destinaram parte do dinheiro do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para ações da Petrobras. Conforme Debora Morsch, gestora da Zenith Asset Management, mesmo com a forte queda os papéis da estatal renderam mais que o FGTS.

Paciência também é a recomendação dos especialistas para quem está pensando em aproveitar o momento de baixo preço para começar a investir.

 

Preços defasados e investimentos em xeque

Graça Foster não costuma fazer jogo de esconde-esconde com o mercado. Ao divulgar o balanço da empresa, reconheceu o desastre de 2012 e previu que resultados ainda piores podem vir em 2013. A presidente falou também da necessidade de novos reajustes no preço da gasolina e do diesel, em mais uma tentativa pública de sensibilizar o governo.

No encontro, Graça Foster considerou "difícil" a situação financeira da Petrobras. O endividamento líquido da companhia em reais aumentou 43% no último ano, saltando para

R$ 147,8 bilhões. No mesmo período, o lucro da empresa foi de 21,1 bilhões. Mais do que estrangular o caixa da empresa, a defasagem de preços e o alto endividamento colocam em risco os projetos da Petrobras. Para tentar reverter a situação, Graça Foster já anunciou que a empresa vai ser mais seletiva na escolha das áreas que pretende disputar em futuros leilões da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Uma redução de custos, que deverá atingir R$ 32 bilhões até 2016, também está na agenda.

Além disso, a executiva anunciou que pretende se desfazer de participações acionárias em algumas empresas, tanto no Brasil quanto no Exterior e vai buscar sócios para as refinarias que serão construídas no Maranhão e no Ceará. Vale tudo para reduzir os gastos sem cortar projetos.

— Comandar uma empresa do tamanho da Petrobras é como dirigir um transatlântico. Não se muda a rota de uma hora para outra. Mas Graça é a pessoa certa no lugar certo — diz Adriano Pires, sócio fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura.

O economista avalia que, se o governo diminuir a interferência na estatal e permitir que a presidente faça as mudanças necessárias, em três ou quatro anos a empresa voltará a ter credibilidade no mercado.

 

Especialistas afirmam que rumo é promissor

Apesar das críticas à interferência do governo na direção da Petrobras, os especialistas do setor ressaltam as altas taxas de produtividade nos poços de pré-sal e afirmam que o rumo da companhia é promissor.

— Mesmo com ingerência política, percebe-se uma mudança no padrão de administração da empresa depois que Graça Foster assumiu. Ela acompanha de perto os contratos e foca no cronograma de investimentos — afirma Valter de Vito, analista de Petróleo da Tendências Consultoria.

Conforme números divulgados pela estatal, para 2013 está prevista a entrada em operação de mais três plataformas no pré-sal, com capacidade total de 320 mil barris diários. A produção na camada do pré-sal, incluindo a Bacia de Campos e a de Santos, é de 230 mil barris diários, quase 12% do total da estatal, de 1,94 milhão de barris

diários. Em 2016, a previsão é que a produção no pré-sal, só com os campos já descobertos, represente 31% do total gerado no país.

Na opinião de Maurício Canêdo Pinheiro, professor e pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), o perfil técnico da presidente da estatal, que fez carreira na empresa, ajuda a valorizar os projetos certos.

— Graça dá prioridade à execução, sem deixar de lado a pesquisa e o desenvolvimento. A exploração dessas reservas do pré-sal é o principal desafio da Petrobras — afirma.

Em janeiro, a companhia fechou um contrato de US$ 500 milhões com a empresa norte-americana GE Oil & Gas para a compra de equipamentos e maquinaria para plataformas que serão utilizados na exploração das reservas do pré-sal.

Debora Morsch, gestora da Zenith Asset Management, diz que essa é uma gestão mais eficaz do ponto de vista técnico e lembra que até a sinceridade da presidente conta a favor.

— A franqueza dela traz credibilidade. Quando ela se posicionar traçando metas mais ousadas, o mercado vai acreditar — diz Debora.

 

Perfil:

Mineira sem papas na língua

Personalidade forte, jeito franco e fama de durona fazem presidente da Petrobras ser comparada a Dilma

Administradora de pulso forte, centralizadora, gerente durona, que fixa metas e cobra resultados. Uma mineira que fala o que pensa, desfazendo qualquer fama que seus conterrâneos possam ter. Lembrou alguém?

— Ela é o clone da Dilma — diz um ex-executivo da Petrobras, referindo-se a Maria das Graças Foster.

Impressão compartilhada por um engenheiro de carreira da companhia, que trabalhou alguns anos ao lado de Graça antes de ela assumir a estatal.

— A Graça mudou muito. Pegou o jeitão da Dilma quando foi trabalhar com ela — afirma.

Entre 2003 e 2005, Graça Foster foi secretária de petróleo e gás do Ministério de Minas e Energia, então comandado por Dilma Rousseff. A proximidade transformou a relação profissional das duas em amizade, incluindo a executiva na pequena lista de pessoas da total confiança da presidente Dilma.

O jeito franco e direto da mineira, característica que tanto agrada aos analistas de mercado, é o que torna a convivência com ela mais complicada.

— Dia desses, durante uma reunião, ela se virou para um funcionário, no meio de uma apresentação e mandou ele ser breve e não falar bobagens. Com um clima desses, vários bons profissionais já foram embora — conta um engenheiro da companhia.

Mas não é só o estilo incisivo e o eventual uso de palavrões que chama a atenção daqueles que convivem com Graça. A dedicação ao trabalho é uma característica reconhecida por todos, inclusive os desafetos. Casada e com dois filhos, ela já disse que sempre teve a empresa como prioridade. Mas Graça tem um outro lado.

— Não sei se ela ainda cultiva os mesmos interesses, mas quando a conheci ela gostava de meditação, falava em coisas místicas e gostava de pedras para fortalecer as energias — conta uma funcionária da Petrobras que conheceu Graça em um encontro da empresa, anos antes de ela se tornar presidente.

— Naquela época, ela não tinha nenhum cargo de chefia ainda, mas já tinha fama de durona — completa.

Mesmo com rotina atribulada, Graça reservou um espaço na agenda para participar do Carnaval carioca. Ela desfilou na Ala de Xangô, da União da Ilha, escola de samba da região onde mora, há mais de 30 anos. O time do coração também é do Rio de Janeiro, o Botafogo.

Nascida no interior de Minas Gerais, mas criada na capital fluminense, Graça viveu dos dois aos 12 anos no Morro do Adeus, hoje parte do Complexo do Alemão, onde catou lata e papel para ajudar a família. Funcionária de carreira, Graça passou mais da metade da vida trabalhando na Petrobras, fortalecendo uma relação que parecia predestinada. Em 2013, as duas completam 60 anos, a presidente em agosto e a empresa em outubro.

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