Exterior02/02/2013 | 11h10

A exploração de ouro na Grécia pode custar caro

População do país está dividida sobre os efeitos da abertura de mina na economia e na natureza

Enviar para um amigo

Em uma floresta no nordeste rural da Grécia, tratores começaram a desmatar dezenas de hectares para a abertura de uma mina de ouro e de uma usina de processamento, que a canadense Eldorado Gold Corporation espera inaugurar nos próximos dois anos. A empresa também reabriu outras minas na região, extraindo ouro, cobre, zinco e chumbo nas montanhas.

Para alguns habitantes, toda essa atividade, que promete criar 1,5 mil empregos até 2015, é uma benção que poderia trazer um pouco de vida à sombria economia dos vilarejos nas proximidades. Contudo, para centenas de outras pessoas, as minas não passam de um símbolo de como a Grécia está disposta a aceitar qualquer desenvolvimento, não importa quais sejam os custos ambientais. Essas pessoas lembram que, há apenas 10 anos, a suprema corte da Grécia julgou que os danos ambientais causados pela mineração na região eram maiores que os possíveis ganhos econômicos.

— O negócio irá funcionar por 10 ou 15 anos e, então, a empresa vai simplesmente desaparecer, deixando para trás a poluição, como fizeram todas as outras — afirma Christos Adamidis, dono de hotel que teme que as novas operações acabem destruindo outros negócios locais. — Se o preço do ouro cair, as minas podem nem durar tanto tempo. Enquanto isso, a poeira criada pelas minas irá matar as folhas da região, não haverá mais cabras, oliveiras, nem mel.

Tensões em torno de novos esquemas de desenvolvimento estão ocorrendo em toda a Grécia, à medida que o país entra no sexto ano de recessão, ansioso para trazer indústrias que ajudem a gerar divisas e forçado pelos credores a simplificar os processos de aprovação. Ambientalistas são contrários aos planos para vender centenas de hectares para parques de energia solar, além de permitir a exploração de petróleo perto de ecossistemas delicados.

— Vemos as leis e as políticas se transformando — entende Theodota Nantsou, coordenadora de políticas do World Wild Life (WWF) em Atenas. — Estamos vendo avanços serem revertidos sob a desculpa de eliminar impedimentos aos investimentos. Contudo, em longo prazo os custos serão altíssimos.

A entidade ambiental alerta que diretrizes estão sendo ignoradas, afetando o uso do ar, da água e da terra, causando a redução das revisões obrigatórias para os planos de impacto ambiental e o aumento do uso de carvão mineral, além da probabilidade de que 95% do fundo ambiental grego — mais de US$ 1 bilhão angariados para melhorar a eficiência energética do país e para sustentar as agências de conservação ambiental — sejam absorvidos pelo orçamento do país.

Governo iz que precisa modernizar legislação

Em junho, o WWF — entidade global de preservação ao ambiente — publicou um relatório dizendo que estava testemunhando uma "avalanche de importantes perdas ambientais". O fundo afirmou que a reversão de alguns progressos era uma tentativa de cumprir as demandas do trio de credores do país: Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia, que têm sustentado a Grécia nos últimos anos. O WWF afirmou que as perdas foram igualmente causadas pelas iniciativas colocadas em prática por diversos ministérios.

Contudo, nenhum projeto parece ter causado mais reação do público que a retomada das operações de mineração nas montanhas ricas em minérios da região, onde reza a lenda que o próprio Alexandre, o Grande, procurou ouro. As antigas operações de mineração ascenderam e decaíram rapidamente e suas fortunas oscilaram de acordo com o preço dos metais, deixando atrás de si pilhas de dejetos acinzentados. Praticamente todas as pessoas da área contam histórias sobre como o escoamento das velhas minas deixava o mar amarelo de vez em quando.

Contudo, o ressentimento em torno das minas parece refletir a desconfiança generalizada dos gregos em relação ao governo: a crença sincera de que a maior parte dos funcionários públicos está preocupada demais enchendo os bolsos de dinheiro à custa do país.

Nick Malkoutzis, colunista do jornal conservador Kathimerini, escreveu que é difícil criticar os habitantes por sua desconfiança quando tantas empresas são autorizadas a ignorar regulamentos.

— Talvez em algum outro país as pessoas se sentissem mais confortáveis com o projeto, uma vez que seus processos de concessão de contratos e certificados ambientais sejam transparentes e confiáveis — escreveu.

Oponentes reclamam, por exemplo, que quando o governo grego fez o acordo com a Eldorado, não foi capaz de garantir que o país recebesse parte do faturamento, prática comum em contratos de mineração. Além disso, acreditam que a carta de crédito de 50 milhões de euros (cerca de R$ 135 milhões) dada ao governo como garantia não é suficiente, caso ocorra algum problema.

Autoridades do Ministério do Meio Ambiente da Grécia estão revisando as regulamentações com o objetivo de "criar políticas ambientais mais modernas", que se adaptem aos investimentos necessários. As autoridades também defendem a decisão de reintroduzir a mineração na área de Chalkidiki, afirmando que o norte da Grécia constitui um "rico reservatório" de metais.

A Eldorado tem planos para a região. A empresa pretende investir 1 bilhão de euros (cerca de R$ 2,7 bilhões) na mineração e espera que as atividades durem ao menos 15 anos.

Comentar esta matéria Comentários (0)

Esta matéria ainda não possui comentários

Siga perfis de Economia no Twitter

Imprimir
clicRBS
Nova busca - outros