Tiro de festim05/02/2013 | 22h45

Congelamento de preço indica que Argentina teima em repetir erros

A presidente Cristina Kirchner implanta congelamento de preços, medida que se provou ineficaz para controlar a inflação

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O governo argentino decidiu adotar uma estratégia tão conhecida como ineficaz para combater a inflação, que anda cada vez mais alta: o congelamento de preços. A medida já foi adotada diversas vezes no Brasil e na própria Argentina na década de 1980.

As principais redes de supermercados se comprometeram a não alterar a etiqueta dos produtos nas prateleiras até 1º de abril. A decisão foi anunciada segunda-feira à noite pelo secretário de Comércio Interior da Argentina, Guillermo Moreno, homem de confiança de Cristina Kirchner.

– A medida tem impacto muito mais político do que econômico. A presidente está tentando reconquistar a sua base eleitoral, já de olho nas eleições (legislativas) de outubro – afirma o argentino Osvaldo Coggiola, professor da Universidade de São Paulo.

Dependendo do resultado, Cristina poderá tentar reformar a Constituição para se candidatar pela terceira vez à presidência. Assim como o Brasil no passado, não é a primeira vez que a Argentina passa por uma situação dessas. Em 1985, o Plano Austral, da equipe econômica do presidente Raúl Alfonsín, congelou os preços.

O também argentino Mario Gaspar Sacchi, professor do curso de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-SP), conta que percebeu aumento expressivo de preços nos últimos dois meses, período em que esteve na Argentina.

– Congelar não interfere na grande dispersão de preços (mesmos produtos com diferenças muito grandes de valor), que muda muito de acordo com o tamanho do estabelecimento e o local de venda – explica.

Conforme levantamento do jornal Clarín, o quilo do tomate em Buenos Aires, por exemplo, varia 60% de um mercado para outro. O mesmo ocorre com produtos como queijo e leite.

Mas há dúvidas sobre se a medida é um pacto com a Associação de Supermercados Unidos, como anunciou o governo, ou uma imposição, conforme informam os jornais argentinos Clarín e La Nación. Seja de comum acordo ou não, a medida dá sinais de que Cristina não consegue mais controlar a alta de preços. Enquanto índices oficiais divulgam inflação em 10,8% em 2012, consultorias privadas estimam que os aumentos chegaram a 25%.

– Os próximos capítulos já são conhecidos: falta de produtos nos supermercados e aumento do comércio informal – projeta Coggiola.

Exportador se prepara para mudar contrato

Já habituadas a medidas protecionistas do governo argentino, empresas brasileiras que exportam para o país vizinho estão diante de um panorama diferente. De acordo com Diego Flores, coordenador de embarques da Oderich, a companhia pretende modificar o prazo dos contratos de agora em diante.

– Vamos diminuir o ritmo até o cenário por lá ficar mais claro – conta.

Atualmente, o tempo médio dos contratos da Oderich com as companhia na Argentina é de dois meses. Com a manutenção do preço nas gôndolas, a expectativa de Flores é de que os novos acordos tenham prazo máximo de um mês.

Apesar do congelamento afetar mais diretamente os exportadores de alimentos nesse primeiro momento, Alberto Alzueta, presidente da Câmara de Comércio Argentino Brasileira de São Paulo, avalia que todas as empresas que têm relações comerciais serão atingidas.

– Inflação alta provoca queda no consumo e recuo nas importações. Então, de maneira geral, todos os setores são afetados – afirma.

Experiência de má memória no Brasil

Congelamentos de preços para conter a inflação foram testados à exaustão no Brasil na década de 1980. O primeiro foi em 1986, quando o então presidente José Sarney anunciou o Plano Cruzado, que incluía a criação de uma nova moeda, o cruzado. No início, a população apoiou. Depois de alguns meses, produtores deixaram de abastecer o mercado, deixando vazias as prateleiras dos supermercados. Embora devesse durar por um ano, logo após as eleições o Plano Cruzado naufragou, e os preços voltaram a ser livres. Daí surgiu a expressão "estelionato eleitoral". A medida foi repetida duas vezes, antes de ser abandonada.

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